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COMUNA - COMUNIDADE ATIVA PRÉ-VESTIBULAR POPULAR

24/03/2008 GMT 1

Apostila: História do Espírito Santo I

comunaprevestibularpopular @ 02:19

INTRODUÇÃO

A região da baia de Vitória começou a ser habitada por populações pré-históricas a partir de 5.200 a.C, aproximadamente. É quando os contornos atuais do litoral iniciaram sua definição com o surgimento de mangues, restinga e ampliação dos recursos alimentares, que tornaram a região um local privilegiado para a vivência dos grupos indígenas.
A ocupação do território se dá, sem sombra de duvidas, pelas nações indígenas locais, sendo que no caso específico da ilha aventa-se, principalmente que sejam as nações tupiniquins e/ou guaranis. Essa dúvida até hoje paira sobre nossas investigações, e somente estudos arqueológicos mais profundos e sistemáticos, na área antiga de ocupação e atual região da Capixaba e arredores, poderiam nos fornecer a certeza dessa ocupação primitiva.
A designação mais antiga da Ilha principal e maior do arquipélago, composto por 34 ilhas, é Guananira. Na tradução portuguesa do tupi-guarani goá significando baia, nã, semelhante e Ira, no nheengatu, significa mel; por isso a conotação popular corrente, na atualidade, é Ilha do Mel.
A ilha recebeu diferentes nomes na sua trajetória até os nossos dias. Quando reconhecida, em 1535, em mapeamento da baia, então considerada um rio, o Rio do Espírito Santo, por Vasco Fernandes Coutinho, recebeu o nome de Santo Antonio.

[...] o alvará da dita doação da dita ilha ou leziria de Santo Antônio e, feito o dito alvará por sua própria pessoa, lhe fora a pegar a dita ilha e lhe dera corporalmente posse atual, civil e natural, e como senhor e governador da terra o incorporou na posse da dita ilha e, em pessoa dele, Vasco Fernandes Coutinho, ele, Duarte de Lemos, dera logo às pessoas e moradores da terra grandes partes de sesmarias das terras da dita ilha para aproveitarem e a povoarem, fazendo fazenda para si como em cousa própria, forra e isenta do dízimo a Deus [...]

A presença regular da Companhia de Jesus, à partir do ano de 1551, foi crucial no desenvolvimento da Capitania, até sua expulsão, em 1760. Os portugueses capitaneados por Vasco e seus sucessores tinham como principal objetivo a busca de ouro e pedras preciosas, deixando muitas atividades administrativas e econômicas nas mãos dos jesuítas e contavam com eles para a sua principal função: a catequese do indígena, que forneceria mão de obra e, principalmente, pacificaria os nativos.
Não é de se estranhar, que somente aqui portugueses e jesuítas não entraram em confronto, nem pessoal e muito menos armado. As fazendas dos inacianos eram as principais fornecedoras de produtos agrícolas da capitania.
A ocupação populacional regular da ilha, isso significando a constituição do centro urbano da cidade alta, se deu em torno do Colégio de São Thiago, sede administrativa e geográfica dos jesuítas na capitania do Espírito Santo. O inicio da construção do Colégio, no ano de 1551, com a chegada do Padre Afonso Brás e o irmão leigo Simão Gonçalves, coloca-o como um dos mais antigos do Brasil. Em 1589, Padre José de Anchieta é registrado como superior do Colégio do Espírito Santo, indicando a importância do Espírito Santo na obra desenvolvida pelos jesuítas no Brasil.
A ocupação realizada por Duarte de Lemos, registra-se, foi feita pelo lado oeste da ilha onde hoje está situado o bairro de Santo Antonio. Não há registros de onde tenha se iniciado tal ocupação, mas acreditamos que seria provavelmente a região entre o Cais do hidroavião e a Ilha das Caeiras, por ser terreno mais espraiado. Consta que ergueu casa na parte mais alta da Ilha e ao seu lado uma igreja, que viria a ser o patrimônio mais antigo existente em Vitória, a Igreja de Santa Luzia. Uma ocupação rarefeita, já que o nobre tinha posses em outros locais do Brasil, e que foi sobrepujada, quando nosso Donatário para cá transferiu a sede da capitania.
A data oficial de fundação da Vila foi estabelecida no dia 8 de setembro de 1551, mas documentos provam que a Vila já estava fundada desde 1550, provavelmente entre fevereiro e março desse ano, ou fins de 1549.
De 1550 é o predicamento de vila dado à povoação, que tomou o nome de Vila da Vitória. Tal fato teria ocorrido antes de três de março daquele milésimo, pois dessa data existe uma provisão passada por Antonio Cardoso de Barros, “Provedor-mor da Fazenda de El Rei Nosso Senhor nestas partes do Brasil”, onde se lê: “ Faço saber aos que esta virem, que por nesta Villa da Victória Província do Espírito Santo Capitania de Vasco Fernandes Coutinho ...”
A tradição reza, que foi o triunfo alcançado pelos ilhéus a 8 de setembro de 1551, na maior batalha contra os índios e sua conseqüente expulsão da ilha , que teria dado o nome a Vila Nova, como passa a ser popularmente conhecida até o século XIX.
Consta por tradição que Vasco Fernandes Coutinho, vendo-se de continuo inquietado pelo gentio, juntara suas forças, expulsára o Gentio da maior ilha que estava na baia, uma legoa acima da villa, n’ella se estabelecêra, e fundara a villa denominada da Victória, tendo neste logar alcançado a maior vitória, por isso como tropheo, assim a denominou: não consta o anno d’este acontecimentos; porém sim que no anno de 1551 o padre Affonso Braz, da companhia de Jesus, [...], dêo principio a fundar o Collegio na Villa da Victória, n’ella foi sepultado o venerável padre José de Anchieta em 9 de julho de 1597, hoje serve de casa de residência do Governo, o que prova já neste anno estar fundada a villa.
Em 1572, quando da divisão da colônia em dois governos, o Espírito Santo foi localizado, junto com Porto Seguro, na Repartição do Sul. Vitória contava, nesse período, com 1.390 “fogos”, como se chamavam as casas residenciais que comportavam fogões à lenha.
O Colégio dos Jesuítas, também conhecido como Colégio de São Thiago, aparecia como a principal edificação da ilha durantes os séculos de história de Vitória. Ele abrigou Tomé de Souza, então Governador Geral do Brasil, em 1552, que lá se hospedou, assim como todas as autoridades que visitaram o Espírito Santo, inclusive o Imperador Pedro II em 1860. Daí partia também a maior parte das mobilizações para a defesa da Capitania contra os invasores estrangeiros, sendo o índio o principal combatente dos batalhões formados.
Em 1581, quando três naus francesas investiram contra a vila, foram os catecúmenos aldeiados pelos inacianos que saíram a campo em defesa da terra, matando e ferindo a muito dos assaltantes. “Os moradores, atemorizados, não acharam quem os defendesse senão quase só, diz Anchieta, os índios das aldeias jesuíticas”.
A Vila de Vitória como Praça Fortificada
O acirramento das relações portuguesas com outras nações européias, principalmente durante a União Ibérica na sua apropriação pela Espanha, fez com que as principais construções da Vila, no século XVII e XVIII, estivessem ligadas a sua defesa. Os fortes acabariam por delimitar os contornos da vila, pois ficavam nos pontos estratégicos e extremos, voltados para o mar.
Assim, em 1648, foi construído o que se presume ser o primeiro forte da Ilha, o forte de São João, por Dão João de Castello Branco. Esse forte fica localizado em frente ao Pão de Açúcar, hoje Penedo, e no governo de Francisco Gil de Araujo foi reerguido.
O “fechamento” do forte junto à barreira natural do morro (hoje Forte de são João), literalmente feito durante muitos séculos com larga e grossa corrente atravessada até o Penedo, funcionou como o delimitador leste da Villa da Victória. A partir dessa região, as áreas da ilha eram consideradas rurais.
A Villa tinha precárias ligações com a fazenda de Jucutuquara, passando pelo Forte de São João, como vemos na foto seguinte. A estrada ligando a Maruípe só começou a ser construída em 1792.
Em 1667, já existia a Fortaleza de Nossa Senhora do Carmo, construída nas vizinhanças do porto dos padres, trecho hoje compreendido entre o prédio dos Correios e o Teatro Glória.
Em 1693, registra-se na villa de Victória, o que seria o primeiro ouro encontrado no Brasil, no Rio da Casca, afluente do rio Doce, e em território da capitania do Espírito Santo. A historia regional marca esse período, da exploração aurífera, como fator de atraso de cem anos para a capitania, pois o nosso espaço geográfico teria sido usado como barreira contra os desvios do ouro.
Devemos considerar também, e não apenas isso, que a política da Coroa Portuguesa para a área aurífera do sudeste, proibiu a abertura de estradas do Espírito Santo em direção às minas de ouro e vice-versa, além de criar sua Capitania Real das Minas Gerais, em 1720, com a maior parte das terras capixabas.

Desde o ano de 1704, através da Bahia, vinham ordens rigorosas de Portugal para que não houvesse migração de capixabas em direção às minas, e que os que lá estivessem, fossem recambiados à capitania.

A explicação tradicional da “barreira verde”, onde se atribuiu à dificuldade de transposição da Serra do Mar e a resistência dos índios bravios toda responsabilidade por termos ficado alijados da comercialização aurífera, não leva em consideração as atitudes políticas da Coroa e, muito menos, os interesses das outras capitanias envolvidas no comércio.

O “temor” da Coroa de que “quantos mais caminhos houver mais descaminhos haverá” , não se pautou, em nosso entender, por uma opção relacionada ao caminho mais curto, que seria a Capitania do Espírito Santo e o porto natural de Vitória. Para isso, basta levarmos em consideração as condições geográficas de São Paulo e Rio de Janeiro, onde a Serra do Mar também presente e em extensão maior aumentava a distância no embarque portuário do ouro, o que realmente ampliaria as oportunidades de contrabando.

Racionalmente, o primeiro ouro descoberto na região, nos fins do século XVII, pelo paulista Domingos José Arzão, na área conhecida como “Casa do Casca”, foi trazido para registro pelo caminho mais fácil, na vila de Vitória.

A rigorosa proibição de comércio com as minas evidentemente prejudicou o Espírito Santo, que não teve força política suficiente para bancar a participação e/ou a manutenção do seu território, reflexo das ausências e/ou deficientes administrações dos Capitães-Mores ou de seus Governadores , e transformou a sede da capitania em uma praça de guerra, com investimentos apenas na área militar. O desenvolvimento da Vila de Vitória foi comprometido, pois a sujeição do Espírito Santo ao governo da Bahia, como capitania subordinada, inibiu as funções político-administrativas e culturais da sede.
De qualquer maneira, podemos perceber a importância da área de Vitória, pois foi ela a receber a maior parte dos investimentos na área militar, que vieram para a capitania no século XVIII. No ano de 1726, por exemplo,o vice-rei, conde de Sabugosa, contratou o engenheiro Nicolau de Abreu Carvalho para remodelar e construir mais fortificações. Remodelou entre outras as de São João, ampliando e melhorando a reforma que se tinha feito em 1702, por ordem de D. Rodrigo da Costa ; o de Nossa Senhora do Monte do Carmo, que recebeu casa de pólvora ; construiu a de São Mauricio, ou São Inácio, dentro da vila na marinha da cidade , em frente ao porto dos Padres; São Thiago, que passou a se chamar São Diogo, localizada hoje onde se encontra a escadaria de mesmo nome, que liga os fundos da Catedral Metropolitana a Praça Costa Pereira.
Em 1728, Vitória contava com aproximadamente 5.000 moradores, tidos como pobres e sem atividades comerciais de destaque , mas a cidade continuava a modelar seu espaço urbano.
Quando os jesuítas foram expulsos do Brasil, pela política pombalina, em 1760, suas propriedades ficaram em posse do governo e muitas foram a leilão público.
O Colégio foi ocupado pelo governo local, e assim esta até nossos dias. O palácio Anchieta, nome que o colégio recebeu no século XIX em homenagem ao padre jesuíta, é considerado o prédio mais antigo de ocupação governamental do país.
O Convento de São Francisco, mais antiga sede dos franciscanos no sul e sudeste do Brasil, e primeiro noviciado dessa área, conclui as obras iniciadas nos anos seiscentos.
O Bispado da Bahia, ao qual éramos submetidos, cuidava das questões religiosas, depois que os jesuítas foram expulsos em 1760. No século XVIII, ficamos sob os cuidados do Bispado do Rio de Janeiro.
No ano de 1765, com beneficio de provisão do Bispado da Bahia, datada de 14 de setembro, foi levantada na vila da Vitória a Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, a requerimento de uma Irmandade instituída por pretos, devotos da Santa, no morro do Pernambuco. Atualmente a Igreja situa-se na Rua do Rosário, com acesso pela grande escadaria do mesmo nome, atrás do Teatro Carlos Gomes.
Em 1768, novas providências são tomadas no aumento do efetivo militar e construção da Fortificação da Ilha do Boi e reforma das da Barra de Vitória. Para esse trabalho foi contratado o engenheiro José Antonio Caldas que deixa rico relato sobre a capitania, de como a viu em 1767, além um precioso mapa da Ilha de Vitória.
Ao mesmo tempo, contradizendo o aspecto de decadência e atraso, Saint-Hilaire citando a obra do poeta inglês Robert Southey, intitulada “History of Brazil”, relatava que “ por volta da metade do século 18, [Vitória] era considerada uma das principais cidades da América portuguesa pela importância do trabalho dos inacianos aqui”, e considerou que a expulsão dos jesuítas, em 1760, foi o principal fator da decadência que se estabeleceria na província, já que a maior parte da população era formada por índios e esses, após a expulsão daqueles que os protegiam, se evadiram e abandonaram o trabalho regrado.
O crescimento da cidade de Vitória, no final do século XVIII, acompanha os de outras cidades no Brasil, principalmente aquelas que não foram beneficiadas pela exploração aurífera. Sobrados e casas térreas feitas de taipa portuguesa, ou pilão, adornavam as ruelas estreitas e tortuosas, herança européia e que dificultava as invasões estrangeiras e dos nacionais indígenas, facilitando a defesa da Vila.
Em 1790, a população da vila é de 7.225 habitantes sendo 4.898 escravos, o que equivalia a 67,5% da população da capital. Esse número expressivo de escravos, que valiam até 800$000 ( oitocentos mil reis), demonstra que existem fortunas significativas na cidade de Vitória, pois possuí-los demanda capital.
[...] Posse de escravo era sempre indicio de prosperidade. Assim, no fim do século dezoito, a cidade é pobre mas a população remediada. Importam-se mercadorias no valor de 21:267$840 [contos de reis], e exportam-se 45:668$480, saldo belíssimo , senão em valor, em percentagem altamente abonadora. A maior parcela de importados é de tecidos:[...] panos de linho, cambraias e sedas. Segue-se o sal, monopólio da Coroa, [...]; e o vinho a 76$800 a pipa, num total de [...] 16 pipas, [..].

Panorama Geral da Província do Espírito Santo no século XIX.
As administrações que geriram o Espírito Santo no século XVIII, e durante o Império, podem ser classificadas de desastrosas, mas não se diferenciam das outras partes do país, onde o poder centralizado nas mãos dos capitães/governadores era total, embora o desconhecimento sobre o espaço administrado fosse um fato.
Apesar de alguns presidentes da província do Espírito Santo escolhidos pelo governo imperial, serem nomes importantes da história política brasileira,nenhum deles foi capixaba, eles não se destacaram pelas atuações em terras capixabas.
[...] Antonio Pires da Silva Pontes Leme fora nomeado [...] por proteção de D. Rodrigo, Conde de Linhares. [...] Tinha a mania de retirar os agricultores de suas terras para retê-los por meses inteiros na Vila de Vitória, a fim de exercitá-los em serviço militar [...]. Francisco Alberto Rubim [...] mas, se tal administração foi brilhante, deixou de ser de acordo com as Leis do Estado e os princípios de uma economia sábia. [...] Em seu governo, proibiu vender algodão com semente e arroz com casca. Por fim, o que parece quase incrível, a farinha de mandioca, colhida em arrabalde da Vila da Vitória, foi taxada em 2 cruzados por alqueire, enquanto a de outros distritos da capitania ou de províncias vizinhas podia ser vendida a preços especulativos.
A essa afirmativa somava-se a alta rotatividade dos presidentes nomeados para o Espírito Santo, fato que ocorreu também em outras províncias, com a exceção do Rio de Janeiro. Nos 65 anos de administração imperial, acumulamos 100 governantes, entre Presidentes e Vice-presidente, a frente da Província, o que representa tempo médio de pouco mais de um ano para as gestões. A inferência lógica é que nesse escasso tempo frente ao poder provincial, era praticamente impossível administrar ou gerir projetos, no sentido de fazer progredir a Província capixaba.
Isto posto, quero insistir na questão política para refletir, sob seu foco, a trajetória da província no período imperial, reconhecendo o peso de tal questão na nossa trajetória. O que falar, por exemplo, dos eleitos pela província para a representação na Corte? Resguardadas as peculiaridades das eleições no período imperial, onde as províncias elegem candidatos nacionais para a Câmara dos Deputados e o Senado é vitalício, a maior parte da leitura da historiografia local comungou que os deputados eleitos pela província e os seus senadores, praticamente nada fizeram por ela.
A pequena densidade demográfica e o mutismo da bancada, nas duas câmaras do Império, não intimidavam os ministérios. José Bernardino Batista Pereira, deputado pela Província, em 1828 foi feito ministro da Fazenda; nem, ao menos, melhorou a dotação orçamentária para as necessidades primárias da unidade que o elegera.
Essas observações têm sido entendidas como uma vulnerabilidade política local, até os dias de hoje. Acredito, no entanto, muito mais na dialética da ambigüidade da elite política capixaba que sempre soube muito bem conciliar com o poder central. Observemos ainda o que reflete Evaldo Cabral de Mello sobre a política imperial:
[...] Dada a natureza inautêntica do nosso sistema representativo, as reivindicações regionais visavam, sobretudo o rateio dos cargos ministeriais. [...]. Reivindicar publicamente interesses regionais ou provinciais era um comportamento que raiava à obscenidade e que podia comprometer as ambições de carreira. O político da monarquia timbrava, por conseguinte, em projetar a imagem de estadista nacional, pairando acima do que pejorativamente era designado por “bairrismo”, para em teoria só enxergar os interesses superiores do país. [...]
Desse modo, a política imperial refletida no projeto político centralizador do Império, marcou a predominância do nacional sobre o regional, nacional esse representado pelo centro geográfico do poder, a cidade do Rio de Janeiro.
No século XVIII, a Coroa reforça o poder político do Rio de Janeiro com medidas legislativas que beneficiam a cidade e seu desenvolvimento, exatamente ao contrário da política adotada para o Espírito Santo.
Se a ocupação da Capitania do Rio de Janeiro nos dois primeiros séculos se restringira praticamente à baixada, o descobrimento das minas no centro do território possibilitou o inicio do povoamento do seu interior, no decorrer do século XVIII.
De um lado, ocorreu o crescimento da cidade [...], tornada centro polarizador também da região mineradora por determinação régia. A abertura do “Caminho Novo” por Garcia Rodrigues Pais, no inicio do século, permitia a cidade exercer sua função de escoadouro da produção dos centros mineradores, ao mesmo tempo que a de porta de ingresso dos artigos vindos do exterior.
Do outro lado, a abertura do novo roteiro até as minas e o surgimento de suas variantes permitiram o rompimento da barreira da serra, que parecia aprisionar os grupos humanos no litoral, e a intensificação do povoamento da parte central do interior da capitania.
A Vila da Vitória, que se tornaria cidade em 18 de março de 1823, foi mostrada como uma vila inexpressiva, principalmente nos relatos dos Presidentes de Província, que tinham interesse em conseguir cada vez maior numerário, para implementar as políticas pessoais de administração do espaço capixaba, ou simplesmente alavancar suas carreiras políticas.
Cabe ressaltar, como argutamente o fez José Teixeira de Oliveira, que dois anos depois, em oficio datado de 12 de abril de 1826, enviado ao Ministro José Feliciano Fernandes Pinheiro, o mesmo presidente relatou a grande produção de mandioca na província, principalmente em São Mateus e a ajuda prestada no fornecimento de farinha as províncias do Norte, que passavam por período de seca.
Cabe-nos refletir, que os padrões de cidade utilizados para essas comparações seguem o tipo europeu, ou a cidade do Rio de Janeiro, o que nos colocava sempre, ou a outra qualquer vila brasileira, em desvantagem.
Embora essa visão depreciativa sobre Vitória seja regra, existem exceções. Mesmo aos europeus, na primeira década do século XIX, as considerações sobre a cidade demonstravam ambigüidades, relatando regularidade no bem estar da população apesar do signo de decadência.
Aqui, entretanto, não se vêem casas abandonadas ou semi-abandonadas, como na maioria das cidades de Minas Gerais. Dedicados à agricultura, ou a um comércio regularmente estabelecido, os habitantes da Vila de Vitória não estão sujeitos aos mesmos reveses dos cavadores de ouro e não tem motivo para abandonar sua terra natal. Cuidam bem de preparar e embelezar suas casas. Considerável número delas tem um ou dois andares. Algumas têm janelas com vidraças e lindas varandas trabalhadas na Europa. [...] Há, na Vila da Vitória, algumas fontes públicas, que também não concorrem para embelezar a cidade, mas, pelo menos, fornecem aos habitantes água de excelente qualidade (grifos meus).
Podemos afirmar que, no inicio do período imperial, a vida em Vitória seguiu a dos núcleos urbanos do interior brasileiro, como pude constatar na descrição dos viajantes estrangeiros, da primeira metade do século XIX,
[...] caracterizava-se por um aspecto descuidado, sendo imprecisos os limites entre a zona rural e urbana. Boa parte da população vivia em chácaras cujos limites chegavam à cidade. A maioria das casas era construída de taipa, segundo a tradição colonial [...] Nas cidades do interior os únicos edifícios dignos de registro eram as igrejas e conventos (grifo meu), e mais raramente os edifícios da Câmara e cadeia [...] Dada a falta de esgotos, os dejetos eram despejados nos ribeirões ou no mar [...] Apenas nas cidades mais importantes havia assistência hospitalar e essa era, em geral, fornecida pelas Santas Casas, instituições religiosas filantrópicas, de caráter paternalista, inspiradas na tradição de caridade cristã, típica do catolicismo. Entre seus patrocinadores figuravam representantes dos setores mais ilustres da sociedade local que a amparavam através de doações pessoais ou subvenções estatais, obtidas graças ao seu prestígio junto ao governo (grifo meu) [...].
Impressionante, no entanto, foi o relato que reproduzimos a seguir, de obra que se propôs realizar a história da Ilha, em referência a primeira metade do século XIX, e que representava bem, a falta de um olhar mais amplo e cientifico sobre as condições urbanísticas das cidades brasileiras de então.
Vitória foi tipicamente cidade colonial portuguêsa. [...] Como moravam mal os capixabas, como se submetiam pacificamente aos azitumes descritos pelas mulas em suas caminhadas obrigatórias! A geometria só apareceu com a República. [...] Raríssimas casas tinham janelas em todas as peças. [...] Uma ou outra tinham sacadas guarnecidas de gradis de ferro batido, apainelados, cujos parapeitos se rematavam com pinhas de vidros coloridos. [...] Cidade suja, sem esgotos, as fezes eram guardadas em tonéis de madeira à espera do despejo, à noite. [...] A fama da cidade suja deslustrou, por muitos anos, o nome da capital e do estado. A pobreza havia crescido assustadoramente (grifo meu).
A elite capixaba e seus filhos, na maior parte formados nas escolas e faculdades da cidade do Rio de Janeiro, partem dessa cidade, capital do Reino Unido e depois do Império, para estabelecer comparações com Vitória, muitas vezes “cegos” a real situação da cidade carioca, deslumbrados com o aparato das celebrações teatrais da Corte e do Império.
Para estabelecermos comparações mais pertinentes apreciemos então uma descrição, do inicio do século XIX, da sede do governo do Estado do Brasil.
Do Rio de Janeiro, [...], pode-se dizer que preservava as características de uma quase aldeia ao encerrar-se o período colonial. Ruas estreitas, escuras, e sujas; não havia remoção de lixo, sistemas de esgoto, qualquer noção de higiene pública. As casas eram térreas em sua maioria, [...] Obras públicas, somente o passeio público e o Aqueduto da Carioca.
As diferenças com a paisagem do Rio de Janeiro se aprofundaram a partir de 1840, devido a fatores que se somaram em prol do desenvolvimento da capital do Império. Iniciou-se com a comercialização do ouro e concretizou-se com a vinda da família real, a proclamação da Independência pelo Príncipe Regente, que deslocou todo eixo político para o centro-sul, a produção cafeeira e sua transformação em principal porto do Brasil. São 266 mil habitantes, no final da década de 1840, que desfrutavam de faculdades, teatros com apresentações de companhias internacionais, uma vida cultural diversificada e europeizada, mercado interno consumidor representativo e o maior centro de exportações e importações do país.
Reforçando essa representação, referencio-me a Luiz Felipe de Alencastro , que mostra o Rio de Janeiro como padrão comportamental para todo o Brasil, na transição dos séculos XIX e XX, destacando a organização espacial e política da capital, o crescimento da burocracia imperial, o estabelecimento das câmaras, juizados municipais e a própria indicação dos presidentes de províncias, auxiliando na centralização do poder na região fluminense.

Entre a diversidade regional esboçada nas diferentes partes da Colônia desde o Seiscentos e a influência estrangeira continuamente manifestada após a abertura dos portos em 1808, o Rio de Janeiro funciona como uma grande eclusa, recanalizando os fluxos externos e acomodando os regionalismos num quadro mais amplo, pela primeira vez verdadeiramente nacional. Para se ter uma idéia da densidade de atividades concentradas na cidade do Rio de Janeiro, considere-se que sua renda tributária municipal – referente aos impostos e taxas recolhidos pela Câmara – superava, em 1858, a renda municipal do conjunto de cidades de qualquer uma das vinte províncias do Império.
A questão da preponderância comercial também contribuiu para que aprofundássemos nossas diferenças com a capital da Província. Apesar de reconhecidamente termos um porto natural na cidade, havia necessidade de obras para a ampliação do calado do mesmo, obras essas que só ocorreram na República.
Entre 1830 e 1840 as condições das estradas da Província eram péssimas, e em 1836 a estrada Geral, litorânea que ligava Vitória ao Rio de Janeiro e Bahia, parecia um grande atoleiro quase intransitável “entorpecendo a marcha dos viajantes e estafetas”.
Esses fatores contribuíram para que todo o comércio exterior da província tivesse a intermediação da capital do Reino e a produção cafeeira, principal produto capixaba a partir de 1850, fosse comercializado pagando impostos na praça do Rio de Janeiro, resultando daí evasão de nossas divisas.
O comércio se fazia quase que exclusivamente com o Rio de janeiro. Por intermédio dessa praça, a Província importava os artigos estrangeiros de que necessitava. Escoavam-se por ela, também, para além-mar, os produtos de sua lavoura.
A Província estava unida aos distritos de Campos formando uma Comarca corrigida pelo Ouvidor desta, desde 1741, o que reforçava nossa dependência, colocando-nos sob a jurisdição judicial campista.
A exportação tinha na farinha de mandioca, gênero de consumo exclusivamente interno, seu principal produto, representando 61,4% do total; além dela, o açúcar, 16%, fio de algodão, 7,3%, e outros produtos como arroz, cachaça, feijão, milho, cal, colchas e redes, com cifras pouco significativas no total geral das exportações.
A província importava desde o sal, farinha de trigo, telhas e tijolos, até carne seca, marmelada, velas de sebo e drogas para as boticas. Essa relação estabelecida entre as exportações e importações colocava o Espírito Santo fora das condições mercantilistas de desenvolvimento, já que nossa balança comercial era desfavorável, o que acabava caracterizando a nossa vida colonial e provincial como fracassada e atrasada.
A evolução educacional era lenta, o que restringia a vida cultural capixaba, e afastava a elite em formação que enviava seus filhos para estudar em Coimbra, Salvador ou Rio de Janeiro, propiciando a essa um maior envolvimento com problemas gerais e nacionais, do que com as questões locais.
Em 1856, a realidade da província já demonstrava as mudanças produzidas pela expansão da cultura do café. A população escrava que se mostrou decadente nos primeiros anos do século XIX, sofreu aumento considerável na região de Cachoeiro de Itapemirim, - 23,7% do total da província em 1824 - passou para 35,7% em 1856, tornando-se o maior núcleo escravo do Espírito Santo, enquanto a capital perdeu sua hegemonia populacional e econômica.
Enquanto, no Rio de Janeiro, o café reforçou e ampliou a infra-estrutura da cidade e de seus arredores, melhorando o sistema de meios de comunicação para escoamento das produções da baixada fluminense e outras áreas interioranas; no Espírito Santo, o crescimento da rubiácea na região sul, fragilizou a posição da capital.
Em muitos momentos, diversos grupos políticos defenderam a transferência da capital para Cachoeiro do Itapemirim, que possuía laços estreitos com a capital do Império, o que lhe valeu a primeira estrada de ferro da província, sendo também a primeira cidade a ter luz elétrica.

As condições urbanísticas da Vila de Vitória no século XIX.
A capitania do Espírito Santo, ainda sob a jurisdição da Bahia, da qual nos separaríamos em 1810, retomando nossa “independência”, recebeu em 29 de março de 1800, o seu novo governador, Antonio Pires da Silva Pontes Paes Leme e Camargo, nomeado desde 1797.Silva Pontes era mineiro e inaugurou uma série de administrações regidas por oficiais superiores do exército.
Seu governo foi marcado pela assinatura do auto de demarcação entre o Espírito Santo e Minas Gerais, em 8 de outubro de 1800, o que ressalta a sua presteza administrativa, em colocar em ação a política da Coroa, comandada por D. Rodrigo de Souza Coutinho, de navegação do Rio de Doce.
Por essa extrema dedicação ao projeto da Coroa, Silva Pontes não se preocupou com a capital e sim com sua ligação com a área norte, sua área de atuação, construindo a primeira ligação da ilha com o continente, a ponte da passagem. Na época um pontilhão construído com mão de obra indígena, a base de pegões de alvenaria.
A partir do governo Silva Pontes, até o advento da República, a historiografia capixaba ressalta a ação do Governador Francisco Alberto Rubim, que governou de 1812 a 1819.
Rubim, nas suas “Memórias”, deixou-nos excelente descrição da província. a descrição inicial é só elogio a situação da ilha.
Sua principal villa é a da Victória, cabeça da comarca, tem seu assento em uma ilha montuosa quase duas legoas da barra, dentro forma uma bahia estreita, mas capaz de navios grandes, na entrada 5, 6, 7 braças, mais dentro 5, e acima da villa junto à ilha do Príncipe [ designação dada em 1860 em homenagem a Pedro II] onde está a casa de pólvora 30, e 40 braças. Seus ares são benignos, o terreno, fértil, produz todos os gêneros propícios do reino, e da Europa [...]; dez rios principais banhão seu terreno; os campos são alegres; as matas ricas de toda qualidade de madeiras de lei,[...].
Dentre suas principais obras constam a estrado do Rubim, que ligava Vitória a Vila Rica e só foi inaugurada em 1820, depois de sua saída do governo; a desobstrução do canal de Camboapina, construído pelos jesuítas para ligar a baia de Vitória com o Rio Jucu; restauração da Santa Casa de Misericórdia de Vitória ; locação de um boticário licenciado em Vitória e melhoramento dos cais da capital como o Cais Novo das Colunas, abaixo do palácio do governo, o do Azambuja, o cais Grande, para atracação das sumacas, o do Santíssimo, o do Batalha e o porto dos Padres, atrás do palácio do governo na atual General Osório.

Com a proclamação da Independência em 1822, novas instâncias passam a cuidar dos destinos das vilas e cidades. Em Vitória, a Câmara Municipal assume o poder de reguladora e inspetora das obras existentes e por fazer. Surge a necessidade de estabelecer novos limites entre os municípios para a cobrança regular de impostos e também para estabelecimento das políticas públicas. As rendas e despesas das Câmaras municipais eram controladas e aprovadas pelas Assembléias Legislativas Provinciais, criadas pelo Ato adicional, em 1834. No Espírito Santo, a Assembléia teve sua primeira sessão em 1835, presidida pelo padre João Clímaco.

A REVOLTA DE QUEIMADO

Em 19 de março de 1849, ocorre no Distrito de Queimado (atual município da Serra), o maior movimento de revolta escrava negra do Espírito Santo.

O Distrito de Queimado era ocupado por fazendas tradicionais na produção de cana de açúcar, depois de café, com mão de obra exclusivamente escrava. A região era expressiva economicamente também por possuir um dos portos fluviais mais importantes da região central de Vitória, localizado no Rio Santa Maria da Vitória, e que fazia o transporte de mercadorias da região interiorana do atual município da Serra e arredores para a cidade de Vitória.

Registra-se que durante a construção da igreja houve um recrutamento de escravos para o trabalho de construção, correndo entre os negros “a boca miúda” que no dia da inauguração da igreja seria concedida a tão sonhada liberdade. Na ocasião de sua inauguração, entretanto, verificou-se um movimento dos escravos sob alegação do descumprimento da promessa da alforria, negada com determinação pelo pároco, como podemos comprovar na carta publicada, do próprio a imprensa da época.

A historiografia tradicional capixaba, seguindo os passos da brasileira, trabalhou, na generalidade, com a idéia de que o movimento escravo de Queimado teria sido protagonizado pelo Frei Gregório de Bene, então pároco do distrito, que teria prometido aos escravos a liberdade em troca da construção da Igreja. A nova História, em releitura a documentação de época e a obra de Afonso Cláudio, “Insurreição de Queimado”, considera que o movimento foi protagonizado pelos negros capixabas, na liderança de Elisiário, João da Viúva e Chico Prego.
a Revolta de Queimado tornou-se um marco de memória no Espírito Santo por meio da obra de Afonso Cláudio e recebe atualmente grande atenção por parte, principalmente, do movimento negro enquanto referência da resistência política negra no séc. XIX.
IMIGRAÇÃO ESTRANGEIRA NO ESPÍRITO SANTO

A experiência inicial de imigração estrangeira para o ES foi feita com açorianos, em Viana, com a instalação da colônia em 15 de fevereiro de 1813. Esse primeiro processo imigratório foi incentivado por D. João,e trouxe para o ES 30 casais que se instalaram na região conhecida como sertão de Santo Agostinho.

O processo imigratório no estado foi caracterizado pela presença dos Núcleos Coloniais, localizados, principalmente, na região central de Vitória, em terrenos de serra, que não interessavam aos grandes proprietários.

Um dos fatos mais importantes para a província, à visita de Pedro II a Vitória, em 1860, provocou modificações na cidade. O porto dos padres e o cais das Colunas foram remodelados e ampliados, as ruas e becos foram limpos, os moradores caiaram suas casas, adquiriram mobílias novas, enfeitaram suas fachadas, o palácio do governo foi restaurado para receber sua majestade imperial.

No dia 16 de Novembro de 1878, é inaugurado o Gasômetro e estabelecida a iluminação particular, a gás, da capital. Em 1° de Março de 1879 festeja-se a iluminação pública e a gás em toda a cidade de Vitória.

A cidade de Vitória na Primeira República: a modernidade bate a nossa porta.
Antes de caracterizar a cidade de Vitória em fins do século XIX, talvez seja mais importante definir o significado das cidades em tal época, conceituar o papel exercido por elas na dinâmica da vida política, econômica e social do período.
O entendimento da vida urbana compreendida entre o período colonial e a industrialização brasileira deve ser feito considerando que essas cidades não podem ser observadas isoladamente e sim vistas em íntimo contato com a sua hinterland e com o mercado externo consumidor.
A República como nova forma de organização política esteve em uma perspectiva modernizadora, entretanto também foi em si a base da estruturação do regionalismo nacional, ou seja, uma República Federalista que possibilitou a ascensão das oligarquias ao poder; Positivista porque negava a ampla cidadania política aos brasileiros em face de restrições de sua Constituição, assegurando via mecanismos de dependência política – o coronelismo – o funcionamento e a manutenção da aristocracia rural nas cúpulas das decisões políticas nacionais, acentuando a hegemonia de regiões de maior poder econômico, cujo desenvolvimento das lavouras de café asseguravam o acúmulo de capital necessário à manutenção do poder e da convergência política na direção de regiões e interesses específicos.
A busca pela modernização em prol da inserção na economia mundial resultou em adoção de novas concepções não somente econômicas, mas também socioculturais, tendo a urbanização como comprovação prática da adoção da nova mentalidade capitalista, o que resultou em uma nova configuração do espaço físico das vilas e cidades.
As cidades possuíam uma função específica dentro da dinâmica colocada pelo sistema capitalista, apesar de não podermos assim definir o Brasil nos fins do século XIX, embora este esteja integrado ao mercado mundial
Está-se em presença de uma divisão internacional do trabalho, que produziu nas cidades [...] um setor de mercado externo, que se relaciona com a região que lhe é imediatamente subordinada, transferindo seus produtos primários à metrópole, ficando, assim, o desenvolvimento das cidades dependente da importância econômica de suas regiões.
Essas cidades, na sua generalidade, se caracterizavam como elos entre as suas regiões produtivas – a sua hinterland – e o mercado internacional. Eram cidades portos que realizavam o fluxo de exportação/importação em suas áreas de influência. Por seus portos eram exportados os produtos agrícolas das fazendas da região e importadas as mercadorias européias para atender a demanda local. “As cidades nesse período são, portanto, o resultado das relações que se dão através da sua mediação entre, de um lado, o campo economicamente produtivo e, de outro, a metrópole estrangeira” .
Os ícones e representações da modernidade estiveram filiados à construção de uma ordem triunfante de progresso no país, onde o conceito de progresso traduz padrões e modelos civilizatórios europeus e norte-americanos, países já industrializados e em franco desenvolvimento tecnológico, o que nos acarretava, sempre, comparações desmerecedoras e colocadas no âmbito da dependência.
O que se notava na atuação dos primeiros presidentes civis [...], bem como de seu circulo político-administrativo, era o evidente esforço para forjar um Estado-Nação moderno no Brasil, eficaz diante das novas vicissitudes históricas como seus modelos europeus.
A República também representou uma nova configuração na organização administrativa no Brasil. Com a criação do sistema federalista, as antigas províncias tornam-se estados. As municipalidades passam a contar, em algumas cidades, com uma prefeitura.
Em Vitória cria-se o Conselho Municipal em 1893, a partir da Constituição Estadual de 1892, sendo formado por nove membros que recebem o titulo de governadores.O Conselho seguia um regimento interno de 24/01/1893 e pelo Decreto nº. 05 de 23/01/1893 destinou 48% de seu orçamento, extraído da regulamentação da cobrança de imposto predial, para as obras públicas. O presidente do Conselho funcionava como poder também executor, acumulando o cargo de prefeito ainda inexistente.
O Conselho Municipal também organiza serviço de limpeza pública e coleta domiciliar de lixo, além do saneamento de valas e banhados, ordenação do abastecimento de carnes, melhorias da Vila Rubim e, ainda, abre novos bairros como o loteamento do Campinho ( atual Parque Moscoso).
O processo urbano-modernizador de Vitória, considerando suas especificidades em relação ao Brasil e ao mundo, já que esse processo aqui inicialmente não esta associado a industrialização, apesar dos esforços de diversificação de Jerônimo Monteiro, esteve diretamente ligado a formação de uma praça comercial que convergisse para si a função de escoar a produção do café, não somente do estado mas também da área centro-oeste e de Minas.
E para que essa praça comercial fosse criada, o estado precisava sistematizar as políticas urbanizadoras e a gestão das demandas municipais com maior agilidade e via centralização político administrativa. Tal demanda consubstanciou-se na criação do órgão gestor da modernização paisagística da capital do estado, a prefeitura de Vitória, em 1908. Em resumo, a política urbanizadora capixaba centralizou suas ações na capital, tendo nos governos Moniz Freire, Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos, seus principais executores.
O conceito de modernização das cidades dos políticos capixabas no início do século XX esteve voltado para o paisagismo e a salubridade, condições básicas para o novo status citadino, influenciado pelo crescimento da área da saúde e higiene pública. A cidade, no nosso caso Vitória, para as elites dirigentes do país e do estado era, parafraseando Jerônimo Monteiro, “a sala de visitas” do Espírito Santo.
Outra constatação importante para se entender a constituição urbana de Vitória é a sua função burocrático-administrativa. Antes da efetiva consolidação de sua região produtiva na área serrana do interior, a cidade se notabilizava por sua função política de sede administrativa da Província do Espírito Santo. “Fica implícita, nesta colocação, a outra facies da cidade, [...] vista como locus da autoridade político-administrativa ou [...] sede da burocracia do Governo” .
A dinâmica política, econômica e social de Vitória girou em torno dessa face burocrática por um longo período de sua história. Mesmo que tentativas de fazendas e aldeamentos jesuíticos tivessem tido relativo sucesso na Capitania, após a expulsão dos padres da Companhia de Jesus (no século XVIII) até os primeiros anos da República (no final do século XIX) a vida urbana da capital esteve ligada, essencialmente, a esse aparato governamental .
Este quadro, contudo, toma outro rumo quando se ampliam as atividades do comércio, em razão da expansão da lavoura cafeeira na região produtiva de Vitória . Esta região – ocupada em grande parte por imigrantes europeus e baseada na pequena propriedade de mão-de-obra familiar – torna-se uma importante produtora de café, chegando a se responsabilizar por até 40 por cento da safra provincial.
É o primeiro boom do café, período no qual a cidade de Vitória experimenta um relativo desenvolvimento: prosperam as casas comerciais estrangeiras e nacionais, incrementa-se a vida urbana da cidade. “Assim, instalou-se na capital um variado número de lojas comerciais, abriu-se espaço para o consumo de mercadorias importadas e incrementou-se o sistema de navegação” .
Entretanto, mesmo com esse relativo desenvolvimento comercial, Vitória não abrigava uma população superior a 10 mil habitantes no início do período republicano. Era uma cidade pequena e circunscrita à região central da ilha.
Entre os morros e o mar, essa pequena população urbana se exprimia no bairro que hoje é conhecido como Centro. Em seu redor, situavam-se várias fazendas; as de Santo Antônio, Maruípe e Jucutuquara . Por fim, ao norte da ilha localizava-se a região das praias: local ermo, desabitado e de difícil acesso .
O primeiro presidente eleito da província, Muniz Freire ( 1892 a 1894), tinha como prioridade no seu governo “... transformar Vitória numa grande praça comercial.” . Os planos munistas pretendiam transformar o Espírito Santo, reelaborar a organização espacial da província e centralizar os empreendimentos na capital , sendo que para tanto também previa a reestruturação da rede ferroviária para ligar as regiões produtoras à capital e a (re)construção do porto na cidade de Vitória, com capacidade de competir com os outros centros exportadores e visando melhor assimilação da demanda prevista. Estas ações apresentariam Vitória como um moderno centro econômico. Em suma, intentava-se transformar Vitória num grande centro populoso e centralizador de todo o comércio de exportação/importação do Estado – especialmente do café, nosso principal produto na época .
O intuito de conferir à Vitória um caráter moderno, em negação inclusive à sua origem colonial, revelou-se ainda no século XIX, com o projeto de um Novo Arrabalde, desenvolvido pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, correspondendo a uma expansão que, quintuplicava a área urbana da época.

Todavia crises financeiras relacionadas à comercialização do café inviabilizaram a urbanização imediata da área e contribuíram para a retomada de investimentos públicos de menor porte sobre o próprio núcleo urbano existente ou sobre sua extensão em área contígua.

Nesses termos, a modernização da capital capixaba iniciou-se propriamente durante o governo de Jerônimo Monteiro, entre 1908 e 1912. Nesse período têm-se um programa de urbanização voltado para mudanças estruturais como drenagem, aterros, cemitério público, matadouro municipal, lavanderias, ampliação de ruas, demolição de casario antigo e construção de novos prédios . Além da construção do primeiro parque público, “[...]Vitória recebia as mais importantes obras de infra-estrutura urbana até então vistas na cidade: rede de água, esgotos, energia elétrica e a introdução do bonde elétrico”.

A criação da Prefeitura Municipal foi ação de compasso perfeito com as ações urbanísticas de Jerônimo.Criada em 14 de dezembro de 1908 pela Lei estadual nº. 582, teve como seu primeiro administrador o então Diretor de Viação e Obras Públicas, Ceciliano Abel de Almeida, pelo Decreto nº. 243 de 9 de fevereiro de 1909. Assim a cidade deixa de ser gerida pelo Intendente Municipal e passa a ser governada pelo prefeito.

Nesse período a criação da prefeitura, pelo governo estadual, representou uma ampliação dos espaços de poder e das formas de acumulo de receita através dos impostos recém criados. Presidente do Estado e Prefeito da Capital falavam a mesma língua e tinham os mesmos projetos de modernização para a cidade.

A prefeitura tinha um quadro organizacional estabelecido em três seções: Procuradoria Geral, Hygiene Pública e Obras e Viação. Contava com o apoio do Conselho Municipal que foi mantido mesmo depois da criação da prefeitura.

A prefeitura municipal foi criada para sistematizar políticas e gerir demandas emergenciais de legislação, orçamento, higiene pública e construções como arruamentos, demolições, aterros e drenagens, por isso seu organograma geral na fase inicial, de 1908 a 1912, não se fez complexo. Teve como objetivo dinamizar a gestão municipal, voltada especificamente para administrar aquilo que pretendia o governo estadual.

Nas décadas seguintes, em continuidade a esse processo, foi desenvolvida uma série de projetos urbanísticos, planos e obras públicas com a intenção de retificar, ampliar e alongar percursos, além de criar novos espaços públicos sobre o traçado colonial da cidade ou em seu prolongamento. As transformações urbanas em Vitória, que ocorreram nas primeiras décadas do século XX foram motivadas

[...]muito mais pelo pensamento de progresso da elite dominante que assumiu o poder na República e pelo desejo de romper com um passado considerado vergonhoso, do que propriamente pela procura de soluções para dotar a cidade de melhorias para a vida de sua população. [...] Assim, no governo de Jerônimo Monteiro, as necessidades de mudanças na cidade encontraram eco no pensamento da elite dirigente do Estado.
O Espírito Santo passou a discutir sérios projetos de desenvolvimento com a nomeação e eleição de Presidentes de Estado nascidos capixabas, ou como no caso de Florentino Avidos, envolvidos seriamente com os destinos regionais. Discutiam-se os rumos futuros a seguir e os projetos de desenvolvimento regional. O quadriênio que vai de 1924 a 1928 é especialmente profícuo neste sentido. Refere-se aos anos do governo de Florentino Avidos.
Vários foram os projetos políticos que envolveram o desenvolvimento do porto de Vitória, crucial na independência comercial do estado do Rio de Janeiro, que realiza pelo seu porto a exportação de grande parte do café produzido na região sul capixaba, que tinha a cidade de Cachoeiro do Itapemirim como seu centro econômico.

Os estudos de engenharia para a ampliação, melhoramento e eficácia do Porto na área da capital remontam a 1881, quando a utilização do porto natural estrangulava o crescimento pretendido pelas elites políticas para o Espírito Santo, pois os navios estacionavam ao largo sem piers de atracação o que atrasava e limitava a quantidade de produtos comercializados pelo porto de Vitória.

Os diversos estudos que se sucederam, sempre com envolvimento do Governo Federal, mostravam duas possibilidades de instalação: o lado continental, mais profundo e de mais fácil acessibilidade para os meios de transporte e o lado insular, que apesar de ser menos profundo tinha o fundo de rocha, que tornava a obra mais econômica.

Apesar da construção das estações das estradas de ferro Sul do Espírito Santo, em 1895, e da Vitória Minas, em 1902, o que reforçava a corrente dos favoráveis a construção do porto no continente, os políticos capixabas optaram pela construção na parte insular.

Essa opção política se esboçava desde o império com o fortalecimento da elite local que se esforçava em conseguir sua independência comercial do Rio de Janeiro e que sabia que isso só aconteceria com a construção de um porto que colocasse nossa produção agrícola no mercado internacional.
A ilha era o ponto estratégico para a construção do porto, porque os governos capixabas pensavam em desenvolver a capital e ampliar o sítio urbano da cidade, e Vitória como capital já tinha estrutura comercial local. [...] Um porto traz conceitos e tradições de negociações; esta tradição divulga o porto e consequentemente a cidade de origem. [...] Na época, a localização do porto em Vitória representava um impulso sócio-econômico para a capital.

A Companhia Porto de Vitória, em 1906, recebeu a concessão do Governo Federal para efetuar novos estudos e organizar um novo projeto com o porto sendo construído em Vitória. Esse novo projeto, de responsabilidade do engenheiro Emílio Schnoor, previa o aprofundamento da parte do ancoradouro, pensando no futuro do aumento do calado das embarcações, e na construção da ligação entre Vitória e o continente, uma ponte que permitiria o fluxo desejado para alimentar de produtos o novo porto.

Nesse novo plano de obras, aprovado pelo decreto nº. 7.994 de 12 de maio de 1910, a ponte teria seu inicio na linha ligando o extremo do cais do porto na Avenida Schmidt à ilha do Príncipe, contornando esta pelo seu lado extremo leste e deste ponto, ao continente, próximo a estação de ferro Vitória a Minas.
As obras iniciadas no governo Jerônimo Monteiro (1908 a 1912) em 1911, foram paralisadas em 1914, devido a Primeira Guerra Mundial, sem qualquer tentativa de construção da ponte de ligação entre Vitória e o continente.

Finalmente, no governo Nestor Gomes (1920 a 1924), foram retomadas as negociações autorizando o Governo da União a encampar a antiga concessão da Companhia Porto de Victória, e a contratar com o governo do estado do Espírito Santo a execução e exploração do porto.

Cabe-nos aqui fazer algumas considerações sobre a importância política da eleição de Florentino Avidos, pois foi através do peso político de seu governo, que tantas e tamanhas obras puderam granjear o apoio do governo federal e serem efetivamente construídas.

A escolha do nome de Nestor Gomes para candidato ao governo do Estado no período de 1920 a 1924, colocou em choque direto as duas grandes lideranças políticas da Primeira República em terras capixabas.

Jerônimo Monteiro, que tinha sido Presidente do Estado entre 1908 a 1912, disputava com seu irmão Bernardino Monteiro, também presidente entre 1916 a 1920, a direção política capixaba. A eleição de Nestor Gomes representou a vitória da corrente de Bernardino, colocando Jerônimo na oposição, o que dificultou a execução de muitos projetos nesse período, pela grande projeção política que tinha Jerônimo Monteiro.

Com a aproximação das eleições de 1924 a cisão entre os irmãos Monteiro se ampliava colocando em risco os projetos de desenvolvimento da capital e do próprio estado do Espírito Santo. O nome de Florentino Avidos, cunhado dos irmãos Monteiro, representou a PAZ entre as correntes divergentes.
O engenheiro Florentino Avidos ascendeu ao governo do Espírito santo debaixo da maior expectativa popular. Seu nome polarizou as três correntes da política estadual: Jeronimistas, Bernardinistas e Pinheiristas. [...] Nestor Gomes, pomo da discórdia, teve a inteligência e o bom senso de devolver a política do Estado à família Monteiro, sem que houvesse perturbação da paz. Florentino Avidos, estranho as lutas políticas da família, exercia suas atividades no Ministério da Agricultura, fora do estado quando foi requisitado para dirigir os “Serviços de melhoramento de Vitória” (no governo Nestor Gomes). Era alheio aos negócios do Espírito Santo e, praticamente, afastado da influência política de seus cunhados. Teve, portanto, independência absoluta para governar acima dos partidos. E governou.

O depoimento de Derenzi marca a tranqüilidade que o governador Florentino Avidos teve entre as oposições para governar. Ele conseguiu com seus projetos agradar a elite política do estado, nas suas funções agrícola e exportadora.

O novo contrato então tratado entre o Governo do Estado e o Governo Federal na gestão Nestor Gomes, só veio a ser entregue ao estado na gestão do governador Florentino Avidos, em 7 de setembro de 1925.

O novo projeto da ponte, parte integrante do novo projeto portuário, alterava-a significativamente, projetando-a para um uso mais duradouro e futuro.A ligação se daria, a partir do continente, pelos terrenos da firma A. Prado & Cia. ao extremo oeste da Ilha do Príncipe, contornando-a pelo seu lado oeste, atravessando o canal entre ela e Vitória na Vila Rubim, seguindo pela Avenida Cleto Nunes, contornando o morro da Santa Casa de Misericórdia saindo pelos fundos dos armazéns de café existentes no cais Schmidt e saindo no cais do porto.

A ponte Florentino Avidos permaneceu durante 50 anos como a única ligação entre Vitória e o continente pelo seu lado sul. Mesmo a ponte da Passagem, que liga Vitória ao continente pelo lado norte, nunca teve a magnitude da ponte metálica.

O volume de obras realizadas durante o quadriênio de Florentino, foi maior que o período de Jerônimo Monteiro. Para que o leitor tenha uma idéia do vulto de suas realizações colocamos no Anexo desse trabalho um Relatório da Comissão de Obras e serviços realizados, sendo que o seu Relatório Final de Governo é leitura obrigatória para quem quer aprofundar conhecimentos da cidade nessa época.

Vitória e as mudanças espaciais em busca da nova ordem da industrialização

Os anos 30 até 1943, período da Interventoria Punaro Bley, destacam-se os nomes de Mário Aristides Freire, Dr. Christiano Ferreira Fraga, Professor Fernando Duarte Rabelo, Secretários de Estado que contribuíram no campo das finanças, saúde e ensino, com construção de hospitais, escolas e outras obras de interesse estadual. Cabe-nos lembrar que Punaro Bley foi um excelente executor do planejamento nacional realizado por Getulio Vargas, que não olhava para Vitória em especial, mas sim para a função do estado do Espírito Santo na montagem da nova ordem política.

O número de edifícios aumenta e, também a atividade portuária, com a conclusão das obras do porto. A vida cultural se estabelece com o funcionamento do Teatro Carlos Gomes, dos cinemas e das praças.Os aterros se sucedem na ampliação da área habitável, e no saneamento de regiões interiores da ilha, sendo objeto de realização do Governo Estadual.

Ao primeiro importante aterro da ilha na área denominada “Campinho”, atual Parque Moscoso, durante o governo Jerônimo Monteiro, se sucederam muitos outros. No governo Florentino Avidos duas regiões foram aterradas no centro: próximo a Rua do Comércio, atual Florentino Avidos, entre a rua General Osório e a Vila Rubim, o que resultou numa área de quatro quarteirões apropriados ao mar. O outro aterro foi feito próximo ao Forte de São João, em direção ao atual Colégio salesiano e Av. Vitória, “abrindo caminho para a futura Av. Beira Mar.” No período da interventoria (1930 a 1943) aterrou-se parte da frente do Palácio para construção de armazém e abertura de ruas.

Nos anos 40, os aterros e a valorização das áreas urbanas da capital devido ao crescimento da população e do comércio incitam “diferenciações espaciais nas áreas centrais de Vitória com reflexo nos preços dos terrenos.” A região do atual Parque Moscoso é exemplo disso.

Foi onde primeiro começou a se evidenciar a diferenciação espacial, pois ali veio a predominar a localização de pessoas de maior renda daquele momento. A consolidação de sua ocupação ocorre nos anos 40 e se estende pelas ruas Dom Fernando, Padre Nóbrega e Uruguai.

Nesse período, a região do comércio ocupa espaço específico na cidade. Estendendo-se em linha reta nas proximidades do mar e do porto, o que facilitava o transporte de mercadorias, iniciava-se na antiga Rua da Alfândega, nas imediações do Prédio Nicolleti ( atual Glória), indo em direção ao Cais do Imperador, Rua 1º de Março, Rua do Comércio ( atual Florentino Avidos) e o Cais Schmith ( próximo hoje da Loja Dadalto da Florentino Avidos).

Jones dos Santos Neves ( 1950 a 1954), de forma mais objetiva que os anteriores, executou aterro destinado exclusivamente à implantação de edifícios.

ESPLANADA DA CAPIXABA - As obras da futura Esplanada da Capixaba constam o enrocamento para a contenção do aterro, assentamento de blocos de concreto ciclópitico e muro de acabamento numa extensão de cerca de 1.000 metros, com a dupla finalidade de corrigir o sistema de águas da bacia de evolução do Porto e conquistar para a cidade uma área edificável na continuidade da zona comercial de Vitória.
Será assim conquistada uma área de cerca de 96.000m², dos quais 48.000m² destinados à abertura de amplas vias públicas e os outros 48.000m² para edificação.
As atuais Avenidas Princesa Isabel e Getúlio Vargas se prolongarão, aquela [av. Princesa Isabel] galgando [sic] o Forte de São João, próximo ao Club [sic] Saldanha da Gama, esta [av. Princesa Isabel] ladeando-o e seguindo pela avenida que será lançada, pela Orla do Mar.

Os terrenos surgidos desse importante e grande aterro eram de propriedade do governo e foram doados para construção de prédios públicos, principalmente.

No entanto, somente na década de 1950 que se iniciou o processo de consolidação da ocupação da área, fortemente influenciada pelas melhorias nas condições de transporte coletivo, com a implantação de linha de ônibus, e com a ampliação de equipamentos complementares ao uso residencial, como a construção de escolas. Foi justamente nesse momento, que surgiram os primeiros edifícios de baixa altura nessa região da cidade, reservada pela elite local como “... alternativa ao Centro como moradia”.
Medidas básicas de saneamento, construção de parque público, praças, e de uma avenida principal, promovidas desde o início do século, culminaram, na década de 1940, com o fim das obras do porto e na década de 1950, com a realização do extenso aterro da Esplanada da Capixaba, em área contígua e inserida no ambiente geográfico do Centro.
Essas circunstâncias contribuem para o entendimento do surgimento da verticalização e sua concentração em determinado sítio. De fato, a Praça Costa Pereira, as proximidades do Parque Moscoso e a Avenida Florentino Avidos e adjacências são justamente os endereços dos primeiros edifícios com sete ou mais pavimentos em Vitória.
Ao tomar como base a maioria dos vinte e dois edifícios registrados no período, percebe-se que a origem da verticalização de Vitória relaciona-se ao uso residencial, mesmo considerando a característica comercial do Ed. Glória (Teatro Glória), de 1926, o primeiro
A despeito da insignificante participação do uso comercial dos edifícios construídos em Vitória até a década de 40, um amplo aterro feito entre 1951 e 1955, contíguo à Praça Costa Pereira, produziu a criação de um novo espaço caracterizado como comercial, projetado para receber somente edifícios e denominado Esplanada da Capixaba.
Com a produção desse novo espaço, o poder público mantém seu importante papel na atividade imobiliária, mas nesse caso, ao contrário do ocorrido em momento anterior, favorece a formação do mercado privado. A Esplanada da Capixaba torna-se então, não só um estímulo decisivo à verticalização, como também, à sua concentração na área central, durante seu desenvolvimento e expansão, nas décadas a seguir.
A Reorganização do Espaço Urbano nas novas demandas econômicas da capital.

Durante as décadas de 1960 e 1970, a Capital do Estado recebe novo impulso no desenvolvimento urbano, em conseqüência das novas demandas econômicas do estado e da infra-estrutura e logística de transporte que facilita o acesso a capital.

O papel histórico da cidade comercial e prestadora de serviços ganha uma outra dimensão. Deixa de absorver os efeitos da produção agrícola por intermédio apenas das cidades-pólos ( Colatina e Nova Venécia ao norte e Cachoeiro do Itapemirim ao sul) e passa, depois de 60, a receber diretamente de qualquer cidade do interior os seus impactos. Em outras palavras, as mudanças ocorridas no campo rompem o sistema de cidades então existente, dando maior convergência para Vitória. Convergência não só para atração de migrantes saídos do campo, como também para tornar Vitória um centro de informações e de decisões para todo o estado.

A década de 1960 marcou a consolidação da verticalização no centro bem como o crescimento do comércio nessa área. A principal conseqüência desse crescimento e a posterior exclusão dos pobres do centro da cidade foi o início das invasões das áreas de propriedade pública e privada normalmente próxima ao centro. Essas invasões provocaram uma ocupação desordenada que acabou contribuindo para a deterioração da vida urbana da cidade.
O centro, assim, com a desvalorização dos imóveis, decorrente desse processo, passa a ser local de moradia das classes média e baixa. A ocupação dos morros se acelera, bem como a transformação de muitos prédios em cortiços.
Paralelamente a essa ocupação desordenada ocorre a ocupação dos espaços livres do centro, pelo setor informal do comércio, formado pelos trabalhadores desempregados e subempregados que ficaram à margem do desenvolvimento do setor terciário no centro.

[...] Isso tudo repercute na saída do centro, da elite que ali residia e que se transfere para a ‘nova cidade’, construída pelo setor imobiliário na zona norte, junto às praias, que se torna a área nobre da cidade.
Ainda na segunda metade do século XX, a economia do Espírito Santo era totalmente centrada no café. Vale ressaltar que:
[...]por volta de 1950 a população urbana representava apenas 20% da população total do Estado e que só a partir dos anos 70 vai-se sobrepor à rural, vindo a representar 67% da população total em 1980.
No Espírito Santo não existia segundo produto que pudesse competir com o café, cultivado em grandes e pequenas propriedades, essas últimas com o trabalho familiar, e a produção destinada ao mercado externo.
Paralelamente à atividade agrícola, as indústrias do centro hegemônico do país buscavam novos mercados, produzindo implementos para modernização do campo. O consenso vigente acreditava que a agricultura "atrasada" constituía fator de entrave para o desenvolvimento. Era preciso, segundo esse pensamento corrente na época, modernizar o campo, seja com o uso de novas técnicas, isto é, desenvolvimentos de máquinas e insumos, seja promovendo mudanças nas relações de trabalho, para que se pudesse aspirar a qualquer alternativa de progresso.
No Espírito Santo as mudanças no campo não foram imediatas, nem ocorreram pelo intenso emprego das máquinas. O café aqui era plantado sem técnica (morro abaixo), era velho e de baixa produtividade. Com a crise nos preços internacionais do produto a partir de 1956, a política federal de erradicação dos cafezais, a primeira iniciada em 1962 e a segunda em 1966, teve grande aceitação no Estado, visto que ao produtor não restava alternativa.
A forma como era cultivado o café e os preços internacionais desfavoráveis acarretaram mudanças na agricultura capixaba. Foi no bojo dessa crise que se processaram mudanças no campo. O café deu lugar à pecuária, ao reflorestamento e mais tarde à cana-de-açúcar, que trouxeram concentração fundiária e mudanças nas relações de trabalho, com a criação de um acentuado êxodo rural.
Na cidade a alternativa perseguida para a recuperação econômica do Estado foi a via da industrialização.
Se, a partir da década de 60, se inicia a modernização do campo, a capital capixaba passa a ter acesso fácil e rápido com as demais cidades do país. Rompem-se os limites das fronteiras regionais. Vive-se o momento da instalação de empreendimentos de fora no Estado, seja do setor industrial, seja do comercial ou de prestação de serviços.
Nesse período, o Espírito Santo beneficia-se das propostas do II Plano Nacional de Desenvolvimento, de descentralização industrial, criado pelo governo federal, que tem como estratégia conter os fluxos migratórios para os grandes centros, industrializando as cidades de porte médio. As lideranças estaduais se articulam e conseguem atrair a implantação dos Grandes Projetos Industriais para a Grande Vitória.
As mudanças no campo, desencadeadas com a erradicação do café na década de 60, e o processo de industrialização iniciado a seguir, vão dar os traços do novo contexto que o Espírito Santo passa a viver.
A Grande Vitória se apresentou como alternativa mais viável, dentre as cidades do Estado, como opção de vida e oportunidade de trabalho para os que deixaram o campo e viram em busca dos empregos que seriam gerados pela produção industrial concentrada na Região Metropolitana de Vitória.
A ocupação paulatina dos morros centrais iniciada na década de 50, que são mais de 70% do território da ilha de Vitória, sofre um aumento vertiginoso nos anos 60, 70 e 80, com desmatamento progressivo da mata original que levava, não só a descaracterização da região, mas também o risco de desabamentos de rochas que não tinham mais onde se fixarem.
Nos anos 60 e 70, os fluxos migratórios de população de baixa renda se intensificaram e a fronteira da ocupação urbana sem planejamento foi estendida dos morros para os manguezais que circundam a ilha.
[...] O contingente populacional dessa aglomeração urbana que era de 111 mil indivíduos em 1959 e passara a 194 mil em 1960, cresceu para 386 mil em 1970, 706 mil em 1980 e 1.063 mil em 1991.
A nova dinâmica de articulação em que o Espírito Santo se insere, não se dá apenas pelas mudanças ocorridas no campo, mas também pelo novo papel que assume as cidades, no caso Vitória, de concentrar o núcleo do processo produtivo, que vai deixar de estar nas atividades rurais, para se estabelecer na indústria.
A implantação dos grandes projetos industriais nos anos 60 e 70, desencadeou a concentração urbana na Grande Vitória. Na década de 60 houve aumento de área construída em Vitória, com discretas manifestações depois da criação do BNH, em 1964, mas nunca foi tão grande o crescimento de construções como entre 75 e 82.
Vitória concentra, pelo menos durante a década de 70 e boa parte da década seguinte, a verticalização que se processa na Grande Vitória, precedendo a que depois alcançaria Vila Velha.
A partir da década de 80, a verticalização se intensificou na Grande Vitória. Na capital esse aspecto volta-se para a região norte, onde se localiza a Praia do Canto, região com condições propícias para implementação de projetos modernos de verticalização, tendo em vista que esta região é considerada “nobre” com áreas de grandes residências, ruas arborizadas, que possuíam infra-estrutura.
A cidade de Vitória é considerada um setor de extrema importância para a região metropolitana, pois esta área é provida de equipamentos comunitários e infra-estrutura urbana próprias para abrigar órgãos do governo de todos os níveis. Também é onde se encontram as principais instalações de comércio e serviços, além de constituir o principal núcleo de atração e aglomeração, concentrando os equipamentos culturais, de saúde, educacionais e recreativos.
A partir da prefeitura de Dr. Vitor Buaiz, as políticas públicas municipais despertaram para a revitalização do centro de Vitória. Inicialmente com ações voltadas para áreas de cultura e patrimônio que depois se estenderam para a melhoria de vida dos que habitam e utilizam o centro para as mais diversas tarefas, algumas demandas eram prementes como a ocupação desordenada das regiões de encosta.

O que temos certeza é que o imaginário criado sobre o centro, que historicamente se coloca na modernização do século XX como o embate entre o velho e o novo, deve ser resgatado através do conhecimento sobre a região. A população do município deve ser levada a conhecer e valorizar o centro de Vitória para que possamos, consequentemente, valorizar a História do Espírito Santo e da capital, escrita nesse belo pedaço de ilha do século XVI até os nossos dias.

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