HISTÓRIA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO
A CAPITANIA DO ESPÍRITO SANTO
A História do Espírito Santo é um domínio de estudos de história do Brasil, focado na evolução do território e da sociedade capixaba que, canonicamente, se estende desde a tomada de posse da Capitania do Espírito Santo pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho, em 1535, até os dias atuais. No entanto, este artigo também contém informações sobre os primeiros habitantes do Espírito Santo, ou seja, o período em que não houve registros escritos sobre as atividades aqui desenvolvidas pelos povos indígenas.
A história capixaba começou em 23 de maio de 1535, quando os colonizadores portugueses, chefiados pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho, desembarcaram na Capitania do Espírito Santo. Nesse mesmo ano, foi fundada a povoação da Vila do Espírito Santo, primeiro núcleo populacional da capitania. Na tarefa de catequese dos índios da região, destacou-se a figura de José de Anchieta, que lá morreu em 1597.
Houve um grande período neste meio tempo ao qual muitos desconhecem, em que o Espírito Santo foi anexado à Bahia, tendo portanto a capital sediada em Salvador.
A proibição da mineração nas Minas Gerais e a presença de tribos hostis no interior contribuíram para que o Espírito Santo se mantivesse por muito tempo como uma capitania essencialmente litorânea. Apenas na segunda metade do século XIX, essa situação modificou-se graças à expansão da lavoura cafeeira. O café, penetrando no extremo sul do estado, proveniente do Rio de Janeiro, garantiu o povoamento do interior.
O plantio do café foi ainda a principal atividade dos imigrantes europeus, especialmente alemães e italianos, que introduziram o regime da pequena propriedade na região serrana. A ocupação do extremo norte ocorreu no início do século XX, graças às primeiras plantações de cacau, estabelecidas por fazendeiros baianos. Mas foi apenas em 1963 que o Espírito Santo adquiriu sua atual configuração geográfica, com a solução da antiga disputa entre o Estado e Minas Gerais, relativa à posse da região da Serra dos Aimorés. Pelo acordo, a região foi dividida entre os dois estados.
Atualmente, o Espírito Santo conta com trunfos valiosos na arrancada para o desenvolvimento econômico: uma privilegiada localização geográfica, riquíssimas reservas de minerais radioativos no litoral, um dos maiores portos de minério do mundo e a segunda maior produção de petróleo do Brasil.
Os primeiros habitantes
No início do século XVI, a região do atual Estado do Espírito Santo era habitada por índios do grupo tupinambá, os temiminós, dispersos por quase todo o território, e do grupo jê, os aimorés e os goitacás. Os aimorés eram índios bravios, que, ao que parece, habitavam a serra que tem seu nome. Os goitacás espalhavam-se pelo sul do Espírito Santo até as atuais cidades de Campos e Cabo Frio, já no Rio de Janeiro.
As primeiras expedições
A primeira expedição a explorar o litoral do Espírito Santo saiu de Portugal em 1501, pois trazia a bordo o navegador Américo Vespúcio. Em 1502, partia outra expedição, Estevão da Gama descobriu a ilha da Trindade, a 1.140 km da costa do Espírito Santo. Durante as três primeiras décadas do século XVI não houve qualquer iniciativa de colonização da região.
A costa do atual estado do Espírito Santo foi reconhecida por navegadores portugueses já em 1501, e desde então foi alvo da ação de contrabandistas de pau-brasil ("Caesalpinia echinata").
O estabelecimento da capitania
Apesar da resistência movida pelos índios, Vasco Fernandes Coutinho desembarcou em uma enseada (atual Prainha - Vila Velha) onde foi erguida uma habitação rudimentar (uma paliçada - leve fortificação) e nas imediações oficialmente fundada a vila do Espírito Santo (primeiro núcleo de Povoamento do ES). Próximo a residência do donatário foi erguido o primeiro engenho - Sítio do Ribeiro.
Foram doadas as seguintes sesmarias:
Ilha do Boi ( inicialmente conhecida como Ilha do Bode) para D. Jorge de Menezes;
Ilha do Frade para Valentin Nunez;
Ilha de Santo Antônio para Duarte Lemos;
Vasco Fernandes Coutinho ausentou-se em várias oportunidades (1540, 1550, 1558), sempre buscando recursos para dar continuidade à empresa colonizadora. O autoritarismo dos sesmeiros e a resistência dos índios desordenou a Capitania.
Em 1551, um ataque indígena à Vila do Espirito Santo destruiu a sede. Por questões de segurança, oficializou-se a transferência da sede do governo para Vila de Nossa Senhora da Vitória, antiga Ilha de Santo Antônio que não aconteceu sem lutas violentas e extermínio dos indígenas. Nesse contexto, a antiga sede, então destruída, recebeu novos colonos e ficou conhecida como Vila Velha. A economia da Capitania girava em torno da cana, mandioca, algodão e algum gado. Os engenhos espalharam-se de Nova Almeida até Barra de Itapemirim, nas poucas terras não-alagadas.
Com o estabelecimento, pela Coroa Portuguesa do sistema de Capitanias Hereditárias para a colonização do Brasil (1534), o seu atual território estava compreendido no lote que se estendia da foz do rio Mucuri à do rio Itapemirim (aproximadamente), doada a Vasco Fernandes Coutinho em 1 de junho de 1534.
O seu donatário, acompanhado de sessenta degredados, desembarcou da nau Glória, numa pequena enseada nas encostas do morro da Penha, a 23 de março de 1535, um domingo de Pentecostes, razão pela qual o donatário resolveu batizar o seu lote com o nome de Capitania do Espírito Santo.
O desembarque, na praia de Piratininga, fez-se penosamente, sob as flechas dos Goitacás, havendo necessidade do troar das duas peças de artilharia da embarcação, para que os indígenas debandassem, permitindo a posse da terra pelo donatário. Ali mesmo decidiu-se erguer a povoação que mais tarde seria conhecida como Vila Velha, principiando-se as primeiras habitações, uma ermida - sob a invocação de São João, em homenagem ao soberano -, e uma fortificação (Fortim do Espírito Santo). Os indígenas denominaram esta primitiva vila do Espírito Santo como "Mboab", ou seja, o "lugar habitado pelos emboabas" (forasteiros).
Distribuídas as sesmarias, a D. Jorge de Menezes o donatário entregou a ilha junto à barra (atual ilha do Boi); a Valentim Nunes coube a atual ilha dos Frades e, a 15 de julho de 1537, doou a Duarte de Lemos a então ilha de Santo Antonio (atual ilha de Vitória), em que se instalara na sua parte alta, fazendo construir, na fazenda, ao lado da residência, uma igreja em honra a Santa Luzia.
Por essa época, os colonizadores sentiam-se mais desafogados do gentio. A falta, porém, de colonos para dar desenvolvimento aos trabalhos iniciados obrigou o donatário a ir à Metrópole.
Com o retorno de Vasco Fernandes Coutinho a Portugal, entretanto, a situação se inverteu, e frente aos ataques indígenas, nova vila foi fundada, em setembro de 1551, na fronteira ilha de Santo Antônio, batizada com o nome de Nossa Senhora da Vitória. A primitiva vila do Espírito Santo passaria, daí em diante, a ser conhecida como Vila Velha.
Em 23 de maio de 1535, o fidalgo português Vasco Fernandes Coutinho, veterano das campanhas da África e da Índia, aportou em terras da capitania, que lhe destinara o rei Dom João III. Como era um domingo do Espírito Santo, chamou de vila do Espírito Santo a povoação que mandou construir nas terras que lhe couberam: cinqüenta léguas de costa, entre os rios Mucuri e Itapemirim, com outro tanto de largo, sertão adentro, a partir do ponto em que terminava, ao norte, o quinhão concedido a Pero de Campos Tourinho, donatário da Capitania de Porto Seguro. A Vila do Espírito Santo é hoje a cidade de Vila Velha. Ainda em 1535, a vila passou à capitania, em 1822 a província e em 1889 a estado.
O combate aos estrangeiros
Belchior Azeredo assumiu as funções de Capitão-mor de 1561 a 1564, com todos os poderes e jurisdições atribuídas anteriormente a Vasco Fernandes Coutinho. Posteriormente, Azeredo participou da expulsão dos invasores franceses da baía de Guanabara, no comando de uma das naus da esquadra de Cristóvão de Barros, sendo recompensado com a doação de uma vasta sesmaria, onde se fixou com seus familiares.
Vítima de ataques esporádicos de ingleses e de franceses, foi atacada pelo corsário inglês Thomas Cavendish em 8 de fevereiro de 1592, ocasião em que foi derrotado com a perda de oitenta homens de sua tripulação.
As invasões holandesas ao Brasil
Ao tempo da primeira das Invasões holandesas do Brasil (1624-1625), quando do ataque neerlandês a Salvador, o donatário do Espírito Santo, Francisco de Aguiar Coutinho repeliu uma investida de oito navios sob o comando de Pieter Pieterszoon Hein, de 10 a 18 de março de 1625, com o apoio de entricheiramentos na vila, artilhados com quatro pedreiros, e dos moradores (OLIVEIRA, 1975:124-127).
Durante a segunda das invasões holandesas (1630-1654), os neerlandeses atacaram novamente a capitania do Espírito Santo, agora com sete navios, sob o comando do Coronel Johan Koin. Deles desembarcam uma força de quatrocentos homens, de 27 de outubro a 13 de novembro de 1640, sendo repelidos em Vitória pelas forças do Capitão-mor João Dias Guedes, a 28 de outubro (BARLÉU, 1974:200; OLIVEIRA, 1975:128-130). Diante dos ataques, o Governo-geral destacou para Vitória quarenta infantes da tropa regular. Um último ataque neerlandês à capitania ainda seria registrado, porém, em 1653.
A administração de Francisco Gil de Araújo
Francisco Gil de Araújo adquiriu a capitania de Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho (1674) por 40.000 cruzados, sendo lhe confirmada a posse por Carta-régia de 18 de Maio de 1675, e nela permanecendo de 1678 a 1682. Durante a sua administração, marcada por um reerguimento da capitania, concluiram-se a construção do Forte de Nossa Senhora do Carmo, reedificou-se o Forte de São João e edificou-se o Forte de São Francisco Xavier de Piratininga, na vila do Espírito Santo (Vila Velha), para proteger a entrada da barra de Vitória.
A capitania e o Ciclo da Mineração
Em 1552, entradas, como a de Manuel Ramalho através do rio Doce, apelidado "rio da interiorização", enfrentavam a resistência dos botocudos e as dificuldades com a Serra dos Aymorés, em busca do sonho da descoberta do Eldorado. Em 1660, correm boatos em Portugal sobre a chegada de supostas "esmeraldas capixabas".
Em 1693, o bandeirante Antônio Rodrigues Arzão descobriu jazidas no interior da capitania do ES. A Câmara Municipal de Vitória cedeu roupas e víveres ao explorador que encontrava-se enfermo.
Francisco Gil de Araújo chegou a organizar 14 expedições, entre 1674 e 1685, na "febre" do ouro. Em 1705, saindo de Taubaté, o bandeirante Pedro Bueno Cacunda descobriu ouro seguindo o rio Manhuaçu, tendo funfado o Arraial de Santana (Serra di Castelo); graças a ação dos jesuitas que viveram em Rerigtiba (hoje município de Anchieta), surgiram outros arraiais na região. Em 1705, o Vice-Rei proibiu a mineração no ES e em 1718, os herdeiros de F. G. de Araújo devolveram a Capitania para Portugal por 40.000$00, tornando o ES uma Capitania Real.
Em 1720, a Coroa Criou a Capitania Real das Minas Gerais.
A mineração acarretou a escassez de alimentos devido à migração desordenada e abandono da região; a militarização da capitania, com a contrução de fortaleza; o fechamento do rio Doce; a proibição da abertura de estradas para o interior; a redução drástica do território original e a diminuição do número de escravos. O ES se tornou uma zona de proteção à região mineradora, impedindo possìveis invasões e o contrabando. Essa região ficou conhecida como "Barreira Verde".
No início do século XVIII, em 1704, a Coroa Portuguesa determinou que todos os que se encontrassem nas lavras de ouro se recolhessem à vila da Vitória, e que se evitassem, a todo o custo, excursões às Minas Gerais. Foi proibida ainda a abertura de estradas ligando a Capitania às Minas, pelas mesmas razões de segurança.
Desse modo, já em 1710, o Governador-geral observava que, em Vitória, faltava todo o tipo de defesa e meios de conservação, atribuindo isso à má administração daqueles que governaram a capitania. Isso se devia, entretanto, ao isolamento decorrente da descoberta das Minas. Em 1715 a Capitania reverteu à Coroa, por compra aos descendentes de Francisco Gil de Araújo, pelo mesmo valor pago por aquele donatário. A escritura dessa compra foi lavrada em 6 de Abril de 1718.
Com o aumento da produção mineral nas Minas Gerais, aumentou a importância da região do Espírito Santo, elevada à categoria de Comarca pela Provisão do Conselho Ultramarino de 15 de Janeiro de 1732.
SOUZA (1885) refere que a Provisão Régia de 10 de abril de 1736, determinava ao Governador-geral na Bahia que, de três em três anos, enviasse à do Espírito Santo um Engenheiro, provido dos materiais necessários a todos os reparos e melhorias nas fortificações dessa Capitania (op. cit., p. 99). Aparentemente isso só ocorreu em 1767-1768, quando José Antônio Caldas para lá foi mandado para erguer a Fortaleza da ilha do Boi e reformar as demais existentes. Esse oficial, em relato dirigido ao Governador, informou que a capitania contava cerca de oito mil pessoas, exportava mantimentos, madeiras, panos de algodão e açúcar para a Bahia, Rio de Janeiro e portos do Sul, sendo o transporte feito em embarcações pertencentes aos comerciantes de Vitória. Esse panorama não se alteraria até ao início do século XIX, quando a capitania obteve autonomia da Capitania da Bahia (1809), iniciando-se o plantio de café por volta de 1815.
Com a proclamação da Independência do Brasil, o seu "status" foi alterado para Província, permanecendo assim até à Proclamação da República Brasileira, quando se transformou no atual estado do Espírito Santo.
Bibliografia
ALVES FILHO, Ivan. História dos Estados Brasileiros. Rio de Janeiro: Revan, 2000. 240p. ISBN 8571061785
BARLÉU, Gaspar. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974. 418 p. il.
BUENO, Eduardo. Capitães do Brasil: a saga dos primeiros colonizadores. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. 288 p. il. ISBN 8573022523
MARQUES, César Augusto. Diccionario Historico, Geographico e Estatistico da Província do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878. 248p.
OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo (2ª ed.). Vitória: Fundação Cultural do Espírito Santo, 1975. 602 p. il.
SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.
Desenvolvimento da província
Em 1808 , com a chegada da família real no Brasil e o declíneo da mineração , começou a ser incentivado o desenvolvimento da província espirito-santense , que se encontrava em grande atraso , comparando com outras regiões do país.
A província deixou de ser barreira verde. No governo de Rubim , foi permitida a navegação no Rio doce, foi feita uma estrada para Vila Rica e foram trazidos os primeiros imigrantes , vindos de Açores. Porém , essas medidas não foram eficazes para elevar a província a uma condição de região desenvolvida.
Já na metade do século XIX , a imigração européia , que vai ocupar regiões de pouca densidade populacional, e o café , que se tornar o produto principal da economia capixaba , iniciaram um processo desenvolvimentista na Espírito Santo.
Influência do café
Outra região que cresceu, favorecida pela economia do café, foi o município de Cachoeiro de Itapemirim, recebendo muitos imigrantes vindo principalmente da Itália para trabalhar nas diversas lavouras existentes na época.
Abolição da Escravatura
O Espírito Santo foi palco de várias rebeliões escravas , sendo a mais famosa a Insurreição de Queimados. A Insurreição de Queimados, ocorrida em meados do século XIX, na Freguesia de São José do Queimado, mais tarde incorporada no Município da Serra, na qual o escravo Chico Prego se destacou como líder do movimento que requeria a liberdade dos cativos que contribuíram na construção da igreja e, por isso, foi condenado e morto na forca, em 1850. Na ocasião , Afonso Cláudio , escreveu um livro criticando a escravidão e a condenação de Chico Prego. Tal fato impulsiona a campanha abolicionista no Espírito Santo. De certo modo , a abolição foi semelhante a ocorrida no Sudeste , com a formação de clubes , jornais , e apoio de cafeeiros descontentes com a monarquia.
Insurreição de Queimado
Queimado é um Distrito da Serra, Espírito Santo, Brasil.
No dia 19 de março de 1849, Queimado foi palco de uma Insurreição de negros escravos.
A antiga freguesia de São José do Queimado, criada em meado do século XIX, está hoje incorporada ao município da Serra, um dos que compõem a área periférica da Grande Vitória. O povoado de Queimado estava situado às margens do rio Santa Maria, por onde trafegavam canoas carregadas de café, farinha de mandioca, cana-de-açúcar, milho, feijão, coisas que os do lugar plantavam pelo método costumeiro: Derrubar, queimar, roçar. Na década de 1840, quando chegou a reunir cerca de 5 mil moradores, parecia que o destino reservava certa importância ao povoado, não obstante a pobreza do lugar. Mas um lento e irremediável processo de decadência econômica e despovoamento, iniciado já na segunda metade do século XIX, frustrou esta possibilidade. Hoje, no local onde se localizava a vila, os únicos testemunhos visíveis do engenho humano são as ruínas da Igreja de São José
As Insurreições ou revoltas de escravos eram comuns nas Vilas e Aldeias do Espírito Santo e do Brasil. A Insurreição do Queimado foi uma revolta que durou até a prisão de Elisiário, um dos líderes do Movimento, cinco dias depois do início da Insurreição, no dia 23 de março. Chico Prego morreu enforcado na Serra Sede. João da Viúva Monteiro, morreu enforcado no Distrito de Queimado. Elisiário fugiu da cadeia, graças a um milagre e formou um quilombo na região depois do Morro do Mestre Álvaro e do Monte do Mouxuara, em Cariacica.
Confira artigo sobre a Revolta do Queimado, do Professor José Roberto Pinto de Góes. No texto várias explicações e detalhes sobre a Revolta do Queimado: "Era escandalosa a desenvoltura dos pretos, a desfilar pelas ruas de Queimado senhores de si. Um grito de “viva o bacalhau!” calou as comemorações e trouxe um pesado silêncio. As últimas casas que se conservavam abertas, foram fechadas. Os que assistiam as estrepolias dos escravos, desapareceram. Alguns escravos, magoados e armados, fizeram menção de atirar no ajuntamento de onde partira o insulto (bacalhau era o outro nome dado ao chicote)."
A segunda derrota dos escravos de São José do Queimado
O Brasil foi e continua sendo muito cruel com os escravos que o povoaram e civilizaram. No passado, eles foram amarrados, arrastados, repartidos com ferro, embarcados, batidos, moídos e espremidos (assim descreveu Antonil o processo de fabricação da cana-de-açúcar). Hoje, tripudia-se da história deles. Pouca gente sabe, mas está por desaparecer, definitivamente, um bem arquitetônico de inestimável valor para a história das rebeliões escravas no Brasil: a igreja de São José do Queimado, nos arredores da cidade de Vitória, capital do Espírito Santo. A mata já cobriu quase tudo. O próprio interior do edifício está tomado pelas plantas. Só restam de pé as duas paredes laterais do templo, precariamente atadas por um cabo de aço. O lugar impressiona. Dá a impressão que a natureza, cheia de razões, decidiu retomar aos homens aqueles domínios e sepultar, em verde esquife, uma história que não se fez possível. Sem pressa, vai a tudo recobrindo, como a dizer que pode, deve e quer.
A comparação entre o destino da igreja de São José e o da mansão onde morou Laurinda Santos Lobo, localizada no charmoso bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro é inevitável. Já em ruínas, a residência de Laurinda foi recentemente recuperada de maneira criativa: paredes no tijolo, destruídas, coexistem com estruturas de metal e de vidro. É muito visitada, virou ponto turístico da cidade, com exposições, shows etc. Uma placa, inaugurada em 1997, diz o seguinte: "Foi uma época áurea do bairro de Santa Teresa. Plantada num elevado de onde se descortina toda a cidade, ali estava a casa, parecida com sua dona, audaciosa combinação de vários estilos. Artistas e intelectuais voltejavam em torno dela. No mirante dançou Isadora Duncan, tocou Villa-Lobos. Suas vozes, seus passos, seus risos ainda ecoam. Laurinda flutua, dança ao luar, ao som de Villa-Lobos, envolta em nuvens, puxando para si os véus de Isadora. Laurinda Santos Lobo, deidade do Rio, nascida em 4 de maio de 1878, saída do mundo em 18 de julho de 1946, nos recebe a todos." Enquanto Laurinda ainda flutua, perene, sobre o Rio de Janeiro (tomara que para sempre), a lembrança da rebelião dos escravos da antiga freguesia de São José do Queimado está prestes a perder o que resta de seu templo.
A igreja teve um papel central na revolta que tomou conta do povoado, em 1849. O estado a que está reduzida, e a incapacidade demonstrada, ao longo dos últimos anos, de conservá-la, é muito sintomático de nossas desventuras como “povo”, nesta América tropical. Porque, a rigor, a preservação do templo, e com ele, a memória da rebelião, só faz sentido numa sociedade na qual o problema da cidadania e dos direitos do populacho esteja, de fato, na ordem do dia. A igreja, ou o que resta dela, é um marco na luta pelos direitos no Brasil, que não começou ontem, com a abolição ou a carteira de trabalho de Getúlio Vargas. Quando as duas últimas paredes da igreja de São José do Queimado vierem ao chão, os escravos do povoado (que as ergueram) terão sido derrotados pela segunda vez (a primeira ocorreu em 1849, quando falhou o plano de usar o templo católico para se alforriarem em massa.). E a presente geração de brasileiros, em sua maior parte descendentes deles, terá de constatar que perdeu mais uma batalha contra os das Casas Grandes & Mansões. Talvez ainda seja tempo de apenas tratar de sobreviver.
É preciso contar a história dessa rebelião, para que se possa ter a dimensão exata do que está prestes a nos ser tomado, na perspectiva da luta pela cidadania.
A antiga freguesia de São José do Queimado, criada em meado do século XIX, está hoje incorporada ao município capixaba de Serra, um dos que compõem a área periférica da grande Vitória. O povoado de Queimado estava situado às margens do rio Santa Maria, por onde trafegavam canoas carregadas de café, farinha de mandioca, cana-de-açúcar, milho, feijão, coisas que os do lugar plantavam pelo método costumeiro: derrubar, queimar, rossar. Na década de 1840, quando chegou a reunir cerca de 5 mil moradores, parecia que o destino reservava certa importância ao povoado, não obstante a pobreza do lugar. Mas um lento e irremediável processo de decadência econômica e despovoamento, iniciado já na segunda metade do século XIX, frustrou esta possibilidade. No local onde se localizava a vila, os únicos testemunhos visíveis do engenho humano são as ruínas da Igreja.
A história da rebelião está documentada, sobretudo, na correspondência trocada por autoridades civis e religiosas e no livro A Insurreição de Queimado, de Afonso Cláudio de Freitas Rosa, escrito em 1884. O processo criminal então aberto está perdido. Embora escrito trinta e cinco anos depois do episódio, o livro é a principal fonte do levante, pois está baseado em relatos de sobreviventes que participaram ativamente da conflagração. Isso o converte em fonte primária dos acontecimentos. Os relatos estão no livro, mas contados pelas palavra de Afonso Cláudio. Um testemunho importante foi fornecido por um velho e alquebrado escravo, possivelmente de nome Carlos, um dos cabeças da revolta. Na metade da década de 1880, ele ainda se conservava fugido, perambulando pela região, com a complacência de seu antigo senhor, o padre e bacharel João Clímaco. Deve ter sido uma conversa estranha, a entretida entre Afonso Cláudio, então com 20 e poucos anos, e o velho escravo errante. Eram destinos muito diferentes que se cruzavam: enquanto Carlos jamais reencontrara o sossego, Afonso Cláudio viria a ser o primeiro presidente do Estado do Espírito Santo, no regime republicano. Por pouco não foi uma conversa de surdos. O escritor confessou que apenas com “demasiado esforço” conseguiu compreender a “exposição truncada” do escravo. Talvez fosse menor a dificuldade se o jovem bacharel tivesse melhor opinião sobre os “pretos”. Ele era sinceramente tocado pelo sofrimento dos escravos, mas os julgava pessoas rústicas e incapazes de uma compreensão “clara e desenvolvida” das coisas.
A história do levante está ligada à pessoa do capuchinho italiano Gregório José Maria de Bene, que desembarcou no Brasil em 1844, designado para a catequese indígena no Espírito Santo. Um ano depois, porém, já estava o frade decidido a levantar uma igreja no povoado de Queimado. Pois cinco mil almas não haviam de permanecer apartadas das palavras de Deus e longe da assistência dos vigários. (Não necessariamente nesta ordem: uma vez nomeado vigário da paróquia, Gregório tratou de intervir até no alinhamento das ruas do povoado). A edificação do templo, em homenagem a São José, não demorou. O esforço foi de todos. Os mais aquinhoados deram algum dinheiro, providenciaram recursos públicos e doaram os sinos. Os menos afortunados de todos, os escravos, deram os domingos e os dias santos, em trabalho. E Deus não paga em dobro a fadiga e a perseverança?
Em 1846, São José do Queimado foi elevado a freguesia. Em 1848, o presidente da província escreveu ao bispo do Rio de Janeiro solicitando a nomeação de Gregório para Vigário Encomendado, por ser esta a vontade do povo do lugar. Acrescentou que o frade ia erigindo, “a custa dos fiéis, e por meio de suas exortações, um majestoso templo de pedra e cal, que tem de ser dedicado ao patrício São José, excitando a admiração de todos por sua grandeza e por se estar fazendo, pode-se dizer, no centro da pobreza. Concluiu profetizando: “Já vi essa igreja e creio que, concluída, será uma das mais importantes da província”. Àquela altura, ninguém podia suspeitar que a igreja logo voltaria ao pó, por haver se convertido no principal cenário da guerra de senhores e escravos.
Gregório não tem se saído bem nos julgamentos dos historiadores. Para Eugênio de Assis, autor de Levante dos Escravos no Distrito de São José do Queimado, o frade, no afã de fazer prosperar a paróquia e construir sua carreira, fez crer aos escravos que eles iam ganhar cartas de alforrias se ajudassem a erguer a igreja de São José. Para Afonso Cláudio, o frade era apenas imprudente e um tanto simplório. A combinação do ardor religioso, convicções abolicionistas e pouco domínio do idioma português o levava a frases veementes, de palavras mal escolhidas, de condenação à escravidão. O Capitão Rodrigues Velho, de quem Afonso Cláudio obteve um bilhete no qual rememorava os acontecimentos, dizia do frei: “o papel que frei Gregório representou na insurreição, não passou de um frade camelo e inconsiderado, que em suas conversações com os negros lembrava a plena liberdade que gozam os povos da Itália e de outros países da Europa, reprovando e maldizendo assim o cativeiro do Brasil, o que muito concorreu para a revolta na mente estúpida dos cativos”. Camelo, além do ruminante, queria dizer homem burro (estúpido como um cativo). Afonso Cláudio achava que o capitão tinha lá a sua razão, que o frade estava mais para camelo do que para trapaceiro.
Mas se o frade era um tonto, quem planejara tão ardiloso plano, de convencer os escravos das redondezas de que, em troca do trabalho na construção do templo, todos obteriam cartas de alforria? Dizia-se que Gregório e a Rainha eram conhecidos, se estimavam, e que esta havia prometido ao pároco a graça de redimir os escravos no dia de São José, pelos muitos serviços prestados à religião. A declaração de liberdade seria lida durante a missa inaugural. Era uma rebelião com data marcada para acontecer: dia 19 de março de 1849, dia da inauguração da igreja, dia do padroeiro São José.
Na opinião de Afonso Cláudio, o arquiteto maior da trama fora um escravo chamado Elisiário, um “preto pernóstico”, daqueles que buscavam a “afeição dos brancos”, mas conservavam o respeito dos demais, que permaneciam rudes e “sem a menor inclinação pelos brancos”. Era coisa tão engenhosa que Afonso Cláudio duvidava se podia ser obra de um preto e, indiretamente, responsabilizou o padre João Clímaco, o dono do escravo Carlos, o suposto informante de Afonso Cláudio. Homem de espírito, palestrante entusiasta, narrador destro, sempre disposto a animar uma conversa, João Clímaco era irmão do dono de Elisiário, e este, amigo de Carlos, costumava freqüentava as senzalas e a cozinha do padre.
Na véspera do dia de São José, a noite, cerca de duzentos escravos reuniram-se nas proximidades do povoado. Dispersaram-se para não despertar temores. Quando o dia amanheceu, instalaram-se na mata próxima ao templo, sob o comando de Chico Prego. Um grupo, liderado por Elisiário, foi procurar Gregório na igreja. As palavras que trocaram, o vento levou. Sabe-se apenas que o sacerdote, amedrontado, e informado que uma multidão de negros esperava na mata, desistiu de celebrar a missa e mandou que cerrassem as portas da igreja. Antes que aquela manhã terminasse, Gregório trairia os escravos três vezes. Em carta enviada ao presidente da província, dias depois, protestou contra “a grande e maliciosa aleive que os negros cativos levantaram-me no Queimado e na cidade de Vitória”, e jurou, e repetiu o juramento, que não havia sido a causa nem aconselhara o motim.
Enquanto Gregório discutia com Elisiário, Chico Prego e os demais escravos resolveram dirigir-se à igreja. Entraram no povoado em trajes pouco usuais, metidos nas melhores roupas (quem sabe alguns calçados), com ares de dotô. Gritos de vivas à liberdade disseminaram o pânico entre a população livre. Gregório, então, foi obrigado por um cidadão a reabrir a igreja, pois não convinha aparentar medo diante dos negros e aumentar-lhes a coragem. Não podia nem devia: tomado pelo temor de cair vítima dos rebeldes, foi esconder-se na sacristia ainda no meio da santa missa. Mas nem assim escapou dos escravos. Na carta ao presidente da província, contou que eles o obrigaram a abrir a porta da sacristia. E jurou que disse claramente que não podia nem devia nem queria dar-lhes carta de alforria alguma. E “quando exigiram de mim em a sua maldade e revolta”, aconselhou a obediência e o retorno às suas casas, além de prometer-lhes o patrocínio na volta.
Os escravos, porém, saíram da sacristia dizendo que Gregório havia rogado aos donos dos escravos as alforrias, em nome da religião, mas implorara em vão. E exibiram um papel no qual os seus senhores deveriam apor as suas assinaturas, de modo a libertá-los. Gregório se encarregaria de o enviar à Rainha. A esta altura, o povoado estava em pé de guerra. Era escandalosa a desenvoltura dos pretos, a desfilar pelas ruas de Queimado senhores de si. Um grito de “viva o bacalhau!” calou as comemorações e trouxe um pesado silêncio. As últimas casas que se conservavam abertas, foram fechadas. Os que assistiam as estrepolias dos escravos, desapareceram. Alguns escravos, magoados e armados, fizeram menção de atirar no ajuntamento de onde partira o insulto (bacalhau era o outro nome do chicote). As portas da igreja tornaram a se fechar. Um “cidadão respeitável” evitou o pior.
Os escravos dirigiram-se às fazendas, em busca das assinaturas, enquanto um mensageiro se pôs a caminho de Vitória para avisar às autoridades da insurreição. A primeira propriedade ocupada foi o Engenho Fundão, de Paulo Coutinho Mascarenhas. Os insurgentes obrigaram-no a firmar cartas de liberdade e confiscaram armas e munições. Ao findar do dia, segundo estimativas oficiais, cerca de trezentos escravos estavam em marcha pelas fazendas.
A tarde, partiu de Vitória para São José do Queimado o chefe de polícia e mais vinte praças, comandados por um oficial. (Milicianos também foram enviados para Cariacica e Itapoca, onde se temia iguais alterações.) Eram poucos para conter tantos rebeldes. O fator decisivo foi a presteza com que a população livre local acorreu à luta. As cartas trocadas entre as autoridades policiais, o presidente da província e ministros são incansáveis em enaltecer a bravura, a coragem e o desprendimento dos habitantes do lugar em dar combate aos negros. A primeira refrega aconteceu no dia 20, próximo ao local denominado Pendi-Yuca, onde os escravos estavam reunidos. A troca de tiros resultou em ferimentos no comandante e no corneteiro. Os escravos não sofreram nenhuma baixa, mas bateram em retirada.
A partir dali, não haveria mais combates propriamente, mas apenas uma caçada, como soem ser as caçadas. Soldados e homens livres, lado a lado, reviraram morros e vales, invadiram propriedades particulares (como aconteceu com a de João Clímaco), vasculharam as senzalas e levaram os pretos que quiseram. Os rebeldes apanhados, antes de conduzidos à cadeia pública, foram entregues aos donos, de modo a satisfazer a ânsia de vingança que o atrevimento atiçara. Foram efetivamente presos e levados a julgamento trinta e seis escravos. O julgamento dos implicados foi célere: de 31 de maio a 2 de junho do mesmo ano de 1849. De nada adiantou o talento oratório de João Clímaco, advogado dos réus, que pediu ao júri a absolvição dos cativos e a condenação de Gregório. O tribunal absolveu seis réus e condenou vinte e cinco outros a açoites, que variaram de trezentos a mil chicotadas. Elisiário, João, Carlos, João Pequeno e Chico Prego foram sentenciados à morte por enforcamento.
Enquanto os réus condenados à pena capital esperavam a resposta do Imperador ao pedido de comutação da pena, os demais iam sendo levados ao açoite no cais da Alfândega, em público espetáculo. (Mas não todos: Manoel, escravo do Engenho Fundão, o primeiro a ser visitado pelos insurgentes, ingeriu grande dose de cal de parede, na prisão, e morreu. O crioulo Sebastião atirou-se ao mar quando era conduzido ao cárcere - o corpo só foi encontrado dias depois.) Mas, mal iniciados, os açoites foram suspensos: o escrivão das execuções criminais não sabia como deviam ser contadas as chibatadas. Os relhos possuíam mais de uma tira e o oficial de justiça não sabia se cada pancada devia ser multiplicada pelo número de tiras que cortava a carne dos supliciados. Juizes trocaram cartas sobre o assunto e até o presidente da província foi consultado. A controvérsia se resolveu segundo o espírito do tempo, embora hoje soe ambígua a solução: o Juiz Municipal, a quem coube a palavra final, mandou que se contasse por cada pancada, sem esclarecer se das tiras ou do relho.
Na madrugada de 7 de dezembro de 1849 cinco presos evadiram-se da cadeia, entre os quais Elisiário, João Pequeno e Carlos. Não arrombaram paredes nem danificaram cadeados. O carcereiro os substituiu na cela por alguns dias, enquanto a fuga era investigada. As diligências resultaram em nada. Nenhum culpado, nenhuma explicação. Entre os escravos, circulou a versão de que um dos fugitivos possuía um amuleto preso ao pescoço, dotado de grandes poderes, capaz de fazer Nossa Senhora da Penha ouvir a prece dos desesperados. A santa teria adormecido soldados e sentinelas. Aqueles para os quais ela olhou, nunca mais um senhor a mão botou, com perdão da rima fácil.
Os escravos João e Chico Prego foram enforcados. O primeiro, em São José do Queimado, no dia 8 de janeiro de 1850; o segundo, em Serra, três dias depois. A coreografia foi a mesma. A lenta procissão pelas ruas dos povoados, o padre e o carrasco à frente, o sinistro badalar da campa, as leituras periódicas da sentença, a subida ao patíbulo erguido de véspera, a corda, a queda e a cavalgada do carrasco sobre os ombros dos rebeldes para bem acabar de fazer a morte. Depois, no chão, o trabalho de esmigalhar o crânio, as pernas e os braços dos mortos. O carrasco, mandado vir do Rio de Janeiro especialmente para a macabra cerimônia, recebeu em troca uma muda nova de roupas.
Gregório foi ouvido pela polícia no dia 10 de abril. A cópia do depoimento está perdida. Não deve ter dito coisa muito diferente do que escreveu na carta ao presidente da província, no calor dos acontecimentos. Pouco depois, o subdelegado de polícia acusou-o de tentar vender as telhas da igreja. O presidente da província escreveu que ele se entregava ao vício da embriaguez. Em setembro, a bem da “tranqüilidade pública”, foi embarcado para a Corte, no vapor Guapiaçu. Antes de partir, Gregório invocou aos de Queimado o castigo dos céus: vaticinou que o lugar cobrir-se-ia de luto e anunciou que a igreja de São José seria consumida pelas chamas. Errou apenas quanto às chamas.
O autor José Roberto Pinto de Góes é Doutor em História pela UFF, Professor da UERJ, autor, com Manolo Florentino, de “A Paz das Senzalas”, Civilização Brasileira.
Fonte: Internet: http://www.no.com.br/revista
HERÓIS DA LIBERDADE
São participantes da Insurreição de Queimado, os seguintes Negros, verdadeiros heróis em busca de liberdade:
A INTELIGÊNCIA DE ELISIÁRIO
Elisiário Rangel foi o Chefe do Motim, um dos líderes da Insurreição. Escravo de Faustino Antônio Alvarenga Rangel. Destacava-se pela inteligência, já que Faustino Rangel lhe proporcionara a oportunidade de ler e aprender ofício de Carpinteiro. Estava sempre reunido com o Frei Gregório Maria Bene e dele recebia ensinamentos religiosos e ideais de liberdade, já que o Frei, Italiano de nascimento, era contra a escravidão.
Foi preso. Na cadeia liderava os negros, para que não se abatessem e rezassem sempre. Misteriosamente fugiu da cadeia de Vitória. Tornou-se uma lenda, pois, mesmo perseguido pelas autoridades policiais, não foi mais encontrado, passando a ser um herói entre os negros que almejavam a liberdade. A sua fuga foi cantada em prosa e versos como um "milagre de Nossa Senhora da Penha", já que não houve vestígios de arrombamento na porta da prisão e o carcereiro, ao ser preso após a fuga, admitira que fora tomado de "um sono profundo."
Segundo a escritora Maria Stella de Novaes, Elisiário "morreu isolado nas matas" e, segundo outros historiadores:
"Morreu feliz nas graças da Virgem Nossa Senhora da Penha, com um agrupamento de negros fugitivos, nas matas do Mestre Álvaro e do Mouchuara."
Pesquisas revelam que Elisiário e um grupo de negros fugitivos seguiram para uma região após o Morro do Mouchuara, em Cariacica, formando o povoado denominado de Piranema.
A FORÇA DE CHICO PREGO
1- Francisco de São José, o Chico Prego. Escravo de Ana Maria de São José. Era um dos Chefe da Insurreição.
O Chico vem de Francisco e a palavra Prego tinha sentido pejorativo pois se referia a uma espécie de macaco da região do Amazonas.
Enquanto Elisiário destacava-se pela inteligência, Chico Prego, negro alto e forte, liderava pelo seu espírito de luta, por sua coragem. Foi preso e condenado à morte na forca.
Preso, Chico Prego foi levado para a Serra, viajando a pé, as seis léguas. Na Serra assistiu a construção do patíbulo. Na data e hora marcada, percorreu as principais ruas da Serra ao som de um tambor surdo e sinos da Igreja. O cortejo parava de momentos em momentos para que fosse lida a sentença. Defronte à forca, recebe a última unção religiosa. De mãos atadas sobe as escadas do patíbulo. O carrasco Ananias passa-lhe a corda em redor do pescoço e impele o negro para o espaço, fazendo pressão sobre os ombros para maior pressão da corda. Cinco minutos depois a corda é cortada. O corpo cai no chão e o negro ainda agoniza. O carrasco Ananias com um pedaço de pau, esmaga-lhe o crânio, os braços e as pernas.
O relato com detalhes da morte de Chico Prego, Herói da Liberdade na Serra, encontra-se na obra "A Insurreição de 1849 na Província do Espírito Santo", de Wilson Lopes de Resende, do Colégio Estadual "Muniz Freire", tese aprovada no IV Congresso de História Nacional. O livro é das Edições Itabira, Cachoeiro de Itapemirim, 1949, página 15 e 16.
Chico Prego foi executado na sede da Vila de Nossa Senhora da Conceição da Serra, no dia 11 de janeiro de 1850, "nas proximidades da Igreja, para servir de exemplo."
Sobre o local exato onde Chico Prego foi enforcado na Sede do Município, historiadores informam ter sido a pracinha, onde hoje, em 1997, está construída a Praça Ponto de Encontro.
PROJETO CHICO PREGO
Em recente reunião da Câmara Municipal da Serra realizada em 1996, foi aprovado o Projeto Cultural "Chico Prego".
O Projeto de Lei recebeu o N.º 028/95 e foi apresentado pela primeira vez na Câmara Municipal da Serra, por seu autor, Vereador Edvaldo C. Dias da Mata, no dia 11 de maio de 1995. O Projeto consiste na concessão de incentivo fiscal para a realização de Projetos Culturais nas áreas de Música, Dança, Teatro, Literatura, Cinema, Vídeo, Artes Plásticas, Folclore, Ciências Sociais, Museus e Associações Culturais, etc., sendo beneficiada pessoa física ou jurídica domiciliada no Município, no mínimo há dois anos. Justificando o nome de Chico Prego dado ao Projeto, o então Vereador Edvaldo relata: "... Daí nossa homenagem a "Chico Prego" - escravo refugiado do Quilombo de Queimado que na luta pela liberdade, desafiou a Igreja e os patrões quando exigiu o cumprimento da proposta de que ao final da construção da Igreja de São José do Queimado receberia a alforria - a proposta não foi cumprida, o que ocasionou uma rebelião iniciada na Serra e que culminou na prisão e morte de vários líderes, entre eles, "Chico Prego", que foi enforcado onde hoje está construída a Praça Ponto de Encontro, na sede do Município. Por esse exemplo de coragem e de luta, bem como pelo resgate da memória cultural e histórica do Município é que nosso projeto reconhece os escravos e especialmente "Chico Prego" como precursores da Cultura Serrana."
JOÃO DA VIÚVA
João Monteiro, o João da Viúva. Escravo de Maria da Penha de Jesus, a viúva Monteiro. Foi também um dos líderes da Insurreição e condenado à pena de morte.
Consta que no Julgamento disse ser inocente, e que o culpado era o frei Gregório de Bene, que prometera liderar o movimento de liberdade e no momento mais importante, escondera-se dos negros.
Suas declarações são relatadas por carta pelo cônego Francisco Antunes Siqueira, advogado nos autos do processo, ao Presidente da Província, Felipe José Pereira Leal, em 10 de janeiro de 1850.
O escravo João da Viúva foi executado em Queimado, na forca, às 6 horas da manhã, do dia 8 de janeiro de 1850, três dias antes da execução de Chico Prego na sede da Vila da Serra.
OUTROS REVOLTOSOS
Carlos, escravo do padre Dr. João Clímaco de Alvarenga Rangel. Foi preso e condenado a morte. Fugiu da prisão, junto com Elisiário, não sendo mais recapturado.
Cândido, escravo do Capitão José Monteiro Rodrigues Velho. Preso.
João, escravo do Capitão José Monteiro Rodrigues Velho. Preso e açoitado.
Segundo o pesquisador Djailson Martins Rocha, José Monteiro Rodrigues Velho era conhecido como Capitão Velho e foi eleito Juiz de Paz na Serra em 1º de fevereiro de 1849.
Cipriano, escravo de Joaquim José dos Santos. Foi executado, de "forma selvagem" na hora da prisão.
Venceslau. Negro que veio do sertão de Mangaraí. Preso.
Benedito, escravo de José Roriz de Freitas. Preso.
Joaquim, escravo de José Roriz de Freitas. Preso.
José Roriz de Freitas era parente de Francisco Roriz, que foi vítima de um disparo de 17 caroços de chumbo, desferido por um dos Negros revoltosos, comprovando-se a tese de que houve realmente uma Insurreição, uma revolta com tiros desferidos também pelos negros, havendo excessos de ambas as partes. Os negros alegando que se defendiam e as Forças Policiais legalistas alegando estarem cumprindo um dever cívico.
Sebastião, escravo de Faustino Antônio de Alvarenga. Foi preso, e seu corpo misteriosamente apareceu boiando nos fundos da casa de Domingos José de Freitas, em Vitória.
Segundo as autoridades o escravo fugiu, lançando-se ao mar e morreu afogado.
João, o pequeno. escravo de Rangel e Silva. Foi um dos líderes da Insurreição e por isto condenado à forca.
Com Elisiário e Carlos, escravo de João Clímaco, conseguiu fugir da prisão, não constando ter sido mais encontrado.
Consta que Elisiário, Carlos e João, o pequeno formaram com outros escravos fugitivos, um núcleo de Negros que conseguia driblar as incursões dos batedores do mato que caçavam negros fugitivos. Invocando sempre a proteção divina de Nossa Senhora da Penha tais negros nunca eram localizados.
João Francisco, velho escravo do padre João Clímaco. Com a Insurreição resolvera sair andando sem destino "sonhando com a liberdade." Não estava entre os revoltosos. Foi morto ao ser encontrado por Policiais, no rio (Córrego) Aroaba, comprovando-se a tese de que os Policiais na perseguição aos revoltosos, começaram a atirar em todos os negros que surgissem, tivessem eles na Insurreição ou não.
Eduardo Pinto de Vasconcelos. Escravo que recebera nome de família do seu Senhor. Foi condenado às Galés Perpétuas com trabalhos forçados, já que lhe fora atribuída, sem provas, a autoria dos tiros que atingiram alguns Policiais. Conseguiu fugir da prisão com Elisiário, João, o pequeno e Carlos. Não consta ter sido recapturado.
Manoel Matos. Escravo acusado, de disparar e ferir o Comandante Varela, no lugar conhecido por Ladeira de João dos Santos. Foi condenado às Gales Perpétuas com trabalho forçado. Conseguiu fugir da prisão com Elisiário, João, Carlos e Eduardo. Não consta ter sido recapturado.
O pesquisador Fábio Xavier, de Arapoti, Paraná, informa que um dos proprietários de escravos no Queimado era José Rodrigues Lima, que tinha o apelido de Cajuza.
EXPULSÃO DO PADRE
O advogado dos escravos revoltosos foi o padre João Clímaco de Alvarenga Rangel, que infelizmente nada pôde fazer para inocentar os escravos. O padre Clímaco, que possuía propriedade na Serra, teve alguns de seus escravos participando da rebelião, mesmo assim julgou justo defendê-los.
O frei Gregório Maria de Bene foi considerado o grande responsável pela Insurreição ocorrida, e, em documento datado de 26 de setembro de 1849, o Presidente da Província, Felipe José Pereira Leal, escreve que Frei Gregório é: "O único capaz de receber a imputação do crime. (...) Amanhã regressam no vapor Guapiaçu o Frei Gregório Maria Bene e Frei Ubaldo de Civitella de Trento."
JURAMENTO DO FREI GREGÓRIO
O Jornal “Correio da Victória”, publicado em Vitória em 1849 publica o juramento do “Padre Frei Gregório José Maria de Bene, no dia 25 de março de 1849, diante de Jesus Sacramentado depois da elevação da Sagrada hóstia”:
“Eu, Frei Gregório, indigníssimo ministro da cruz juro diante deste verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e clamo ele em testemunha de minha inocência no grande e malicioso aleive que os negros cativos levantaram-me no Queimado e na cidade de Victória diante das autoridades. Juro, repito de novo, que não fui causa e nem aconselhei a eles o motim, que fizeram no dia de São José, 19 do corrente.”
O sacristão da Igreja do Queimado no dia da Insurreição era José Pinto Lima.
ORIGEM DO FREI GREGÓRIO
Na carta informa que a presença do frei Gregório, tinha sido nociva no Espírito Santo. Após a Insurreição, outras queixas surgiram contra o padre, levando o Presidente da Província a "mandá-lo embora."
Os ideais de liberdade pregados pelo frei não foram bem recebidos pelos exploradores da mão de obra escrava, que aproveitaram para reunir todas queixas possíveis contra o mesmo, com a finalidade de "expulsá-lo do Espírito Santo."
Frei Gregório acabou indo para a região do Amazonas, onde de 1850 a 1854, evangelizou em vários núcleos urbanos e Vilas.
Em 1854 deixou os serviços missionários e passou a morar em Manaus, conforme o historiador Artur César Ferreira Reis em pesquisa para o escritor José Teixeira de Oliveira.
Pela Internet e através de e-mail (Correio eletrônico), o Escritor Alessandro Dell’ Aira assim relata:
“Sou italiano e Diretor de Escola e tenho 65 anos. Parabéns pelo seu livro sobre a “História da Serra”, cuja versão li na Internet. Nasci em Palermo e vivo na cidade de Trento. Não sei de onde era o padre Gregório. Do se apelido “Bene” não consigo localizar a procedência geográfica, de qualquer forma a hipótese inicial é que fosse ele também, como o Padre Ubaldo, natural de Civitella del Trento, pequena cidade do centro da Itália. (...) Fico convencido de que a vossa festa com a participação das bandas de Congo é muito mais antiga do que se pensa, pois encontrei informações destas festas feitas por africanos em Coimbra, Portugal, em 1625, na ocasião das festas públicas (duas semanas) para a canonização da rainha Santa Isabel, mulher do rei Dom Dinis.”
Na Internet, o escritor Alessandro Dell’Aira apresenta um estudo sobre “O Santo Preto e o Rosário” e outras informações sobre São Benedito, nave Palermo e Bandas de Congo: http://arsenale.freeweb.supereva.it/magaz.htm
Em livro publicado na Itália, em dezembro de 1999, com o título, “La rotta di San Benedetto il Moro, da San Fratello a Bahia”, edição Magazzini di Arsenale, o Escritor Alessandro Dell’Aira, com base no livro “História da Serra”, versão disponível na Internet, divulga a Insurreição do Queimado e Festa de São Benedito da Serra, no Espírito Santo, nas páginas 44 a 50.
RIQUEZAS CULTURAIS
O Jornal "Correio Popular" da cidade de Cariacica - ES, de 29 de março a 4 de abril de 1991, na página 7, publica a seguinte matéria da Prefeitura Municipal da Serra:
"SERRA - Raízes e Riquezas Culturais - QUEIMADOS.
A Insurreição de Queimados foi uma rebelião escrava ocorrida em São José de Queimados, em 1894.
Frei Gregório de Bene, Italiano, era encarregado da instrução da população local. Em seus sermões, condenava a escravidão e o tratamento desumano recebido pelos escravos. Entre suas missões, havia a construção de uma Igreja na região, só que lhe faltavam recursos.
Assumiu, junto aos escravos, os compromissos de libertá-los das mãos de seus senhores no dia da inauguração da Igreja, mas, para inaugurá-la, precisava da ajuda dos escravos. Os negros trabalharam em horas de folga e durante a madrugada.
Na inauguração, porém, a promessa não foi cumprida, causando a revolta dos escravos. Os rebeldes se refugiaram no mato, sendo alguns capturados e outros desaparecidos, supostamente mortos de fome. Era o fim da Insurreição de Queimados. Ajude preservar nossa história."
O texto apresenta os seguintes erros:
a) O ano está errado. Não é 1894. O ano é 1849.
b) A palavra não é QUEIMADOS e sim QUEIMADO sem a letra "S". O mesmo texto errado foi publicado em outros jornais.
ESCRAVOS DA LAMPADOSA
O Guia de Informações Turísticas publicado em 1983, cujo título é "Venha Conhecer as belezas entre as Montanhas e o mar - Serra - Espírito Santo - BR", na parte relativa aos "Atrativos Culturais", diz o seguinte:
"Igreja dos Escravos da Lampadosa - Ruínas localizadas no distrito de Queimados. Região onde viveram os escravos vindos da África. Palco de acontecimentos dramáticos em março de 1849 - A Insurreição de Queimados.
Recomenda-se a visitação, por ter sido monumento construído com o emprego de mão-de-obra escrava e por se tratar de ruínas de um templo construído após os primeiros anos da Colonização do Solo Espirito-Santense."
No texto destaca-se:
a) Escravos da Lampadosa - Esta expressão refere-se a Igreja construída com trabalho escravo.
b) A palavra Queimado está erradamente escrita com a letra "S" no final.
c) O Templo não foi construído nos primeiros anos da Colonização do Solo Espirito-Santense e sim em 1849, ou seja há 314 anos após a colonização do Solo Espírito-Santense, que foi a 23 de maio de 1535.
Fonte: “A REVOLTA, INSURREIÇÃO DO QUEIMADO” - Negros em busca de liberdade. Texto do Livro História da Serra, de Clério José Borges
O Forte de São Francisco Xavier de Piratininga
O Forte de São Francisco Xavier de Piratininga, também conhecido como Forte de São Francisco Xavier da Barra ou simplesmente como Forte de Piratininga, localiza-se na enseada de Inhoã, cidade de Vila Velha, próximo a Vitória, no estado do Espírito Santo, no Brasil.
Estrategicamente erguido na base do morro da Penha, tinha a missão de defesa da barra sul da baía de Vila Velha, no litoral da antiga Capitania do Espírito Santo
Acredita-se que foi junto ao morro da Penha que o donatário da Capitania do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho, teria construído uma pequena fortificação para a defesa de suas gentes, desde 1535.
A fortaleza da barra
Por volta de 1674 ou 1675, o baiano Francisco Gil de Araújo adquiriu a Capitania do Espírito Santo a Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, por 40 mil cruzados (OLIVEIRA, 1975:157). Durante a sua administração (1678-1682), entre as melhorias que promoveu no tocante à defesa, fez iniciar as obras desta fortificação (op. cit., p. 160), cujas obras prosseguiam em 1702 (op. cit., p. 175) e ainda se encontravam inacabadas em 1705 (op. cit, p. 176). Estava artilhado com dez peças (BARRETTO, 1958:190) de diversos calibres. A direção das obras ficou a cargo do Capitão-mor Francisco Ribeiro que, em 1703, deixou o Forte adiantado. Em 1705, entretanto, ainda em obras, teria sofrido investidas de corsários ingleses e holandeses.
SOUZA (1885) nomeia esta estrutura como Fortaleza de São Francisco Xavier de Piratininga, também conhecida como Fortaleza da Barra, dando-a como construída em 1702, por determinação do Governador Geral D. Rodrigo da Costa (1702-1705) (op. cit., p. 99).
O Vice-rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brasil, D. Vasco Fernandes César de Meneses (1720-1735), comissionou o Engenheiro Nicolau de Abreu Carvalho para proceder aos reparos necessários às fortificações da baía do Espírito Santo, entre as quais esta (OLIVEIRA, 1975:188). As obras teriam tido lugar a partir de 1726, quando teria recebido planta no formato circular, artilhada com quinze peças.
Em 1767 passou por novas reformas. A planta dessa data (IHGB, Rio de Janeiro), apresenta estrutura no formato circular, com quinze peças em canhoneiras (SOUZA, 1885:99; GARRIDO, 1940:101). Sobre o seu terrapleno erguia-se a Casa de Comando, edifício assobradado de dois pavimentos. O acesso ao forte era feito através de uma rampa no exterior.
O Mapa das Fortificações do Império de 1857, classificou-a como de 3ª Classe. Cedida ao Ministério da Marinha para servir como Armazém (SOUZA, 1885:99) em 2 de junho de 1862, posteriormente foi melhorada, tendo abrigado a primeira Escola de Aprendizes-Marinheiros do Espírito Santo, tendo como seu primeiro comandante o Capitão-tenente José Lopes de Sá. Com a extinção deste estabelecimento em 1866.
Do século XX aos nossos dias
À época da República Velha, pelo Decreto-Legislativo n° 1.654, de 13 de junho de 1907, as instalações do antigo forte foram ampliadas para a instalação da nova Escola de Aprendizes de Marinheiros do Espírito Santo, inaugurada a 1 de abril de 1909, também de efêmera duração, de vez que foi extinta em 1913.
De volta para a responsabilidade do Ministério da Guerra em 10 de novembro de 1919, este lhe anexou um moderno aquartelamento, onde sediou o 3º Batalhão de Caçadores do Exército brasileiro (GARRIDO, 1940:101; BARRETTO, 1958:191).
Atualmente o antigo forte integra as dependências do 38º Batalhão de Infantaria do Exército ("Batalhão Tibúrcio"), carinhosamente apelidado de a unidade mais naval do Exército brasileiro. As visitas devem ser marcadas com antecedência, com o setor de Comunicação Social.
Características
Forte de Piratininga, Vila Velha (ES), Brasil: vista diurna.A recordação da passagem do forte pelas mãos da Marinha do Brasil encontra-se fixada na balaustrada composta de âncoras, em uma escada na parte interna do forte e pelo mastro de marinha.
Bibliografia
BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368 p.
GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
MARQUES, César Augusto. Diccionario Historico, Geographico e Estatistico da Província do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878. 248p.
OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo (2ª ed.). Vitória: Fundação Cultural do Espírito Santo, 1975. 602 p. il.
SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.
O Fortim do Espírito Santo
À semelhança das demais vilas fundadas nos primeiros anos da colonização pelos capitães donatários (São Vicente, na Capitania de São Vicente; Vila Velha (ou do Pereira), na Capitania da Bahia; Olinda, na Capitania de Pernambuco; Nazaré, na Capitania do Maranhão), a Vila Velha da Capitania do Espírito Santo também foi fortificada:
"Espírito Santo - vulgarmente Vila Velha. Os selvagens chamavam este estabelecimento de Mboab, que significava aldeia de gente calçada, ou simplesmente calçados. Fundada em 1535 por Vasco Fernandes Coutinho em sítio raso, junto ao monte de Nossa Senhora, foi a antiga capital da Província: teve uma fortaleza edificada pelo mesmo Coutinho, para se defender dos aymorés, que continuaram a atacar aquela povoação até 1558, em que foram derrotados por Fernando de Sá." (MARQUES, 1878:__)
Esta estrutura encontra-se referida por Jean de Léry ("Histoire d'un voyage en terre de Brésil", 1578), em início de 1557, a caminho da França Antártica:
"Costeando a terra na direção que tinhamos em mira [Sul], ao fim de nove ou dez léguas apenas deparamos com um fortim português denominado Espírito Santo (para os selvagens Moab). O forte, reconhecendo-nos, bem como à caravela aprisionada que trazíamos mandou-nos três tiros de canhão aos quais respondemos com juros. Como porém estavamos uns e outros fora do alcance da artilharia não houve danos de parte a parte." (LÉRY, 1972:45-46)
Existem referências posteriores a uma Fortaleza do Espírito Santo, atribuída à traça do Engenheiro-mor e dirigente das obras de fortificação do Brasil, Francisco de Frias da Mesquita (1603-1634), a partir de 1614.
Bibliografia
BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368p.
GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
MARQUES, César Augusto. Diccionario Historico, Geographico e Estatistico da Província do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878. 248p.
OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo (2ª ed.). Vitória: Fundação Cultural do Espírito Santo, 1975. 602p. il.
SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.
Século XX
Após a proclamação da República , em 1889 , O Espírito Santo faz sua primeira constituição estadual. O primeiro presidente de Estado eleito foi Moniz Freire. Ele investiu na rede ferroviária , na infra-estrutura do Porto de Vitória. Porém , com a desvalorização do café , o recurso se tornaram escassos e até 1908 ,o estado viveu um período de estagnação.
Jerônimo Monteiro, eleito em 1908 , iniciou um processo de modernização , levando luz elétrica a Cachoeiro de Itapemirim e a Vitória. Também foi construído o primeiro complexo industrial do estado , sediado em Cachoeiro , com indústria de cimento , oléo e açucar. Mas , tantos investimentos na modernização do Espírito Santo , gerou dívidas externas altas , que prejudicou os governos posteriores.
Florentino Avidos foi eleito em 1924 ,e seu governo foi marcado pelas construções de pontes. A ponte de Colatina acelerou a ocupação populacional do Norte do Estado. Em Vitória , foi feita a "primeira ponte" , hoje conhecida como ponte Florentino Avidos , que liga a capital a Vila Velha.
Em 1930 , Aristeu Borges , então presidente de Estado , apoiou a candidatura de Júlio Prestes e ,por isso, foi deposto com a revolução de 1930. Getúlio Vargas nomeia Punaro Bley como interventor no Estado. Bley ficou no poder entre 1930-1943. Investiu na saúde , criando hospitais e leprosários. Sanou as finanças do Estado , em situação ruim , depois dos governo republicanos. Focalizou a agricultura como a principal produção capixaba.
Nesse período ,a AIB cresceu no estado ,dado seu caráter fascista , que encontrava apoio nos imigrantes italianos e alemães. Porém , com a eclosão da Segunda Guerra Mundial , esse grupos foram perseguidos. Medidas como a proibição de se falar italiano e alemão demonstram isso.
Jones Santos Neves assumiu o governo entre 1943 e 1945. Ele foi o articulador político, no estado, do processo de transição para a democracia. Neste mandato, ele executou os planos de obras e equipamento e fomento de produção. Esses planos visava saneamento, aumento na produção, melhorias no transporte, e incentivo a industrialização. Ofereceu vantagens especiais para quem instalasse novas industrias que aproveitasse a matéria prima existente no estado.
Carlos Linderberg venceu as eleições e assumiu o 1º mandato democrático pós Estado Novo (1947-1950). O seu governo foi caracterizado pelo o apoio pela agricultura .Continuou o processo de expansão para o norte , entregando as terras devolutas (pertencente ao governo) a novos fazendeiros. Seu empenho em possibilitar o aparecimento das industrias foi tímido , apesar de seu governo ser marcado pela construções de hidrelétricas. Na educação , fundou a faculdade de medicina , federalizou a de direito e reabriu a de odontologia.
Jones Santos Neves, volta ao governo do estado, agora eleito pelo o povo. A sua meta é industrialização do estado , por meio de um planejamento prévio. O governo passou a intervir diretamente na economia, a fim de criar condições de infra-estruturas que proporcionasse o arranque industrial. O plano de valorização deu prioridade a quatro setores: Porto de Vitória, energia elétrica, malha rodoviária e fomento de produção. O porto de Vitória foi aparelhado para reparo e construção de barcos. Foi feita uma dragagem da baía, para possibilitar a entrada de embarcações com maior capacidade de carga. Ainda foram feitas construções no cais de carvão e instalação de aparelhagem moderna. Na questão de energia elétrica, a construção de inúmeras hidrelétricas (Suíça, Rio Bonito). Já na malha rodoviária, seus feitos são a ampliação e asfaltamento das rodovias Vitória – Colatina, Cachoeiro – Alegre e a pavimentação da rodovia Vitória – Cachoeiro.
Na educação , é criada a UFES e a Escola Politécnica com o objetivo de preparar e qualificar a mão-de-obra do estado. Também criou o IBES (Instituto do Bem-Estar Social), um conjunto habitacional com verbas estaduais, que visava a criação de residências populares para operários .
Francisco Larceda, Chiquinho, põe fim na hegemonia do PSD no estado. Eleito pela Coligação Democrática; Chiquinho era populista. O seu governo era voltado para a área rural. O incentivo a agricultura, o fortalecimento da agroindústria do leite e estações de tratamento de água foram seus principais feitos. Porém Chiquinho enfrenta um grave problema. O café capixaba é acusado de conter pragas que gera a segunda crise cafeeira . O café é erradicado, e como conseqüencia várias famílias se vêem obrigadas a se mudarem para a cidade, provocando ,um êxodo rural.
Carlos Linderberg assume novamente o governo do estado (1959-1962). Importantes fatos ocorrem em seu governo. A transferencia da Vale do Rio Doce, a construção do Porto de Tubarão, a federalização da UFES. Ele também levou luz elétrica para cidades do interior.
Larceda vence novamente as eleições, com a promessa de erradicar o analfabetismo, o seu segundo governo foi marcado por ser interrompido pela ditadura militar. Inaugurou o Porto de Tubarão, há uma tentativa de industrialização.
Os Grandes Projetos industriais
No final da década de 1960, começara a ser viabilizada a instalação de projetos industriais no Espírito Santo, principalmente nos setores siderúrgico e paraquímico. Esses setores receberam especial destaque nas prioridades do Plano Nacional de Desenvolvimento - I PND - que visava, dentre outras coisas, tirar proveito econômico do espaço brasileiro, associado à disponibilidade de recursos humanos, com aplicação de recursos de capital já assegurados às novas regiões. A estratégia desenvolvimentista também abrangia o Plano de Integração Nacional, com implicações demográficas e com projetos estratégicos que priorizavam regiões menos desenvolvidas e periféricas. A política do Governo Estadual de divulgação das vantagens locais do Espírito Santo juntamente com os PNs abriram possibilidades de implementar os Grandes Projetos Industriais no Estado. A cidade de Vitória não possuía infra-estrutura para receber o grande fluxo migratório que, com o advento do desemprego no campo, se deslocou em sua direção durante e após a implementação das indústrias que fazem parte dos Grandes Projetos Industriais. A instalação dessa população no pequeno espaço físico da cidade gerou a expansão de favelas e a ocupação do manguezal na área oposta ao Oceano. Por outro lado, a cidade recebeu aterramentos que redefiniram suas fronteiras, aumentando o seu tamanho, o que ocasionou uma mudança radical na fisionomia urbana da capital capixaba. Ocorreram a explosão imobiliária, a pavimentação de vias, criação de praças e logradouros, além de o comércio do centro da cidade ser deslocado para a região norte da cidade, onde novos bairros foram criados.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Capitania_do_Esp%C3%ADrito_Santo
Revisão e adaptação: Emerson Sbardelotti
prof.emerson.comuna@hotmail.com
O CAPIXABA E O CANELA VERDE
Jair Malisek Santos
Era dia de grande festa na cidade. Dia 23 de maio, data histórica da chegada do donatário Vasco Fernandes Coutinho à Capitania do Espírito Santo.
Manhã de sol cristalino e, à sombra da alameda de palmeiras imperiais na praça da Bandeira, bem adiante da Igrejinha do Rosário, os moradores de Vila Velha se comprimiam em volta do palanque embandeirado para ouvir os discursos e assistir ao desfile dos militares e colegiais que participavam do ato cívico, com a presença das mais significativas autoridades e, ao final das comemorações, no verdejante cenário do Morro do Convento, transcorria animada conversa entre próceres à sombra das frondosas árvores que formavam pequeno bosque que a imprensa de Vitória apelidou de "morrinho". Ali, em novo cenário era servida uma variedade de guloseimas da terra tais como, muchás, bolinhos de arroz, bolo de milho, tapiocas, café, caldo de cana, água de coco e refrescos de frutas da época; iguarias que estavam expostas sobre rústicas mesas montadas à sombra das árvores seculares. Pequenos grupos de moradores da cidade davam boas vindas aos visitantes com alegria e os convidavam para o repasto.
Por mera curiosidade, um dos forasteiros e seu amigo demonstraram vivo interesse em dialogar com alguém do lugar, desejo esse que os levou a se aproximar do pequeno grupo que estava adiante e...
— Com licença, rapazes, queiram desculpar-nos. Eu e meu amigo somos jornalistas acompanhantes dos membros da corte e aqui viemos para participar da solenidade que festeja o nascimento desta Província, e estávamos dizendo que ainda não tínhamos visto um lugar tão especial, de natureza francamente sedutora que está contribuindo demais para aumentar a nossa curiosidade, pois pouco sabemos a respeito desta região. Permitam-nos dizer que gostaríamos de conversar um pouco com os senhores que imaginamos serem daqui.
Do pequeno grupo, um jovem se destaca e diz:
— Com grande alegria nos colocamos às suas ordens, senhores.
— Aproxima-se dos visitantes, tira o chapéu e lhes estende a mão.
— Diga-nos, meu jovem, são os senhores naturais daqui?
— Sim, senhor, diz aquele que se destacou. Somos capixabas nascidos nesta vila onde começou o Estado do Espírito Santo.[ 1 ] Foi justamente ali, na Prainha, que ancorou a caravela Glória de senhor Vasco Fernandes Coutinho, no ano de 1535. Foi aqui, neste pedacinho do Espírito Santo, que nascemos e nos criamos sem nunca sair. Por isso somos capixabas, canelas verdes e bem brasileiros.
— Ora, pois, meus caros jovens, vocês estão dizendo que são capixabas. Mas, antes de chegarmos aqui, disseram-nos que hoje estaríamos visitando a cidade dos canelas verdes! Poderiam explicar-nos a razão desses dois adjetivos?
— Capixaba, explica o primeiro deles, é uma palavra de origem tupi cujo significado é, terra preparada para plantação, sítio, ou roça. É coisa que sempre existiu na nossa província desde a chegada dos portugueses, quando fizeram os primeiros cultivos de subsistência e é assim, até hoje, com as roças de mandioca, de milho, de cana, de bananas etc. E nós, somos descendentes dos primeiros colonizadores que aqui chegaram.
— Mas nenhum de vocês parece ser de origem latina como eram os primeiros portugueses que para cá vieram com Vasco Fernandes Coutinho!
— Pois olhem, caros amigos, podem os senhores ter certeza que nós, os capixabas somos bem brasileiros, somos latino-americanos porque nós somos descendentes deles e nascemos na América. Isso qualquer um pode ver na cor dos nossos olhos, na lisura dos nossos cabelos e na cor da nossa pele que misturou o branco de lá com o bronzeado das índias daqui.
— De fato, meu jovem, vocês compõem realmente a bonita mistura das raças dos dois continentes mas permitam-me perguntar indaga o segundo visitante, se existe alguma relação entre o que você está dizendo, com a alcunha "canela verde". Por favor, diga-nos algo a respeito.
— O canela verde é o capixaba nascido em Vila Velha particularmente. Este cognome, atribuído aos vila-velhenses, tem origem numa remota história que meu amigo André da Maré Cheia vai contar.
— Pois não, disse André que levantou-se, pousou a pequena faca com que descascava laranja sobre a tosca mesa, pediu licença aos visitantes e, ajeitando a camisa na cintura iniciou pausadamente o seguinte comentário:
— Era comum os antigos habitantes do litoral brasileiro viverem da pesca e da caça. Os canelas verdes, como todos os colonizadores que se estabeleceram no litoral, tinham no mar a principal fonte de comida ficando a caça como alternativa alimentar. A caça era exercida na busca dos animais de pequeno porte como pacas, preás, tatus, lagartos e aves em geral. Para persegui-los nas matas litorâneas tinham que enfrentar marimbondos, abelhas, cobras, aranhas, formigas, mosquitos, besouros e, acima de tudo, grande variedade de espinhos. Para varar essa restinga fechada e perigosa, o homem foi obrigado a lançar mão de alguns meios de defesa que se tornaram comuns no seu dia-a-dia, tais como, levar um facão na cintura que servia para abrir a picada, uma vara resistente para bater o chão, quando o trecho da jornada era formado por capim, vegetação rasteira ou charco. Contra os espinhos dos arbustos protegiam-se usando um amarrado de folhas espessas ou pequenos feixes de ramagens nas pernas, além de um calçado qualquer. Por causa dessa proteção nas pernas, foram alcunhados de "canelas verdes". Mas, essas folhas ou ramagens, usadas nas pernas, vêm de uma tradição indígena que os nossos avós, os primeiros mestiços, adotaram também. [ 2 ]
— Devo dizer, interrompe o amigo, que já ouvi outras histórias, tentando justificar esta alcunha, mas, sinceramente, sem o sentido lógico desta que acabamos de ouvir do André.
— Neste ponto houve uma pausa e breve troca de olhares, quando um dos visitantes sugeriu que a conversa prosseguisse com todos sentados. E tomaram por assento as raízes expostas de um majestoso ipê. Voltando-se para o primeiro canela-verde que preferiu continuar de pé, o cavalheiro da corte solicitou-lhe que contasse alguma coisa relacionada com o cotidiano de um cidadão desta linda e pequenina vila, no que foi prontamente atendido. [ 3 ]
— Permitam-me que fale de mim mesmo. Eu sou canela-verde, sou pescador desde menino, disse. O meu trabalho é o anzol, o remo e a rede. Olhem a minha mão que é um calo só, porque eu trabalho desde que o sol nasce até a hora que se esconde. Mas não é só isso não senhores. Os nossos ancestrais foram os primeiros canelas verdes que, desde 1558, ajudaram na construção do Convento de Nossa Senhora da Penha, lá no alto do outeiro, onde trabalharam muito com as pedras. Foi um serviço muito pesado, demorado e bastante difícil, porque todas as pedras foram levadas, uma por uma, para o alto da rocha íngreme. Uma fantástica realização dos dedicados seguidores de São Francisco de Assis, que nela perpetuaram suas vidas de penitência e de amor aos irmãos. Esta maravilha, que contemplamos hoje, foi começada por frei Pedro Palácios e tantos outros dedicados cenobitas que colocaram pedra sobre pedra na edificação dessa portentosa obra que se transformou em símbolo do nosso estado. Foi serviço de muitos anos que começou desde o tempo do segundo donatário, Vasco Fernandes Coutinho (filho), no século XVI. Até hoje é muito grande a devoção do povo por Nossa Senhora. Foi ela que me batizou e, por isso, eu sou forte e protegido por Ela que vive me guardando de tudo que é ruim. De nada eu tenho medo. Posso até sair por esse mar aberto sem fim e buscar o peixe onde ele estiver; e nunca volto sem ele. E mais, nós somos conhecidos também como os melhores atalaias do litoral do Brasil porque herdamos esse serviço de proteger nosso povo que vive lá dentro, na ilha de Vitória, nossa capital, a cidade mais linda que ajudamos a construir.
O amistoso bate-papo foi interrompido por grande alarido, acompanhado de palmas e vivas, que anunciavam o final do desfile dos colegiais ali na Praça da Bandeira, onde o Prefeito entregava a Chave da Cidade ao Representante do Imperador. Com esse gesto o Prefeito dava por encerrada a primeira parte da solenidade. Em seguida o Presidente da Câmara ofereceria um ágape aos distintos representantes da Corte devendo todos os presentes serem encaminhados para o Morrinho, que um dia os locais chamaram de "Bosque", onde todos se juntariam aos jornalistas e convidados para participarem do repasto à base de comidas regionais regada com refrescos de frutas da época, à sombra das frondosas árvores e sob o frescor do vento nordeste que ali sopra diariamente.
Ao final do "comes e bebes" o sol poente começava esconder-se por trás da Pedra dos Olhos, muito pra lá de Maruípe, anunciando o encerramento das comemorações da cidade, desta vez de forma toda especial porque era o ano de 1823, quando, no dia 04 de fevereiro, por Decreto Imperial, D. Pedro I, elevara Vila Velha à categoria de cidade.
Era o momento das despedidas e os apertos de mão iam sendo acompanhados de palavras de agradecimento a todos os capixabas e de decididos elogios aos encantos da terra e à simpática acolhidas dos canelas verdes. Nesse instante, uma nuvem de tristeza parecia turvar o brilho do rápido convívio. Esse sentimento ficou evidente entre os locais, quando o sorriso franco lhes caiu da face e os emudeceu após o instante em que os visitantes acenaram pela derradeira vez ao embarcarem na lancha que os esperava no cais das Timbebas, na Angra da Prainha, para a viagem de retorno à capital.
Foi assim na vila primitiva que regrediu e se transformou em aldeia de pescadores, criadores e agricultores cujos frutos do esforço são vistos através de obras como a igrejinha do Rosário e o Convento da Penha. São construções que vararam séculos porque nas suas paredes a argamassa foi molhada com o suor dos habitantes da vila insipiente e cuja população se multiplicou na endogamia para que o povoado não desaparecesse. E assim viveu até alcançar o alvorecer do século XX para que, hoje, pudéssemos testemunhar o milagre dessa multiplicação herdada desde a cultura tribal dos seus ancestrais. Isso justifica porque, em pleno século XX, ainda encontramos remanescentes desses costumes entre os moradores mais antigos da Barra do Jucu e da Ponta da Fruta.
NOTAS
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[ 1 ] Contam os mais antigos que o termo capixaba teve origem na ilha de Vitória, mais precisamente onde está hoje a avenida Jerônimo Monteiro na margem do porto que passou a ser chamada de Avenida Capixaba porque foi onde o primeiro donatário fez roçado e preparou longa faixa de terra ribeirinha para plantação de milho margeando o ótimo canal de água doce que ainda verte do morro da Fonte Grande. Portanto, na língua tupi, capixaba quer dizer roça ou terreno preparado para cultivo. Hoje é uma palavra que expressa como sendo os nascidos no estado do Espírito Santo, pois que, culturalmente, todos nós, os espírito-santenses, somos saciados pela mesma fonte que jorra abundantemente na capital.
[ 2 ] Esse apelido, só deve ser entendido por aqueles que foram buscá-lo na origem do homem genuinamente brasileiro, ou seja, no nascimento do primeiro mameluco, que foi o resultado do cruzamento do colonizador europeu com a índia nativa da América. Esses primeiros ancestrais eram de cultura metade européia, metade indígena, daí terem usado costumes aprendidos na tribo da mãe que o amamentou e o integrou à vida tribal. Fato esse que se tornou comum ao longo do litoral brasileiro; só não sabemos porque tal cognome ficou fixado no capixaba nascido em Vila Velha. Dai a razão dessa narrativa revelar com tintas nítidas os verdadeiros hábitos dos primeiros mestiços nascidos aqui Esses mamelucos eram de feições suaves, não tinham nariz chato, nem olhos puxados como dos índios eram inteligentes, ao ponto de se tornarem peça chave do Padre José de Anchieta no trabalho de aproximação e de conquistas do aborígene cada vez mais distante do litoral. Na Província do Espírito Santo, este trabalho trouxe tanto índio para desenvolvimento da região sul do estado que, em pouco tempo Anchieta fundou com eles outros núcleos como os de Nova Almeida, Guaraparí e Benevente. Até aqui falamos do homem mestiço e suas principais características físicas. Como e qual seria o perfil da moça ou da mulher canela verde? Verdadeiramente semelhante aos homens; de fisionomia suave, de cabelos lisos ou ligeiramente ondulados e de hábitos idênticos ao da própria mãe tais como amamentar e cuidar dos rebentos, ensinar-lhes as atividades comuns a todas as mulheres da tribo dentre elas colher, debulhar e ralar o milho e a mandioca, preparar a farinha, cuidar do amanho da terra e demais atividades próximas da taba enquanto aos homens competia a fabricação de armas e utensílios, além das atividades da caça, da cata, da pesca, da defesa da tribo etc.
[ 3 ] Por tradição, ou melhor, desde quando o primeiro donatário transferiu a sede da capitania para a ilha de Santo Antônio (Vitória), Vila Velha continuou sendo uma pequena cidade onde quase todos os homens eram proletários ou de profissão indefinida, uma espécie de serviçal pronto para fazer de tudo um pouco. A vida dessas pessoas era desfrutada no seio de uma sociedade onde todos se conheciam; ou melhor, onde grande parte dela tinha grau de parentesco próximo porque foram gestados na cultura indígena que admitia o casamento entre os membros do mesmo grupo ou da mesma tribo. E mais, foi um povo que herdou a fé católica de parentes remotos que se acostumaram a confiar nos poderes infinitos de Nossa Senhora como mãe de Deus e de todos os homens. Estava no centro de sua crença, assim como de todos os capixabas, a fé inabalável na Mãe de Deus-Pai que os consolava nas dificuldades e os livrava de tudo que era ruim. Nossa Senhora era o bálsamo de suas vidas e onde buscavam a solução para os seus problemas, e, para orgulho de todos, ela desceu do céu e veio morar bem perto, na igrejinha do Rosário e no Convento da Penha. Na cultura dessa sociedade de pessoas simples, a alcunha "canela verde" era recebida como um carinho ou título de destaque, pois nutriam a certeza de trazer no sangue a descendência de gente diferente que tanto fez pelo engrandecimento de tudo e de todos. Qual Francisco de Assis, eram todos filhos da pobreza e da simplicidade, mas plenos da graça do Pai que os fez alegres e fecundos nas realizações do dia a dia. Tanto o rapaz como a moça pareciam envaidecer-se qual atleta, que trás pendurado no pescoço a medalha de vencedor ou vencedora, ou como o estudioso que se destaca ao receber o laurel que o eleva entre os demais. Assim foram os primeiros capixabas, descendentes de uma raça que tudo suportou e tudo fez na obscuridade do início do nosso período colonial.
SOBRE IDENTIDADE E INDIVIDUALIDADE CAPIXABA
Getulio Marcos Pereira Neves
Lembro-me de ter lido certa vez numa revista masculina (salvo engano a Ele Ela, da Bloch Editores), divertido artigo sobre comportamento versando acerca da possibilidade de se identificar a origem de uma pessoa pelo modo de a mesma se comportar na praia. Assim, os paulistas eram reconhecidos de longe pelo fato de suas mulheres na altura freqüentarem a praia maquiadas e cheias de jóias; o carioca, por chegar lá de chinelos e levando apenas uma toalha e o capixaba, por levar à praia aquelas indefectíveis esteiras de palha para se sentar em cima. Acho que comecei então a prestar atenção a isto porque a certa altura me convenci que, de fato, esta constatação era verdade, pelo menos no que dizia respeito às esteiras.
Acho que foi a partir daí que, como carioca radicado no Espírito Santo, salvo alguns períodos de vivência fora daqui para estudos, esta questão da identificação do caráter capixaba começou a me ocupar, mesmo que inconscientemente. O que torna o capixaba único, isto é, o que o diferencia dos demais brasileiros? É assunto para muitas laudas, e sem dúvida muitas foram já produzidas com muito mais propriedade e autoridade que as que seguem. Quem for pela internet ao site Estação Capixaba pode conferir textos insuspeitos a respeito do assunto, e ao menos a um deles quero fazer menção direta, ao abrir esta tentativa de contribuição pessoal à discussão que tem ocupado alguns dos melhores pensadores da terra.
I. Que significa "capixaba"?
O professor Guilherme Santos Neves, que dispensa apresentações, faz no texto "Por que somos Capixabas?", um levantamento de quanto fora investigado na altura (creio que pouco mais se produziu a partir daí), acerca da etimologia e também da mitologia do vocábulo "capixaba", introduzindo as interpretações do significado em tupi-guarani (ou nheengatu, a língua-geral, só proibida por estas bandas em meados do século XVIII), como designando roça ou plantação. Este termo veio posteriormente a designar o próprio possuidor da roça, isto é, os habitantes da Ilha de Vitória, num processo especial de derivação lingüística que, para Elpídio Pimentel, a que Santos Neves faz referência, se trata da metalepse.
Além dessa explicação de cunho científico, apresenta ainda referido autor a versão folclórica pela qual o nome teria sido estendido aos habitantes da Ilha em virtude da antiga Fonte da Capixaba, onde desembocava a boa água que brotava da Pedra da Vigia e que vinha sendo utilizada, ao longo do tempo, por toda a população. Com o passar dos anos, o povo passou a dizer que o primeiro banho da criança recém-nascida deveria ser tomado naquelas águas, para que tivesse fortuna e felicidade na vida, e assim a fama das águas da fonte da Capixaba se espalharam.
O fato é que o designativo "capixaba" veio a certa altura diferenciar, efetivamente, o nascido no Espírito Santo do carioca, natural do Rio de Janeiro, e do caipira, que, inicialmente designando o natural do interior de São Paulo, acabou se espalhando por todo o país com o significado de indivíduo interiorano, não versado no trato social.[ 1 ]
Se é impossível precisar a partir de que época o vocábulo em questão encampou este significado de designação gentílica, é fato que já em 1790 o relatório enviado pelo Capitão-mor Inácio João Monjardino ao Governador da Bahia fazia menção à existência de fontes, indistintamente, na Vila da Vitória,[ 2 ] enquanto que o Governador Brás Rubim em sua Memória Estatística da Província do Espírito Santo, de 1817, cita expressamente a da Capixaba como uma das duas fontes que havia "nas extremidades da Villa".[ 3 ]
Investigações históricas e etimológicas à parte, o que subsiste, nestes casos, é a interpretação dos fatos dada pelo povo. Neste sentido, as propriedades mágicas das águas da fonte da Capixaba (levantadas por Guilherme Santos Neves naquele texto) constituem, sem dúvida, mais uma vertente da milenar tradição que atribui poderes mágicos aos nascedouros e cursos d'água, habitados, quase sempre, por entidades benéficas (por exemplo, as náiades gregas, as ondinas e a própria Iara dos tupis).
II. Identidade — ou individualidade — cultural
Mas que é que pode fazer com que um indivíduo, ou um grupo de indivíduos, se sinta ligado de tal maneira a uma determinada região, se veja tão confortável ao adotar determinados usos e costumes de curso comum naquele sítio, a ponto de se fazer designar por um gentílico que o — ou os — identifique? Sem embargo trata-se de matéria afeta à Antropologia e até à Ciência Política, que se debruça sobre o tema ao tentar definir as "aspirações comuns" a uma determinada população (que pode ou não vir a habitar um território determinado), como condição indispensável a que aquela população se venha a individualizar como nação (e não se precisa ir longe para entender isto, quando se lembra que até mesmo os locutores esportivos — que geralmente não têm muita formação em Ciência Política — costumam designar as torcidas de clubes de futebol como "nação").[ 4 ]
Estas "aspirações", em se tratando do âmbito do estudo da Ciência Política, podem ser uma mesma língua, uma religião comum, ou a adoção de mesmos costumes pelo grupo populacional em questão. Em se tratando de grupo populacional inserido num grupo maior, como é o caso dos capixabas em relação ao grupo populacional brasileiro, havemos de nos ocupar deste último aspecto, ou seja, da especialização dos costumes, uma vez que a língua e a religião são comuns a todos os brasileiros em geral. Costumes de origem ancestral enraizados na população fazem parte da bagagem cultural daquele grupo. Se apresentam algum traço de originalidade quando cotejados com costumes de outros grupos, pode-se falar neste particular de "individualidade cultural" do grupo em relação àqueles, mas também de "identidade cultural" do indivíduo que os cultiva em relação a esse grupo determinado.
Abstrações teóricas à parte, na prática ao se pensar o assunto não se pode partir de outra premissa que não o da constatação da "marginalidade periférica" do Espírito Santo no contexto da nação brasileira,[ 5 ] o que se deve à sua pouca influência política, sua reduzida expressão econômica (em termos absolutos, visto ser um dos estados do Brasil cuja economia cresce a taxas mais aceleradas) à nenhuma penetração da sua produção cultural (que existe, inobstante a descrença dos próprios capixabas).
Este estado de coisas indubitavelmente influi sobre o ânimo da população, sobre a auto-estima dos capixabas, que, acometidos por um "complexo de coitado", tendem a não valorizar as coisas da terra, tão pobre. Infelizmente, pode-se dizer ser este o principal traço que tem caracterizado o capixaba, ao menos desde o último período de migrações — interiores e exteriores ao estado — por ocasião da implantação por aqui dos grandes projetos industriais, na década de 70 do século XX.
III. Individualidade cultural capixaba
Ora, sabe-se que o Espírito Santo era, nos primeiros tempos da colonização, a melhor terra do Brasil, no dizer de observadores insuspeitos (porque não radicados em nenhum sítio) — os padres da Companhia de Jesus, sem favor os iniciadores da nacionalidade. De fato, assim se manifestaram sobre a terra os padres Afonso Braz, em carta de 1551, e Antônio Pires, no mesmo ano,[ 6 ] entre outros, bem como Frei Vicente do Salvador, franciscano, autor da primeira História do Brasil, já em 1627.[ 7 ]
A capitania foi entregue a fidalgo de renome, destacado na campanha de expansão portuguesa no oriente, Vasco Fernandes Coutinho. Suas terras constituem, hoje, o único estado brasileiro que não chegou a ser invadido por forças estrangeiras: a população, unida, organizou-se mais de uma vez para repelir ataques e invasões durante os séculos XVI e XVII. No norte da capitania se manteve pela primeira vez na colônia uma campanha sistemática contra exércitos indígenas organizados, na região do rio Cricaré.
"Tropas" de índios saíram do Espírito Santo para se incorporar às forças que combateram os franceses durante a campanha que culminou na fundação do Rio de Janeiro, tendo estado presentes, durante aquela movimentação, em episódio adotado pela história militar como o nascimento da Marinha de Guerra do Brasil. Em fins do século XVI, e ao contrário do que se convencionou pensar, a produção de açúcar da capitania era parte expressiva da exportação da colônia para a metrópole. Por aqui, pelo caminho natural do Rio Doce, se fizeram entradas para o sertão à busca de pedras e metais preciosos, e daqui foi dada a notícia da descoberta de ouro nas Minas Gerais, em 1692 ou 1693, por Antônio Rodrigues Arzão, sendo que aquela capitania foi desmembrada das terras da do Espírito Santo.
Aqui se registrou a presença do primeiro músico de que se tem notícia no Brasil, Francisco de Vacas, nomeado pelo Governador Geral Tomé de Souza para os cargos de Provedor da Fazenda e Juiz da Alfândega, em 1550, e que posteriormente viria a ser chantre da catedral de Salvador, a capital da colônia. Aqui o Padre José de Anchieta escreveu e fez encenar alguns de seus principais autos, ele que é considerado o fundador do teatro brasileiro, escolhendo esta terra para viver seus últimos dias. Governantes e autoridades da terra foram várias vezes importunados pela população, que em ocasiões históricas diversas exigiu providências da Coroa contra presumíveis desmandos, sendo mesmo atendida em algumas ocasiões...[ 8 ]
É curioso notar o processo de achacamento que foi sofrendo o Espírito Santo a partir de certa altura, e que chegou a culminar no famoso "nossos braços são fracos, que importa" estampado no hino do estado, reconhecimento impotente dessa debilidade que passou a ser debitada à terra. Vasco Fernandes Coutinho, por exemplo, capitão destacado nas campanhas do oriente, passou à história como fracassado, talvez por informação inicial do mesmo Frei Vicente do Salvador — que aliás lhe faz justiça ao reconhecer a grandeza de propósitos[ 9 ] — de que teria morrido tão pobre "que chegou a lhe darem de comer por amor de Deus e não sei se teve um lençol seu em que o amortalhassem." Se morreu tão miserável, em "vilão tão farto", este fato atesta sua pouca operosidade. Esta informação, repetida inúmeras vezes por outros que simplesmente repetiram Salvador, é hoje contestada: sabe-se que o donatário morreu como proprietário de terras e engenhos.
Mas esta característica tacitamente atribuída ao donatário foi, sem embargo, estendida, num processo de derivação, a toda a população, que aos olhos do restante da nação passou a ser vista mesmo como pouco capaz.
Sem dúvida a primeira tentativa de se consolidar a identidade de um povo se faz por meio da identificação de heróis nacionais. Cá não foi diferente. Ao verdadeiro ressurgimento cultural da província na segunda metade do século XIX (lastreado no capital advindo da cultura cafeeira), ressurgimento este que se verificou pela criação da Imprensa, fundação de clubes de caráter político e de lojas maçônicas, seguiu-se a fundação, em 1916, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, tendo como patrono Domingos José Martins, "Herói da Revolução Pernambucana de 1817" e cuja origem capixaba fora até pouco antes posta em dúvida.[ 10 ] Na esteira deste propósito, cuidou o IHGES, nos anos iniciais de sua história já de oitenta e cinco anos, de, por exemplo, reabilitar a memória de Vasco Fernandes Coutinho, de colocar em relevo o trabalho do Padre José de Anchieta em sua atuação no Espírito Santo, de resgatar a proeza do Caboclo Bernardo em sua operação de salvamento de náufragos na foz do Rio Doce, tudo como forma de identificação e divulgação dessas personalidades passíveis de se constituir em exemplo.
O certo é que a capitania era desde sempre pouco povoada. Com a fundação de Salvador ao norte e do Rio de Janeiro ao sul, o Espírito Santo foi paulatinamente sendo esvaziado, até que a descoberta das riquezas minerais na região das Minas Gerais culminou no travamento pela Coroa portuguesa de qualquer projeto de desenvolvimento da terra, condenada a não mais que baluarte natural de defesa das minas recém-descobertas, durante todo o século XVIII — fato, de resto, amplamente sabido. Golpe de não menores proporções para a capitania, historicamente, seria o da expulsão da Companhia de Jesus das terras de Portugal, incluindo obviamente o Espírito Santo, o que se deu em 1759: toda a atividade educacional e grande parte da atividade econômica se encontravam nas mãos dos inacianos — recorde-se, as fazendas de Araçatiba, destacada na produção de açúcar; Muribeca, destacada na criação de gado e Itapoca, na fabricação de farinha.
A política da Coroa portuguesa foi, assim, funesta para o Espírito Santo durante todo o século XVIII. Somente no início do século XIX recomendou-se especialmente ao Governador Silva Pontes que incentivasse a navegação pelo rio Doce, proporcionando por essa via a comunicação entre o Espírito Santo e Minas Gerais. Tentava-se romper o isolamento de um século do lado de cá...
Em resumo: o Espírito Santo, capitania muito próspera a princípio, teve reais motivos de implantação e desenvolvimento, em sua população, de um verdadeiro sentimento nativista como conseqüência das querelas decorrentes da ocupação (hoje, por conta de certo revisionismo, usurpação...) das terras indígenas, da resistência a tentativas de saque por parte de corsários, notadamente ingleses, e de invasões armadas, notadamente em razão das guerras holandesas (recorde-se a já referida resistência da população da Vila de Vitória, organizada militarmente nos moldes da época, a mais de um ataque estrangeiro no decorrer dos séculos XVI e XVII). Este sentimento nativista teria tudo para se tornar mais forte em razão da mencionada política da Coroa para com a capitania, até desembocar, no século XIX, como legitimador do processo de arrebanhamento popular (visando à manutenção da estrutura social vigente) por parte da classe dominante local, como em toda a América Latina da época da independência. Só que no Espírito Santo não foi bem assim que aconteceu.
Até como decorrência do sentimento nativista, o principal caráter de lusitanidade do povo brasileiro é a negação de sua origem, pela rejeição dessa sua própria lusitanidade, assim como há quem aponte como principal caráter do povo português a negação de sua hispanidade pela pretensa origem francesa de sua nacionalidade (Dom Henrique, pai de Afonso Henriques, o fundador da nacionalidade portuguesa, era da linhagem dos condes de Borgonha).[ 11 ] Essa negação por parte dos brasileiros da origem lusitana, que sem embargo vem fazer de nós outros filhos de pai desconhecido — com todas as conseqüências psicológicas que este fato acarreta — acabou por se firmar induvidosamente em conseqüência da independência, quando os "portugueses do Brasil" passaram a se distinguir dos portugueses europeus. E se consolidou por força do preconceito em geral dos brasileiros contra trabalhadores estrangeiros, portugueses em particular (por serem em maior número, mesmo já em meados do século XX), ocupantes de postos de trabalho que deveriam estar naturalmente destinados — pelo senso comum — a cidadãos brasileiros.
O certo, repita-se, é que a capitania era desde sempre pouco povoada. A propósito, no princípio do século XIX a (já) província contava por volta de 35.000 almas,[ 12 ] incluído neste número a população de índios aldeados. Em vista desta pouca população é que a posterior imigração estrangeira teve no Espírito Santo como móvel principal o povoamento e a ocupação da terra, e só depois (e posteriormente, cronologicamente falando), o de substituição da mão-de-obra escrava. Assim, esse caráter de brasilidade consistente na tal negação da lusitanidade se deve, no capixaba, muito mais ao efeito da imigração, já que Italianos e alemães que vieram povoar as terras do Espírito Santo nem de longe se sentem ligados de alguma maneira a qualquer coisa que lembre Portugal.
Essa singularidade de formação do seu caráter é inconscientemente detectada pelo capixaba, que se reconhece de alguma maneira como diferente dos habitantes dos estados do nordeste, dos habitantes dos estados do sul e até dos de São Paulo, os que, neste particular, mais se assemelham a nós, mas onde a imigração italiana e alemã não teve, quantitativamente, o peso que teve no Espírito Santo. E detectada esta diferença, que associa ao papel de marginalidade do estado no contexto nacional, o capixaba tende naturalmente a desvalorizar o que é para, pela neutralização dessa diferença, integrar-se, já agora como brasileiro, nesse contexto. Exemplo, é chique torcer para clubes de futebol de São Paulo (embora seja popular torcer para clubes de futebol do Rio de Janeiro).
IV. A valorização da identidade
Foi neste ponto que começou a acontecer o incremento desproporcional das relações internacionais, conseqüência do fim da guerra-fria, com suas conseqüentes vertentes de homogeneização das relações comerciais e da produção cultural. E paradoxalmente, foi só então que a tal "identidade capixaba" voltou a ser pensada, ou passou a ser repensada, já agora como expressão da valorização do local como forma de demarcação com relação àquilo que vem de fora — o que, de resto, se constitui numa tendência mundial. E a maneira que têm os grupos humanos de externar esta uma "individualidade cultural" que lhes seja própria, dando-lhe visibilidade, opondo-a a outros grupos, é o externá-la por meio de sua produção artístico-cultural.
Francisco Aurelio Ribeiro expunha, no início da década de 90, a detecção do caráter de marginalidade (pela marginalidade geográfica e cultural do estado) de que se reveste a literatura produzida no Espírito Santo;[ 13 ] na mesma altura, Alexandre Lima e o Maestro Jaceguay Lins se apropriavam da linguagem das bandas de congo em espetáculo no Teatro Carlos Gomes, inaugurando uma tendência de resgate e utilização de expressão musical local na linguagem de música popular a ser consumida pelas massas;[ 14 ] mais ou menos pela mesma época Amylton de Almeida quase finalizava seu longa-metragem O Amor está no Ar, uma história que se passa por aqui e retrata costumes locais, como a festa de São Benedito.[ 15 ]
Se na literatura produzida no estado esta característica de valorização do regional, principalmente de seus aspectos históricos e etnográficos, já se fazia notar anteriormente em certas obras (listem-se de forma ligeira os exemplos de A Oferta e o Altar, de Renato Pacheco, Karina, de Virgínia Tamanini, A Nau Decapitada, de Luís Guilherme Santos Neves, Rua da Conceição, Micarense, Pontal..., de Sérgio Pessoa, Cotaxé, de Adilson Vilaça) — até porque houve anteriormente em termos de literatura brasileira um regionalismo como vertente estilística — na música popular a valorização da expressão local passou-se a fazer efetivamente a partir daí, e na busca de alguma coisa que se possa assemelhar a música genuinamente capixaba destacam-se hoje as bandas Manimal (de Vitória) e Casaca (da Barra do Jucu, Vila Velha), ambas, não por coincidência, adotando a linguagem das bandas de congo como base de sua expressão.[ 16 ]
V. Marginalidade periférica
A obra de Francisco Aurelio Ribeiro é importante aqui na medida que tornou expressa a constatação desse traço do caráter capixaba, dessa "marginalidade periférica". Creio ser por aí que o Espírito Santo pode marcar sua diferenciação no contexto nacional, pela afirmação inequívoca dessa diferença. Nem se diga que isto representaria o aceitar do fato de "nossos braços" serem "fracos, que importa"; seria, antes, uma auto-afirmação, advinda da constatação de que, se somos marginalizados, é porque somos diferentes.
Há vantagem nisso, nessa aceitação da marginalidade? Procurando uma resposta, vou mais uma vez fazer menção a Portugal (afinal, o caráter português é a gênese do caráter nacional). O país apresenta, inegavelmente, esta mesma característica de "marginalidade periférica" nos aspectos não só geográfico mas também cultural, em relação à Europa. Autor português chamado Agostinho da Silva — pensador que inclusive lecionou bastos anos na Universidade de Brasília — em texto datado de 1957, Reflexão à margem da Literatura Portuguesa,[ 17 ] parte da constatação de que o maior feito histórico de Portugal não foram os descobrimentos, ou a fundação das nações ultramarinas, mas a manutenção da independência dos territórios periféricos, por sua tenaz resistência à onda centralizadora irradiada na Península Ibérica desde Castela.
Ora, Portugal parece ter encarnado definitivamente esta "missão", bastando lembrar que sua diplomacia obteve retumbante triunfo ao conseguir, praticamente sozinha, manter a questão de Timor Leste sempre em pauta no âmbito da Organização das Nações Unidas ao longo de mais de vinte anos. Acabou sendo a responsável maior por forçar um desfecho, que no caso foi a libertação de Timor Leste da ocupação indonésia — feito pelo qual se pagou, infelizmente, um alto preço em vidas humanas — e dando à própria ONU a oportunidade de monitorar pela primeira vez o nascimento de um Estado nacional. Trata-se, sem dúvida, de não pequeno feito.
Agora, se na correlação com o Espírito Santo, trocarmos a "manutenção da independência" invocada por Agostinho da Silva por manutenção (ou defesa) da individualidade cultural das culturas periféricas? Ao Brasil deve ser demonstrado que a característica maior da cultura capixaba, considerada como objeto de reflexão, é sua desconcertante diversidade, patente até mesmo do fato da pouca miscigenação de grupos étnicos diferenciados, caso dos pomeranos das regiões centrais e dos grupos indígenas da região de Aracruz, que só muito lentamente se vão integrando culturalmente ao restante do estado.
Neste aspecto o Espírito Santo pode vir a ser para o Brasil um laboratório privilegiado de observação da formação da própria individualidade brasileira (até mesmo porque este processo da formação da individualidade capixaba está a ocorrer no dia-a-dia). A demonstração deste fato ao restante do país só pode ser feita pelos próprios capixabas, através de suas realizações materiais e culturais, num processo que, a ser de fato realizado, sem dúvida haverá de ajudar a promover o resgate de sua auto-estima.
Creio que a correlação entre os dois casos — o de Portugal e o do Espírito Santo — é bastante evidente, pelas características apontadas, e por isto se justifica a utilização que ora se faz do caso português para pensar o caso capixaba. E não se devem escandalizar por isto os nossos bons descendentes de alemães e italianos. Afinal, não se propõe aqui uma "re-lusitanisação" de nada, antes, apenas o reconhecimento íntimo, e posterior afirmação nacional, dessa "marginalidade periférica" de que, um pouco como os portugueses, sofremos os capixabas, fazendo dela não uma marca de inferioridade, mas de individualidade, não de pobreza, mas de diferença cultural, não de fraqueza, mas, a final, de operosidade dos "nossos braços", que sairão fortalecidos deste processo.
VI. Finalmente...
Afinal, que é que torna o capixaba único, isto é, o que o diferencia dos demais brasileiros? Atualmente, os capixabas já não mais se sentam na praia sobre esteiras de palha, o que sem dúvida dificulta muito a sua identificação (e ao se constatar que afinal o capixaba terá trocado a esteira de palha pela toalha de praia do carioca se poderiam gastar por isto muito mais páginas comentando os efeitos da globalização etc., os efeitos das novelas da Rede Globo sobre os hábitos da população do resto do país etc.).
Já disse que o pensar esta questão é-me bastante grato; por outro lado, pode me vir a ser bastante útil, porque tenho um filho "alfacinha" (natural de Lisboa, intra-muros, como oposto a "saloio", o suburbano), e as crianças fazem perguntas. E se ele, distante da nossa realidade, me perguntar alguma vez o que vem a ser capixaba, quem sabe possa lhe responder algo mais do que "é o brasileiro que ao conduzir veículo usa a pista da esquerda como se fosse a de baixa velocidade" — este sim, Guilhermes, Ribeiros, Pachecos, outros pensadores capixabas — o traço ainda mais visível, mais indiscutível e sem dúvida mais irritante, de nossa identidade cultural...
Praia da Costa, agosto de 2001
NOTAS
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[ 1 ] Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, 6ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988, p. 176/177.
[ 2 ] Apud José Teixeira de Oliveira, História do Estado do Espírito Santo, Vitória: 1975.
[ 3 ] A outra era a da Lapa, enquanto que a Fonte Grande ficava "quasi no centro" (da vila). Apud Aristides Freire, "A Capichaba e os Capichabas", Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, vol. IX, 1935.
[ 4 ] Os torcedores mais velhos devem se recordar que o então radialista, hoje ilustre Promotor de Justiça aposentado e Presidente, por várias vezes, do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação de Futebol do Espírito Santo, Dr. João Cézar Sandoval, referia-se à torcida do Rio Branco Atlético Clube como "a nação de Jucutuquara"...
[ 5 ] Essa expressão, utilizada por Francisco Aurélio Ribeiro no título de uma de suas obras, será bastante explorada mais abaixo.
[ 6 ] Ambas em Cartas Jesuíticas, vol. II, Belo Horizonte. Ed. Itatiaia, 1988.
[ 7 ] História do Brasil: 1500-1627, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1982, pág. 108/109.
[ 8 ] Em 1724 os moradores da Vila de Vitória fizeram encaminhar, por quem fazia as vezes de Capitão-Mor da Capitania, representação ao Conselho Ultramarino contra o Vigário da Freguesia de Nossa Senhora da Vitória, João Trancoso de Lira; em 1726 o Bispo da Capitania do Rio de Janeiro (a que estava submetida eclesiasticamente o Espírito Santo) informava o Conselho Ultramarino da suspensão do clérigo, em atendimento às reclamações da população. Em 1733 o povo da Vila pedia a expulsão do clérigo Bento Lobo Gavião ao Capitão-Mor, em representação assinada por autoridades (Catálogo de Documentos Manuscritos Avulsos da Capitania do Espírito Santo: 1585/1822. Vitória: Arquivo Público Estadual, 1998). Nos idos de 1800 o povo da capitania representava contra atos do Governador Silva Pontes (apud José Teixeira de Oliveira, História do estado do Espírito Santo. Vitória: FCES, 1975).
[ 9 ] "E como o espírito de Vasco Fernandes era grande, deixando ordenados quatro engenhos de açúcar, se tornou pera o reino a aviar-se pera ir pelo serão a conquistar minas de ouro e prata de que tinha novas...", op. cit., pág. 108.
[ 10 ] Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, vol. I. Vitória, 1917.
[ 11 ] Esta idéia é expressa por Antônio José Saraiva em A Cultura em Portugal, Livro I: Teoria e História, 2ª edição. Lisboa: Gradiva, 1996.
[ 12 ] Números do censo de 1827; apud José Teixeira de Oliveira, op. cit., pág. 294.
[ 13 ] Veja-se A Literatura do Espírito Santo: Uma marginalidade periférica. Vitória: Nemar, 1996.
[ 14 ] Explorei o tema em texto publicado no volume 19 dos Escritos de Vitória, o "Vitória de todos os Ritmos"; nesse texto, intitulado "Tentativa de Identificação de Tendências Contemporâneas na Música Popular do Espírito Santo", procurei provar que, longe do que se convencionou pensar, a produção musical no Espírito Santo esteve ao longo do tempo sempre afinada com o contexto nacional — e até o internacional que, ao fim e ao cabo, influencia aquele.
[ 15 ] Sobre o filme e outros aspectos da obra do jornalista Amylton de Almeida veja-se A Múltipla Presença: vida e obra de Amylton de Almeida. Vitória: Sec. Municipal de Cultura e Turismo, 1996, org. de Deny Gomes.
[ 16 ] Também sobre essa apropriação da linguagem das bandas de congo e sua utilização por grupos de música popular veja-se o meu texto "Tentativa de Identificação de Tendências Contemporâneas na Música Popular do Espírito Santo", loc. cit.
[ 17 ] Lisboa: Guimarães Editores, 1996.
[Publicado nos Escritos de Vitória: Vitória de Todos os Ritmos - Música e Músicos. Vitória, n° 19, 2000, pp. 94/102 e reproduzido em nosso site com a permissão do autor.]
Getulio Marcos Pereira Neves é sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e juiz de Direito em Vila Velha.
MOQUECA CAPIXABA - E NÃO ME VENHA COM PEIXADA!
Como bom capixaba que sou, não poderia deixar de registrar um certo "destempero" que sinto quando leio a definição de moqueca no famoso Dicionário Aurélio:
"Moqueca1: (Do quimbundo mu'keka) Substantivo feminino: 1. Bras. Prato Típico Brasileiro, em geral de peixe ou de mariscos, podendo também ser feito de galinha, ovos, etc, e que consta de um guisado temperado com coentro, cebola, podendo incluir salsa, leite de coco, pimenta-de-cheiro, azeite-de-dendê. Sinônimo no Pará: poqueca. São Paulo: Espécie de sinapismo/cataplasma/emplasto, de folhas de mangueira e de fumo, que se põe sobre a cabeça para cura de cafalalgia. Confrontar com moquenca. (grifo nosso)
Moqueca 2: De moquear, por influência de de moqueca. Substantivo feminino, Amazonas: O peixe moqueado envolto em folha de bananeira. Confrontar com moquenca.
Moquenca: Substantivo feminino: Guisado de carne de vaca com vinagre, alho, pimenta, etc. Confrontar com moqueca.
Quimbundo: (Kimbundu). Substantivo masculino. 1. Indivíduo dos quimbundos, indígenas bantos de Angola,. 2. A língua desses indígenas."
Venhamos e convenhamos, Aurélio jamais deve ter passado pelo Espírito Santo, a verdadeira "casa" da moqueca. Moqueca, amigo visitante, só existe a Capixaba. Essas que você encontra por aí é só peixada ou sopa de peixe. Sei que vou arrumar a maior briga com tudo o que é baiano deste país, mas a verdade tem que ser dita, doa a quem doer! E se é por uma causa nobre, defender a única e maravilhosa Moqueca Capixaba, vale a pena! Segundo a Professora Leonor de Araujo Santanna (Chefe do Departamento de História da UFES e membro da Diretoria do Clube da Moqueca Amiga), é a seguinte a verdadeira história deste maravilhoso manjar dos deuses:
"O tradicional prato da culinária capixaba reúne, numa tradição de mais de 400 anos, a nossa cultura índia, negra e portuguesa.
Na panela de barro, confeccionada pelos índios, e hoje feita pelos descendentes de índios e negros, juntou-se as comunidades costeiras capixabas, conhecidas como caiçaras, que deu ao prato o seu componente principal: o peixe, como o robalo, o papa-terra, o realito, o xaréu e o badejo, de excelente qualidade, pois a costa capixaba pela sua localização e condições marítimas, é uma das mais fartas do litoral brasileiro.
Aos índios, que também contribuíram com o urucum, que fornece a belíssima coloração avermelhada do prato e um gosto especial, vierem somar os negros e portugueses.
Os africanos deram aquela pitada a mais no cozido, acrescentando a pimenta malagueta e o coentro, que fazem com que a muqueca tenha gosto de “quero mais”.
Os portugueses, com a tradição milenar do pescado, contribuíram para que o peixe tivesse um tratamento anterior ao cozimento, temperando-o com o limão, o alho, e a cebola vindos da Europa, que os trouxe do Mediterrâneo e do Oriente como especiarias.
Todos esses ingredientes reunidos resultam em um prato onde o sabor do peixe é evidenciado, e pessoas das mais variadas partes podem saboreá-lo, sem susto, pois ele é leve, com substância, e de fácil digestão.
Isso mostra que, em terras capixabas, o criador conspirou para que as culturas que formaram nossa gente, se juntassem inspiradas e produzissem essa maravilha de prato que é a muqueca capixaba." (Leonor de Araujo Santanna, além de Chefe do Departamento de História da UFES, é também: Professora de História do Espírito Santo e de África, Presidente do Sindicato dos Guias de Turismo do ES, e Membro do Conselho Municipal de Turismo de Vitória).
Como você vai poder observar, a nossa caríssima professora faz uso da palavra "muqueca", ao invés de "moqueca". Há, na realidade, uma grande discussão em torno disso. Um nobre capixaba, seu Délio Grijó, famoso por suas defesas acaloradas de nossa terra, disse-me que os antigos ilhéus (moradores da ilha de Vitória) escreviam com "U". Bem, história para cá, história para lá...
O importante mesmo é não deixar de comer a Moqueca Capixaba, com "O" ou com "U", mas sem abrir mão de ser a verdadeira e única, longe das "maquiagens" impostas pelos falsos "moquequeiros", que ousam usar molho de tomate, pimentão, azeite-de-dendê, salsa, leite de coco... Ah! Se seu Délio pega o maquiador!
Lusmar Machado Moraes Pizetta
Membro Fundador do Clube da Moqueca Amiga
Proprietário/Webmaster da Gastronomia Brasil