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COMUNA - COMUNIDADE ATIVA PRÉ-VESTIBULAR POPULAR

Arquivo: Março 2008

27/03/2008 GMT 1

crocodiliforme que surgiram há aproximadamente 70 milhões de anos

comunaprevestibularpopular @ 06:35

Agencia Estado - 26/3/2008 19:11
Cientistas apresentam no Rio crocodilo de 62 mi de anos
Fósseis de uma nova espécie de crocodiliforme marinho que viveu durante a época Paleocena, há aproximadamente 62 milhões de anos, foram descobertos na costa de Pernambuco e apresentados hoje no Rio. Segundo a equipe de paleontólogos responsável pelo trabalho, trata-se do registro mais completo do grupo dos dirossaurídeos já encontrado na América do Sul. A mandíbula, o crânio fragmentado, dentes, vértebras e placas ósseas ficarão na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Uma réplica do bicho, de três metros de comprimento, será exposta no Rio a partir de sexta-feira no Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A espécie recebeu o nome Guarini (guerreiro, em tupi) suchus (crocodilo) munizi, homenagem ao paleontólogo Geraldo da Costa Barros Muniz. Ele realizou uma série de pesquisas de fósseis na pedreira de calcário onde ocorreu a descoberta, a mina Poty, ao norte do Recife, que é explorada comercialmente por mineradoras desde a década de 1940.

O estudo foi publicado na revista científica inglesa Proceedings of the Royal Society B. "É difícil conseguir publicar (na revista). As críticas deles são severas, draconianas", disse Alexander Kellner, do Museu Nacional, que participou da apresentação, ao lado de José Antonio Barbosa, da UFPE, e de Maria Somália Sales Viana, da Universidade Federal Vale do Acaraú, no Ceará. Barbosa fazia um trabalho de campo quando encontrou "por acaso" o fóssil do crânio, em 2002. Ele conta que o material "quase virou cimento". As escavações da mineradora foram interrompidas e os paleontólogos acharam as outras partes do crocodiliforme.

"A cauda achatada lateralmente e alta, por causa das vértebras, mais longa, virava uma espécie de remo. Era um predador que atingia alta velocidade", disse Barbosa. Segundo o pesquisador, acredita-se que os dirossaurídeos, que surgiram há aproximadamente 70 milhões de anos, foram extintos há cerca de 50 milhões de anos por tubarões, "que desde o Paleozóico nunca saíram de cena".

24/03/2008 GMT 1

Apostila: História do Espírito Santo II

comunaprevestibularpopular @ 02:20

HISTÓRIA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO
A CAPITANIA DO ESPÍRITO SANTO

A História do Espírito Santo é um domínio de estudos de história do Brasil, focado na evolução do território e da sociedade capixaba que, canonicamente, se estende desde a tomada de posse da Capitania do Espírito Santo pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho, em 1535, até os dias atuais. No entanto, este artigo também contém informações sobre os primeiros habitantes do Espírito Santo, ou seja, o período em que não houve registros escritos sobre as atividades aqui desenvolvidas pelos povos indígenas.
A história capixaba começou em 23 de maio de 1535, quando os colonizadores portugueses, chefiados pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho, desembarcaram na Capitania do Espírito Santo. Nesse mesmo ano, foi fundada a povoação da Vila do Espírito Santo, primeiro núcleo populacional da capitania. Na tarefa de catequese dos índios da região, destacou-se a figura de José de Anchieta, que lá morreu em 1597.
Houve um grande período neste meio tempo ao qual muitos desconhecem, em que o Espírito Santo foi anexado à Bahia, tendo portanto a capital sediada em Salvador.
A proibição da mineração nas Minas Gerais e a presença de tribos hostis no interior contribuíram para que o Espírito Santo se mantivesse por muito tempo como uma capitania essencialmente litorânea. Apenas na segunda metade do século XIX, essa situação modificou-se graças à expansão da lavoura cafeeira. O café, penetrando no extremo sul do estado, proveniente do Rio de Janeiro, garantiu o povoamento do interior.
O plantio do café foi ainda a principal atividade dos imigrantes europeus, especialmente alemães e italianos, que introduziram o regime da pequena propriedade na região serrana. A ocupação do extremo norte ocorreu no início do século XX, graças às primeiras plantações de cacau, estabelecidas por fazendeiros baianos. Mas foi apenas em 1963 que o Espírito Santo adquiriu sua atual configuração geográfica, com a solução da antiga disputa entre o Estado e Minas Gerais, relativa à posse da região da Serra dos Aimorés. Pelo acordo, a região foi dividida entre os dois estados.
Atualmente, o Espírito Santo conta com trunfos valiosos na arrancada para o desenvolvimento econômico: uma privilegiada localização geográfica, riquíssimas reservas de minerais radioativos no litoral, um dos maiores portos de minério do mundo e a segunda maior produção de petróleo do Brasil.

Os primeiros habitantes
No início do século XVI, a região do atual Estado do Espírito Santo era habitada por índios do grupo tupinambá, os temiminós, dispersos por quase todo o território, e do grupo jê, os aimorés e os goitacás. Os aimorés eram índios bravios, que, ao que parece, habitavam a serra que tem seu nome. Os goitacás espalhavam-se pelo sul do Espírito Santo até as atuais cidades de Campos e Cabo Frio, já no Rio de Janeiro.
As primeiras expedições
A primeira expedição a explorar o litoral do Espírito Santo saiu de Portugal em 1501, pois trazia a bordo o navegador Américo Vespúcio. Em 1502, partia outra expedição, Estevão da Gama descobriu a ilha da Trindade, a 1.140 km da costa do Espírito Santo. Durante as três primeiras décadas do século XVI não houve qualquer iniciativa de colonização da região.
A costa do atual estado do Espírito Santo foi reconhecida por navegadores portugueses já em 1501, e desde então foi alvo da ação de contrabandistas de pau-brasil ("Caesalpinia echinata").
O estabelecimento da capitania
Apesar da resistência movida pelos índios, Vasco Fernandes Coutinho desembarcou em uma enseada (atual Prainha - Vila Velha) onde foi erguida uma habitação rudimentar (uma paliçada - leve fortificação) e nas imediações oficialmente fundada a vila do Espírito Santo (primeiro núcleo de Povoamento do ES). Próximo a residência do donatário foi erguido o primeiro engenho - Sítio do Ribeiro.
Foram doadas as seguintes sesmarias:
Ilha do Boi ( inicialmente conhecida como Ilha do Bode) para D. Jorge de Menezes;
Ilha do Frade para Valentin Nunez;
Ilha de Santo Antônio para Duarte Lemos;
Vasco Fernandes Coutinho ausentou-se em várias oportunidades (1540, 1550, 1558), sempre buscando recursos para dar continuidade à empresa colonizadora. O autoritarismo dos sesmeiros e a resistência dos índios desordenou a Capitania.
Em 1551, um ataque indígena à Vila do Espirito Santo destruiu a sede. Por questões de segurança, oficializou-se a transferência da sede do governo para Vila de Nossa Senhora da Vitória, antiga Ilha de Santo Antônio que não aconteceu sem lutas violentas e extermínio dos indígenas. Nesse contexto, a antiga sede, então destruída, recebeu novos colonos e ficou conhecida como Vila Velha. A economia da Capitania girava em torno da cana, mandioca, algodão e algum gado. Os engenhos espalharam-se de Nova Almeida até Barra de Itapemirim, nas poucas terras não-alagadas.
Com o estabelecimento, pela Coroa Portuguesa do sistema de Capitanias Hereditárias para a colonização do Brasil (1534), o seu atual território estava compreendido no lote que se estendia da foz do rio Mucuri à do rio Itapemirim (aproximadamente), doada a Vasco Fernandes Coutinho em 1 de junho de 1534.
O seu donatário, acompanhado de sessenta degredados, desembarcou da nau Glória, numa pequena enseada nas encostas do morro da Penha, a 23 de março de 1535, um domingo de Pentecostes, razão pela qual o donatário resolveu batizar o seu lote com o nome de Capitania do Espírito Santo.
O desembarque, na praia de Piratininga, fez-se penosamente, sob as flechas dos Goitacás, havendo necessidade do troar das duas peças de artilharia da embarcação, para que os indígenas debandassem, permitindo a posse da terra pelo donatário. Ali mesmo decidiu-se erguer a povoação que mais tarde seria conhecida como Vila Velha, principiando-se as primeiras habitações, uma ermida - sob a invocação de São João, em homenagem ao soberano -, e uma fortificação (Fortim do Espírito Santo). Os indígenas denominaram esta primitiva vila do Espírito Santo como "Mboab", ou seja, o "lugar habitado pelos emboabas" (forasteiros).
Distribuídas as sesmarias, a D. Jorge de Menezes o donatário entregou a ilha junto à barra (atual ilha do Boi); a Valentim Nunes coube a atual ilha dos Frades e, a 15 de julho de 1537, doou a Duarte de Lemos a então ilha de Santo Antonio (atual ilha de Vitória), em que se instalara na sua parte alta, fazendo construir, na fazenda, ao lado da residência, uma igreja em honra a Santa Luzia.
Por essa época, os colonizadores sentiam-se mais desafogados do gentio. A falta, porém, de colonos para dar desenvolvimento aos trabalhos iniciados obrigou o donatário a ir à Metrópole.
Com o retorno de Vasco Fernandes Coutinho a Portugal, entretanto, a situação se inverteu, e frente aos ataques indígenas, nova vila foi fundada, em setembro de 1551, na fronteira ilha de Santo Antônio, batizada com o nome de Nossa Senhora da Vitória. A primitiva vila do Espírito Santo passaria, daí em diante, a ser conhecida como Vila Velha.
Em 23 de maio de 1535, o fidalgo português Vasco Fernandes Coutinho, veterano das campanhas da África e da Índia, aportou em terras da capitania, que lhe destinara o rei Dom João III. Como era um domingo do Espírito Santo, chamou de vila do Espírito Santo a povoação que mandou construir nas terras que lhe couberam: cinqüenta léguas de costa, entre os rios Mucuri e Itapemirim, com outro tanto de largo, sertão adentro, a partir do ponto em que terminava, ao norte, o quinhão concedido a Pero de Campos Tourinho, donatário da Capitania de Porto Seguro. A Vila do Espírito Santo é hoje a cidade de Vila Velha. Ainda em 1535, a vila passou à capitania, em 1822 a província e em 1889 a estado.
O combate aos estrangeiros
Belchior Azeredo assumiu as funções de Capitão-mor de 1561 a 1564, com todos os poderes e jurisdições atribuídas anteriormente a Vasco Fernandes Coutinho. Posteriormente, Azeredo participou da expulsão dos invasores franceses da baía de Guanabara, no comando de uma das naus da esquadra de Cristóvão de Barros, sendo recompensado com a doação de uma vasta sesmaria, onde se fixou com seus familiares.
Vítima de ataques esporádicos de ingleses e de franceses, foi atacada pelo corsário inglês Thomas Cavendish em 8 de fevereiro de 1592, ocasião em que foi derrotado com a perda de oitenta homens de sua tripulação.
As invasões holandesas ao Brasil
Ao tempo da primeira das Invasões holandesas do Brasil (1624-1625), quando do ataque neerlandês a Salvador, o donatário do Espírito Santo, Francisco de Aguiar Coutinho repeliu uma investida de oito navios sob o comando de Pieter Pieterszoon Hein, de 10 a 18 de março de 1625, com o apoio de entricheiramentos na vila, artilhados com quatro pedreiros, e dos moradores (OLIVEIRA, 1975:124-127).
Durante a segunda das invasões holandesas (1630-1654), os neerlandeses atacaram novamente a capitania do Espírito Santo, agora com sete navios, sob o comando do Coronel Johan Koin. Deles desembarcam uma força de quatrocentos homens, de 27 de outubro a 13 de novembro de 1640, sendo repelidos em Vitória pelas forças do Capitão-mor João Dias Guedes, a 28 de outubro (BARLÉU, 1974:200; OLIVEIRA, 1975:128-130). Diante dos ataques, o Governo-geral destacou para Vitória quarenta infantes da tropa regular. Um último ataque neerlandês à capitania ainda seria registrado, porém, em 1653.
A administração de Francisco Gil de Araújo
Francisco Gil de Araújo adquiriu a capitania de Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho (1674) por 40.000 cruzados, sendo lhe confirmada a posse por Carta-régia de 18 de Maio de 1675, e nela permanecendo de 1678 a 1682. Durante a sua administração, marcada por um reerguimento da capitania, concluiram-se a construção do Forte de Nossa Senhora do Carmo, reedificou-se o Forte de São João e edificou-se o Forte de São Francisco Xavier de Piratininga, na vila do Espírito Santo (Vila Velha), para proteger a entrada da barra de Vitória.

A capitania e o Ciclo da Mineração
Em 1552, entradas, como a de Manuel Ramalho através do rio Doce, apelidado "rio da interiorização", enfrentavam a resistência dos botocudos e as dificuldades com a Serra dos Aymorés, em busca do sonho da descoberta do Eldorado. Em 1660, correm boatos em Portugal sobre a chegada de supostas "esmeraldas capixabas".
Em 1693, o bandeirante Antônio Rodrigues Arzão descobriu jazidas no interior da capitania do ES. A Câmara Municipal de Vitória cedeu roupas e víveres ao explorador que encontrava-se enfermo.
Francisco Gil de Araújo chegou a organizar 14 expedições, entre 1674 e 1685, na "febre" do ouro. Em 1705, saindo de Taubaté, o bandeirante Pedro Bueno Cacunda descobriu ouro seguindo o rio Manhuaçu, tendo funfado o Arraial de Santana (Serra di Castelo); graças a ação dos jesuitas que viveram em Rerigtiba (hoje município de Anchieta), surgiram outros arraiais na região. Em 1705, o Vice-Rei proibiu a mineração no ES e em 1718, os herdeiros de F. G. de Araújo devolveram a Capitania para Portugal por 40.000$00, tornando o ES uma Capitania Real.
Em 1720, a Coroa Criou a Capitania Real das Minas Gerais.
A mineração acarretou a escassez de alimentos devido à migração desordenada e abandono da região; a militarização da capitania, com a contrução de fortaleza; o fechamento do rio Doce; a proibição da abertura de estradas para o interior; a redução drástica do território original e a diminuição do número de escravos. O ES se tornou uma zona de proteção à região mineradora, impedindo possìveis invasões e o contrabando. Essa região ficou conhecida como "Barreira Verde".
No início do século XVIII, em 1704, a Coroa Portuguesa determinou que todos os que se encontrassem nas lavras de ouro se recolhessem à vila da Vitória, e que se evitassem, a todo o custo, excursões às Minas Gerais. Foi proibida ainda a abertura de estradas ligando a Capitania às Minas, pelas mesmas razões de segurança.
Desse modo, já em 1710, o Governador-geral observava que, em Vitória, faltava todo o tipo de defesa e meios de conservação, atribuindo isso à má administração daqueles que governaram a capitania. Isso se devia, entretanto, ao isolamento decorrente da descoberta das Minas. Em 1715 a Capitania reverteu à Coroa, por compra aos descendentes de Francisco Gil de Araújo, pelo mesmo valor pago por aquele donatário. A escritura dessa compra foi lavrada em 6 de Abril de 1718.
Com o aumento da produção mineral nas Minas Gerais, aumentou a importância da região do Espírito Santo, elevada à categoria de Comarca pela Provisão do Conselho Ultramarino de 15 de Janeiro de 1732.
SOUZA (1885) refere que a Provisão Régia de 10 de abril de 1736, determinava ao Governador-geral na Bahia que, de três em três anos, enviasse à do Espírito Santo um Engenheiro, provido dos materiais necessários a todos os reparos e melhorias nas fortificações dessa Capitania (op. cit., p. 99). Aparentemente isso só ocorreu em 1767-1768, quando José Antônio Caldas para lá foi mandado para erguer a Fortaleza da ilha do Boi e reformar as demais existentes. Esse oficial, em relato dirigido ao Governador, informou que a capitania contava cerca de oito mil pessoas, exportava mantimentos, madeiras, panos de algodão e açúcar para a Bahia, Rio de Janeiro e portos do Sul, sendo o transporte feito em embarcações pertencentes aos comerciantes de Vitória. Esse panorama não se alteraria até ao início do século XIX, quando a capitania obteve autonomia da Capitania da Bahia (1809), iniciando-se o plantio de café por volta de 1815.
Com a proclamação da Independência do Brasil, o seu "status" foi alterado para Província, permanecendo assim até à Proclamação da República Brasileira, quando se transformou no atual estado do Espírito Santo.
Bibliografia
ALVES FILHO, Ivan. História dos Estados Brasileiros. Rio de Janeiro: Revan, 2000. 240p. ISBN 8571061785
BARLÉU, Gaspar. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974. 418 p. il.
BUENO, Eduardo. Capitães do Brasil: a saga dos primeiros colonizadores. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. 288 p. il. ISBN 8573022523
MARQUES, César Augusto. Diccionario Historico, Geographico e Estatistico da Província do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878. 248p.
OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo (2ª ed.). Vitória: Fundação Cultural do Espírito Santo, 1975. 602 p. il.
SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.

Desenvolvimento da província
Em 1808 , com a chegada da família real no Brasil e o declíneo da mineração , começou a ser incentivado o desenvolvimento da província espirito-santense , que se encontrava em grande atraso , comparando com outras regiões do país.
A província deixou de ser barreira verde. No governo de Rubim , foi permitida a navegação no Rio doce, foi feita uma estrada para Vila Rica e foram trazidos os primeiros imigrantes , vindos de Açores. Porém , essas medidas não foram eficazes para elevar a província a uma condição de região desenvolvida.
Já na metade do século XIX , a imigração européia , que vai ocupar regiões de pouca densidade populacional, e o café , que se tornar o produto principal da economia capixaba , iniciaram um processo desenvolvimentista na Espírito Santo.
Influência do café
Outra região que cresceu, favorecida pela economia do café, foi o município de Cachoeiro de Itapemirim, recebendo muitos imigrantes vindo principalmente da Itália para trabalhar nas diversas lavouras existentes na época.
Abolição da Escravatura
O Espírito Santo foi palco de várias rebeliões escravas , sendo a mais famosa a Insurreição de Queimados. A Insurreição de Queimados, ocorrida em meados do século XIX, na Freguesia de São José do Queimado, mais tarde incorporada no Município da Serra, na qual o escravo Chico Prego se destacou como líder do movimento que requeria a liberdade dos cativos que contribuíram na construção da igreja e, por isso, foi condenado e morto na forca, em 1850. Na ocasião , Afonso Cláudio , escreveu um livro criticando a escravidão e a condenação de Chico Prego. Tal fato impulsiona a campanha abolicionista no Espírito Santo. De certo modo , a abolição foi semelhante a ocorrida no Sudeste , com a formação de clubes , jornais , e apoio de cafeeiros descontentes com a monarquia.
Insurreição de Queimado
Queimado é um Distrito da Serra, Espírito Santo, Brasil.
No dia 19 de março de 1849, Queimado foi palco de uma Insurreição de negros escravos.
A antiga freguesia de São José do Queimado, criada em meado do século XIX, está hoje incorporada ao município da Serra, um dos que compõem a área periférica da Grande Vitória. O povoado de Queimado estava situado às margens do rio Santa Maria, por onde trafegavam canoas carregadas de café, farinha de mandioca, cana-de-açúcar, milho, feijão, coisas que os do lugar plantavam pelo método costumeiro: Derrubar, queimar, roçar. Na década de 1840, quando chegou a reunir cerca de 5 mil moradores, parecia que o destino reservava certa importância ao povoado, não obstante a pobreza do lugar. Mas um lento e irremediável processo de decadência econômica e despovoamento, iniciado já na segunda metade do século XIX, frustrou esta possibilidade. Hoje, no local onde se localizava a vila, os únicos testemunhos visíveis do engenho humano são as ruínas da Igreja de São José
As Insurreições ou revoltas de escravos eram comuns nas Vilas e Aldeias do Espírito Santo e do Brasil. A Insurreição do Queimado foi uma revolta que durou até a prisão de Elisiário, um dos líderes do Movimento, cinco dias depois do início da Insurreição, no dia 23 de março. Chico Prego morreu enforcado na Serra Sede. João da Viúva Monteiro, morreu enforcado no Distrito de Queimado. Elisiário fugiu da cadeia, graças a um milagre e formou um quilombo na região depois do Morro do Mestre Álvaro e do Monte do Mouxuara, em Cariacica.
Confira artigo sobre a Revolta do Queimado, do Professor José Roberto Pinto de Góes. No texto várias explicações e detalhes sobre a Revolta do Queimado: "Era escandalosa a desenvoltura dos pretos, a desfilar pelas ruas de Queimado senhores de si. Um grito de “viva o bacalhau!” calou as comemorações e trouxe um pesado silêncio. As últimas casas que se conservavam abertas, foram fechadas. Os que assistiam as estrepolias dos escravos, desapareceram. Alguns escravos, magoados e armados, fizeram menção de atirar no ajuntamento de onde partira o insulto (bacalhau era o outro nome dado ao chicote)."
A segunda derrota dos escravos de São José do Queimado
O Brasil foi e continua sendo muito cruel com os escravos que o povoaram e civilizaram. No passado, eles foram amarrados, arrastados, repartidos com ferro, embarcados, batidos, moídos e espremidos (assim descreveu Antonil o processo de fabricação da cana-de-açúcar). Hoje, tripudia-se da história deles. Pouca gente sabe, mas está por desaparecer, definitivamente, um bem arquitetônico de inestimável valor para a história das rebeliões escravas no Brasil: a igreja de São José do Queimado, nos arredores da cidade de Vitória, capital do Espírito Santo. A mata já cobriu quase tudo. O próprio interior do edifício está tomado pelas plantas. Só restam de pé as duas paredes laterais do templo, precariamente atadas por um cabo de aço. O lugar impressiona. Dá a impressão que a natureza, cheia de razões, decidiu retomar aos homens aqueles domínios e sepultar, em verde esquife, uma história que não se fez possível. Sem pressa, vai a tudo recobrindo, como a dizer que pode, deve e quer.
A comparação entre o destino da igreja de São José e o da mansão onde morou Laurinda Santos Lobo, localizada no charmoso bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro é inevitável. Já em ruínas, a residência de Laurinda foi recentemente recuperada de maneira criativa: paredes no tijolo, destruídas, coexistem com estruturas de metal e de vidro. É muito visitada, virou ponto turístico da cidade, com exposições, shows etc. Uma placa, inaugurada em 1997, diz o seguinte: "Foi uma época áurea do bairro de Santa Teresa. Plantada num elevado de onde se descortina toda a cidade, ali estava a casa, parecida com sua dona, audaciosa combinação de vários estilos. Artistas e intelectuais voltejavam em torno dela. No mirante dançou Isadora Duncan, tocou Villa-Lobos. Suas vozes, seus passos, seus risos ainda ecoam. Laurinda flutua, dança ao luar, ao som de Villa-Lobos, envolta em nuvens, puxando para si os véus de Isadora. Laurinda Santos Lobo, deidade do Rio, nascida em 4 de maio de 1878, saída do mundo em 18 de julho de 1946, nos recebe a todos." Enquanto Laurinda ainda flutua, perene, sobre o Rio de Janeiro (tomara que para sempre), a lembrança da rebelião dos escravos da antiga freguesia de São José do Queimado está prestes a perder o que resta de seu templo.
A igreja teve um papel central na revolta que tomou conta do povoado, em 1849. O estado a que está reduzida, e a incapacidade demonstrada, ao longo dos últimos anos, de conservá-la, é muito sintomático de nossas desventuras como “povo”, nesta América tropical. Porque, a rigor, a preservação do templo, e com ele, a memória da rebelião, só faz sentido numa sociedade na qual o problema da cidadania e dos direitos do populacho esteja, de fato, na ordem do dia. A igreja, ou o que resta dela, é um marco na luta pelos direitos no Brasil, que não começou ontem, com a abolição ou a carteira de trabalho de Getúlio Vargas. Quando as duas últimas paredes da igreja de São José do Queimado vierem ao chão, os escravos do povoado (que as ergueram) terão sido derrotados pela segunda vez (a primeira ocorreu em 1849, quando falhou o plano de usar o templo católico para se alforriarem em massa.). E a presente geração de brasileiros, em sua maior parte descendentes deles, terá de constatar que perdeu mais uma batalha contra os das Casas Grandes & Mansões. Talvez ainda seja tempo de apenas tratar de sobreviver.
É preciso contar a história dessa rebelião, para que se possa ter a dimensão exata do que está prestes a nos ser tomado, na perspectiva da luta pela cidadania.
A antiga freguesia de São José do Queimado, criada em meado do século XIX, está hoje incorporada ao município capixaba de Serra, um dos que compõem a área periférica da grande Vitória. O povoado de Queimado estava situado às margens do rio Santa Maria, por onde trafegavam canoas carregadas de café, farinha de mandioca, cana-de-açúcar, milho, feijão, coisas que os do lugar plantavam pelo método costumeiro: derrubar, queimar, rossar. Na década de 1840, quando chegou a reunir cerca de 5 mil moradores, parecia que o destino reservava certa importância ao povoado, não obstante a pobreza do lugar. Mas um lento e irremediável processo de decadência econômica e despovoamento, iniciado já na segunda metade do século XIX, frustrou esta possibilidade. No local onde se localizava a vila, os únicos testemunhos visíveis do engenho humano são as ruínas da Igreja.
A história da rebelião está documentada, sobretudo, na correspondência trocada por autoridades civis e religiosas e no livro A Insurreição de Queimado, de Afonso Cláudio de Freitas Rosa, escrito em 1884. O processo criminal então aberto está perdido. Embora escrito trinta e cinco anos depois do episódio, o livro é a principal fonte do levante, pois está baseado em relatos de sobreviventes que participaram ativamente da conflagração. Isso o converte em fonte primária dos acontecimentos. Os relatos estão no livro, mas contados pelas palavra de Afonso Cláudio. Um testemunho importante foi fornecido por um velho e alquebrado escravo, possivelmente de nome Carlos, um dos cabeças da revolta. Na metade da década de 1880, ele ainda se conservava fugido, perambulando pela região, com a complacência de seu antigo senhor, o padre e bacharel João Clímaco. Deve ter sido uma conversa estranha, a entretida entre Afonso Cláudio, então com 20 e poucos anos, e o velho escravo errante. Eram destinos muito diferentes que se cruzavam: enquanto Carlos jamais reencontrara o sossego, Afonso Cláudio viria a ser o primeiro presidente do Estado do Espírito Santo, no regime republicano. Por pouco não foi uma conversa de surdos. O escritor confessou que apenas com “demasiado esforço” conseguiu compreender a “exposição truncada” do escravo. Talvez fosse menor a dificuldade se o jovem bacharel tivesse melhor opinião sobre os “pretos”. Ele era sinceramente tocado pelo sofrimento dos escravos, mas os julgava pessoas rústicas e incapazes de uma compreensão “clara e desenvolvida” das coisas.
A história do levante está ligada à pessoa do capuchinho italiano Gregório José Maria de Bene, que desembarcou no Brasil em 1844, designado para a catequese indígena no Espírito Santo. Um ano depois, porém, já estava o frade decidido a levantar uma igreja no povoado de Queimado. Pois cinco mil almas não haviam de permanecer apartadas das palavras de Deus e longe da assistência dos vigários. (Não necessariamente nesta ordem: uma vez nomeado vigário da paróquia, Gregório tratou de intervir até no alinhamento das ruas do povoado). A edificação do templo, em homenagem a São José, não demorou. O esforço foi de todos. Os mais aquinhoados deram algum dinheiro, providenciaram recursos públicos e doaram os sinos. Os menos afortunados de todos, os escravos, deram os domingos e os dias santos, em trabalho. E Deus não paga em dobro a fadiga e a perseverança?
Em 1846, São José do Queimado foi elevado a freguesia. Em 1848, o presidente da província escreveu ao bispo do Rio de Janeiro solicitando a nomeação de Gregório para Vigário Encomendado, por ser esta a vontade do povo do lugar. Acrescentou que o frade ia erigindo, “a custa dos fiéis, e por meio de suas exortações, um majestoso templo de pedra e cal, que tem de ser dedicado ao patrício São José, excitando a admiração de todos por sua grandeza e por se estar fazendo, pode-se dizer, no centro da pobreza. Concluiu profetizando: “Já vi essa igreja e creio que, concluída, será uma das mais importantes da província”. Àquela altura, ninguém podia suspeitar que a igreja logo voltaria ao pó, por haver se convertido no principal cenário da guerra de senhores e escravos.
Gregório não tem se saído bem nos julgamentos dos historiadores. Para Eugênio de Assis, autor de Levante dos Escravos no Distrito de São José do Queimado, o frade, no afã de fazer prosperar a paróquia e construir sua carreira, fez crer aos escravos que eles iam ganhar cartas de alforrias se ajudassem a erguer a igreja de São José. Para Afonso Cláudio, o frade era apenas imprudente e um tanto simplório. A combinação do ardor religioso, convicções abolicionistas e pouco domínio do idioma português o levava a frases veementes, de palavras mal escolhidas, de condenação à escravidão. O Capitão Rodrigues Velho, de quem Afonso Cláudio obteve um bilhete no qual rememorava os acontecimentos, dizia do frei: “o papel que frei Gregório representou na insurreição, não passou de um frade camelo e inconsiderado, que em suas conversações com os negros lembrava a plena liberdade que gozam os povos da Itália e de outros países da Europa, reprovando e maldizendo assim o cativeiro do Brasil, o que muito concorreu para a revolta na mente estúpida dos cativos”. Camelo, além do ruminante, queria dizer homem burro (estúpido como um cativo). Afonso Cláudio achava que o capitão tinha lá a sua razão, que o frade estava mais para camelo do que para trapaceiro.
Mas se o frade era um tonto, quem planejara tão ardiloso plano, de convencer os escravos das redondezas de que, em troca do trabalho na construção do templo, todos obteriam cartas de alforria? Dizia-se que Gregório e a Rainha eram conhecidos, se estimavam, e que esta havia prometido ao pároco a graça de redimir os escravos no dia de São José, pelos muitos serviços prestados à religião. A declaração de liberdade seria lida durante a missa inaugural. Era uma rebelião com data marcada para acontecer: dia 19 de março de 1849, dia da inauguração da igreja, dia do padroeiro São José.
Na opinião de Afonso Cláudio, o arquiteto maior da trama fora um escravo chamado Elisiário, um “preto pernóstico”, daqueles que buscavam a “afeição dos brancos”, mas conservavam o respeito dos demais, que permaneciam rudes e “sem a menor inclinação pelos brancos”. Era coisa tão engenhosa que Afonso Cláudio duvidava se podia ser obra de um preto e, indiretamente, responsabilizou o padre João Clímaco, o dono do escravo Carlos, o suposto informante de Afonso Cláudio. Homem de espírito, palestrante entusiasta, narrador destro, sempre disposto a animar uma conversa, João Clímaco era irmão do dono de Elisiário, e este, amigo de Carlos, costumava freqüentava as senzalas e a cozinha do padre.
Na véspera do dia de São José, a noite, cerca de duzentos escravos reuniram-se nas proximidades do povoado. Dispersaram-se para não despertar temores. Quando o dia amanheceu, instalaram-se na mata próxima ao templo, sob o comando de Chico Prego. Um grupo, liderado por Elisiário, foi procurar Gregório na igreja. As palavras que trocaram, o vento levou. Sabe-se apenas que o sacerdote, amedrontado, e informado que uma multidão de negros esperava na mata, desistiu de celebrar a missa e mandou que cerrassem as portas da igreja. Antes que aquela manhã terminasse, Gregório trairia os escravos três vezes. Em carta enviada ao presidente da província, dias depois, protestou contra “a grande e maliciosa aleive que os negros cativos levantaram-me no Queimado e na cidade de Vitória”, e jurou, e repetiu o juramento, que não havia sido a causa nem aconselhara o motim.
Enquanto Gregório discutia com Elisiário, Chico Prego e os demais escravos resolveram dirigir-se à igreja. Entraram no povoado em trajes pouco usuais, metidos nas melhores roupas (quem sabe alguns calçados), com ares de dotô. Gritos de vivas à liberdade disseminaram o pânico entre a população livre. Gregório, então, foi obrigado por um cidadão a reabrir a igreja, pois não convinha aparentar medo diante dos negros e aumentar-lhes a coragem. Não podia nem devia: tomado pelo temor de cair vítima dos rebeldes, foi esconder-se na sacristia ainda no meio da santa missa. Mas nem assim escapou dos escravos. Na carta ao presidente da província, contou que eles o obrigaram a abrir a porta da sacristia. E jurou que disse claramente que não podia nem devia nem queria dar-lhes carta de alforria alguma. E “quando exigiram de mim em a sua maldade e revolta”, aconselhou a obediência e o retorno às suas casas, além de prometer-lhes o patrocínio na volta.
Os escravos, porém, saíram da sacristia dizendo que Gregório havia rogado aos donos dos escravos as alforrias, em nome da religião, mas implorara em vão. E exibiram um papel no qual os seus senhores deveriam apor as suas assinaturas, de modo a libertá-los. Gregório se encarregaria de o enviar à Rainha. A esta altura, o povoado estava em pé de guerra. Era escandalosa a desenvoltura dos pretos, a desfilar pelas ruas de Queimado senhores de si. Um grito de “viva o bacalhau!” calou as comemorações e trouxe um pesado silêncio. As últimas casas que se conservavam abertas, foram fechadas. Os que assistiam as estrepolias dos escravos, desapareceram. Alguns escravos, magoados e armados, fizeram menção de atirar no ajuntamento de onde partira o insulto (bacalhau era o outro nome do chicote). As portas da igreja tornaram a se fechar. Um “cidadão respeitável” evitou o pior.
Os escravos dirigiram-se às fazendas, em busca das assinaturas, enquanto um mensageiro se pôs a caminho de Vitória para avisar às autoridades da insurreição. A primeira propriedade ocupada foi o Engenho Fundão, de Paulo Coutinho Mascarenhas. Os insurgentes obrigaram-no a firmar cartas de liberdade e confiscaram armas e munições. Ao findar do dia, segundo estimativas oficiais, cerca de trezentos escravos estavam em marcha pelas fazendas.
A tarde, partiu de Vitória para São José do Queimado o chefe de polícia e mais vinte praças, comandados por um oficial. (Milicianos também foram enviados para Cariacica e Itapoca, onde se temia iguais alterações.) Eram poucos para conter tantos rebeldes. O fator decisivo foi a presteza com que a população livre local acorreu à luta. As cartas trocadas entre as autoridades policiais, o presidente da província e ministros são incansáveis em enaltecer a bravura, a coragem e o desprendimento dos habitantes do lugar em dar combate aos negros. A primeira refrega aconteceu no dia 20, próximo ao local denominado Pendi-Yuca, onde os escravos estavam reunidos. A troca de tiros resultou em ferimentos no comandante e no corneteiro. Os escravos não sofreram nenhuma baixa, mas bateram em retirada.
A partir dali, não haveria mais combates propriamente, mas apenas uma caçada, como soem ser as caçadas. Soldados e homens livres, lado a lado, reviraram morros e vales, invadiram propriedades particulares (como aconteceu com a de João Clímaco), vasculharam as senzalas e levaram os pretos que quiseram. Os rebeldes apanhados, antes de conduzidos à cadeia pública, foram entregues aos donos, de modo a satisfazer a ânsia de vingança que o atrevimento atiçara. Foram efetivamente presos e levados a julgamento trinta e seis escravos. O julgamento dos implicados foi célere: de 31 de maio a 2 de junho do mesmo ano de 1849. De nada adiantou o talento oratório de João Clímaco, advogado dos réus, que pediu ao júri a absolvição dos cativos e a condenação de Gregório. O tribunal absolveu seis réus e condenou vinte e cinco outros a açoites, que variaram de trezentos a mil chicotadas. Elisiário, João, Carlos, João Pequeno e Chico Prego foram sentenciados à morte por enforcamento.
Enquanto os réus condenados à pena capital esperavam a resposta do Imperador ao pedido de comutação da pena, os demais iam sendo levados ao açoite no cais da Alfândega, em público espetáculo. (Mas não todos: Manoel, escravo do Engenho Fundão, o primeiro a ser visitado pelos insurgentes, ingeriu grande dose de cal de parede, na prisão, e morreu. O crioulo Sebastião atirou-se ao mar quando era conduzido ao cárcere - o corpo só foi encontrado dias depois.) Mas, mal iniciados, os açoites foram suspensos: o escrivão das execuções criminais não sabia como deviam ser contadas as chibatadas. Os relhos possuíam mais de uma tira e o oficial de justiça não sabia se cada pancada devia ser multiplicada pelo número de tiras que cortava a carne dos supliciados. Juizes trocaram cartas sobre o assunto e até o presidente da província foi consultado. A controvérsia se resolveu segundo o espírito do tempo, embora hoje soe ambígua a solução: o Juiz Municipal, a quem coube a palavra final, mandou que se contasse por cada pancada, sem esclarecer se das tiras ou do relho.
Na madrugada de 7 de dezembro de 1849 cinco presos evadiram-se da cadeia, entre os quais Elisiário, João Pequeno e Carlos. Não arrombaram paredes nem danificaram cadeados. O carcereiro os substituiu na cela por alguns dias, enquanto a fuga era investigada. As diligências resultaram em nada. Nenhum culpado, nenhuma explicação. Entre os escravos, circulou a versão de que um dos fugitivos possuía um amuleto preso ao pescoço, dotado de grandes poderes, capaz de fazer Nossa Senhora da Penha ouvir a prece dos desesperados. A santa teria adormecido soldados e sentinelas. Aqueles para os quais ela olhou, nunca mais um senhor a mão botou, com perdão da rima fácil.
Os escravos João e Chico Prego foram enforcados. O primeiro, em São José do Queimado, no dia 8 de janeiro de 1850; o segundo, em Serra, três dias depois. A coreografia foi a mesma. A lenta procissão pelas ruas dos povoados, o padre e o carrasco à frente, o sinistro badalar da campa, as leituras periódicas da sentença, a subida ao patíbulo erguido de véspera, a corda, a queda e a cavalgada do carrasco sobre os ombros dos rebeldes para bem acabar de fazer a morte. Depois, no chão, o trabalho de esmigalhar o crânio, as pernas e os braços dos mortos. O carrasco, mandado vir do Rio de Janeiro especialmente para a macabra cerimônia, recebeu em troca uma muda nova de roupas.
Gregório foi ouvido pela polícia no dia 10 de abril. A cópia do depoimento está perdida. Não deve ter dito coisa muito diferente do que escreveu na carta ao presidente da província, no calor dos acontecimentos. Pouco depois, o subdelegado de polícia acusou-o de tentar vender as telhas da igreja. O presidente da província escreveu que ele se entregava ao vício da embriaguez. Em setembro, a bem da “tranqüilidade pública”, foi embarcado para a Corte, no vapor Guapiaçu. Antes de partir, Gregório invocou aos de Queimado o castigo dos céus: vaticinou que o lugar cobrir-se-ia de luto e anunciou que a igreja de São José seria consumida pelas chamas. Errou apenas quanto às chamas.

O autor José Roberto Pinto de Góes é Doutor em História pela UFF, Professor da UERJ, autor, com Manolo Florentino, de “A Paz das Senzalas”, Civilização Brasileira.
Fonte: Internet: http://www.no.com.br/revista

HERÓIS DA LIBERDADE
São participantes da Insurreição de Queimado, os seguintes Negros, verdadeiros heróis em busca de liberdade:
A INTELIGÊNCIA DE ELISIÁRIO
Elisiário Rangel foi o Chefe do Motim, um dos líderes da Insurreição. Escravo de Faustino Antônio Alvarenga Rangel. Destacava-se pela inteligência, já que Faustino Rangel lhe proporcionara a oportunidade de ler e aprender ofício de Carpinteiro. Estava sempre reunido com o Frei Gregório Maria Bene e dele recebia ensinamentos religiosos e ideais de liberdade, já que o Frei, Italiano de nascimento, era contra a escravidão.
Foi preso. Na cadeia liderava os negros, para que não se abatessem e rezassem sempre. Misteriosamente fugiu da cadeia de Vitória. Tornou-se uma lenda, pois, mesmo perseguido pelas autoridades policiais, não foi mais encontrado, passando a ser um herói entre os negros que almejavam a liberdade. A sua fuga foi cantada em prosa e versos como um "milagre de Nossa Senhora da Penha", já que não houve vestígios de arrombamento na porta da prisão e o carcereiro, ao ser preso após a fuga, admitira que fora tomado de "um sono profundo."
Segundo a escritora Maria Stella de Novaes, Elisiário "morreu isolado nas matas" e, segundo outros historiadores:
"Morreu feliz nas graças da Virgem Nossa Senhora da Penha, com um agrupamento de negros fugitivos, nas matas do Mestre Álvaro e do Mouchuara."
Pesquisas revelam que Elisiário e um grupo de negros fugitivos seguiram para uma região após o Morro do Mouchuara, em Cariacica, formando o povoado denominado de Piranema.
A FORÇA DE CHICO PREGO
1- Francisco de São José, o Chico Prego. Escravo de Ana Maria de São José. Era um dos Chefe da Insurreição.
O Chico vem de Francisco e a palavra Prego tinha sentido pejorativo pois se referia a uma espécie de macaco da região do Amazonas.
Enquanto Elisiário destacava-se pela inteligência, Chico Prego, negro alto e forte, liderava pelo seu espírito de luta, por sua coragem. Foi preso e condenado à morte na forca.
Preso, Chico Prego foi levado para a Serra, viajando a pé, as seis léguas. Na Serra assistiu a construção do patíbulo. Na data e hora marcada, percorreu as principais ruas da Serra ao som de um tambor surdo e sinos da Igreja. O cortejo parava de momentos em momentos para que fosse lida a sentença. Defronte à forca, recebe a última unção religiosa. De mãos atadas sobe as escadas do patíbulo. O carrasco Ananias passa-lhe a corda em redor do pescoço e impele o negro para o espaço, fazendo pressão sobre os ombros para maior pressão da corda. Cinco minutos depois a corda é cortada. O corpo cai no chão e o negro ainda agoniza. O carrasco Ananias com um pedaço de pau, esmaga-lhe o crânio, os braços e as pernas.
O relato com detalhes da morte de Chico Prego, Herói da Liberdade na Serra, encontra-se na obra "A Insurreição de 1849 na Província do Espírito Santo", de Wilson Lopes de Resende, do Colégio Estadual "Muniz Freire", tese aprovada no IV Congresso de História Nacional. O livro é das Edições Itabira, Cachoeiro de Itapemirim, 1949, página 15 e 16.
Chico Prego foi executado na sede da Vila de Nossa Senhora da Conceição da Serra, no dia 11 de janeiro de 1850, "nas proximidades da Igreja, para servir de exemplo."
Sobre o local exato onde Chico Prego foi enforcado na Sede do Município, historiadores informam ter sido a pracinha, onde hoje, em 1997, está construída a Praça Ponto de Encontro.
PROJETO CHICO PREGO
Em recente reunião da Câmara Municipal da Serra realizada em 1996, foi aprovado o Projeto Cultural "Chico Prego".
O Projeto de Lei recebeu o N.º 028/95 e foi apresentado pela primeira vez na Câmara Municipal da Serra, por seu autor, Vereador Edvaldo C. Dias da Mata, no dia 11 de maio de 1995. O Projeto consiste na concessão de incentivo fiscal para a realização de Projetos Culturais nas áreas de Música, Dança, Teatro, Literatura, Cinema, Vídeo, Artes Plásticas, Folclore, Ciências Sociais, Museus e Associações Culturais, etc., sendo beneficiada pessoa física ou jurídica domiciliada no Município, no mínimo há dois anos. Justificando o nome de Chico Prego dado ao Projeto, o então Vereador Edvaldo relata: "... Daí nossa homenagem a "Chico Prego" - escravo refugiado do Quilombo de Queimado que na luta pela liberdade, desafiou a Igreja e os patrões quando exigiu o cumprimento da proposta de que ao final da construção da Igreja de São José do Queimado receberia a alforria - a proposta não foi cumprida, o que ocasionou uma rebelião iniciada na Serra e que culminou na prisão e morte de vários líderes, entre eles, "Chico Prego", que foi enforcado onde hoje está construída a Praça Ponto de Encontro, na sede do Município. Por esse exemplo de coragem e de luta, bem como pelo resgate da memória cultural e histórica do Município é que nosso projeto reconhece os escravos e especialmente "Chico Prego" como precursores da Cultura Serrana."
JOÃO DA VIÚVA
João Monteiro, o João da Viúva. Escravo de Maria da Penha de Jesus, a viúva Monteiro. Foi também um dos líderes da Insurreição e condenado à pena de morte.
Consta que no Julgamento disse ser inocente, e que o culpado era o frei Gregório de Bene, que prometera liderar o movimento de liberdade e no momento mais importante, escondera-se dos negros.

Suas declarações são relatadas por carta pelo cônego Francisco Antunes Siqueira, advogado nos autos do processo, ao Presidente da Província, Felipe José Pereira Leal, em 10 de janeiro de 1850.
O escravo João da Viúva foi executado em Queimado, na forca, às 6 horas da manhã, do dia 8 de janeiro de 1850, três dias antes da execução de Chico Prego na sede da Vila da Serra.
OUTROS REVOLTOSOS
Carlos, escravo do padre Dr. João Clímaco de Alvarenga Rangel. Foi preso e condenado a morte. Fugiu da prisão, junto com Elisiário, não sendo mais recapturado.
Cândido, escravo do Capitão José Monteiro Rodrigues Velho. Preso.
João, escravo do Capitão José Monteiro Rodrigues Velho. Preso e açoitado.
Segundo o pesquisador Djailson Martins Rocha, José Monteiro Rodrigues Velho era conhecido como Capitão Velho e foi eleito Juiz de Paz na Serra em 1º de fevereiro de 1849.
Cipriano, escravo de Joaquim José dos Santos. Foi executado, de "forma selvagem" na hora da prisão.
Venceslau. Negro que veio do sertão de Mangaraí. Preso.
Benedito, escravo de José Roriz de Freitas. Preso.
Joaquim, escravo de José Roriz de Freitas. Preso.
José Roriz de Freitas era parente de Francisco Roriz, que foi vítima de um disparo de 17 caroços de chumbo, desferido por um dos Negros revoltosos, comprovando-se a tese de que houve realmente uma Insurreição, uma revolta com tiros desferidos também pelos negros, havendo excessos de ambas as partes. Os negros alegando que se defendiam e as Forças Policiais legalistas alegando estarem cumprindo um dever cívico.
Sebastião, escravo de Faustino Antônio de Alvarenga. Foi preso, e seu corpo misteriosamente apareceu boiando nos fundos da casa de Domingos José de Freitas, em Vitória.
Segundo as autoridades o escravo fugiu, lançando-se ao mar e morreu afogado.
João, o pequeno. escravo de Rangel e Silva. Foi um dos líderes da Insurreição e por isto condenado à forca.

Com Elisiário e Carlos, escravo de João Clímaco, conseguiu fugir da prisão, não constando ter sido mais encontrado.
Consta que Elisiário, Carlos e João, o pequeno formaram com outros escravos fugitivos, um núcleo de Negros que conseguia driblar as incursões dos batedores do mato que caçavam negros fugitivos. Invocando sempre a proteção divina de Nossa Senhora da Penha tais negros nunca eram localizados.
João Francisco, velho escravo do padre João Clímaco. Com a Insurreição resolvera sair andando sem destino "sonhando com a liberdade." Não estava entre os revoltosos. Foi morto ao ser encontrado por Policiais, no rio (Córrego) Aroaba, comprovando-se a tese de que os Policiais na perseguição aos revoltosos, começaram a atirar em todos os negros que surgissem, tivessem eles na Insurreição ou não.
Eduardo Pinto de Vasconcelos. Escravo que recebera nome de família do seu Senhor. Foi condenado às Galés Perpétuas com trabalhos forçados, já que lhe fora atribuída, sem provas, a autoria dos tiros que atingiram alguns Policiais. Conseguiu fugir da prisão com Elisiário, João, o pequeno e Carlos. Não consta ter sido recapturado.
Manoel Matos. Escravo acusado, de disparar e ferir o Comandante Varela, no lugar conhecido por Ladeira de João dos Santos. Foi condenado às Gales Perpétuas com trabalho forçado. Conseguiu fugir da prisão com Elisiário, João, Carlos e Eduardo. Não consta ter sido recapturado.
O pesquisador Fábio Xavier, de Arapoti, Paraná, informa que um dos proprietários de escravos no Queimado era José Rodrigues Lima, que tinha o apelido de Cajuza.
EXPULSÃO DO PADRE
O advogado dos escravos revoltosos foi o padre João Clímaco de Alvarenga Rangel, que infelizmente nada pôde fazer para inocentar os escravos. O padre Clímaco, que possuía propriedade na Serra, teve alguns de seus escravos participando da rebelião, mesmo assim julgou justo defendê-los.
O frei Gregório Maria de Bene foi considerado o grande responsável pela Insurreição ocorrida, e, em documento datado de 26 de setembro de 1849, o Presidente da Província, Felipe José Pereira Leal, escreve que Frei Gregório é: "O único capaz de receber a imputação do crime. (...) Amanhã regressam no vapor Guapiaçu o Frei Gregório Maria Bene e Frei Ubaldo de Civitella de Trento."

JURAMENTO DO FREI GREGÓRIO
O Jornal “Correio da Victória”, publicado em Vitória em 1849 publica o juramento do “Padre Frei Gregório José Maria de Bene, no dia 25 de março de 1849, diante de Jesus Sacramentado depois da elevação da Sagrada hóstia”:
“Eu, Frei Gregório, indigníssimo ministro da cruz juro diante deste verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e clamo ele em testemunha de minha inocência no grande e malicioso aleive que os negros cativos levantaram-me no Queimado e na cidade de Victória diante das autoridades. Juro, repito de novo, que não fui causa e nem aconselhei a eles o motim, que fizeram no dia de São José, 19 do corrente.”
O sacristão da Igreja do Queimado no dia da Insurreição era José Pinto Lima.
ORIGEM DO FREI GREGÓRIO
Na carta informa que a presença do frei Gregório, tinha sido nociva no Espírito Santo. Após a Insurreição, outras queixas surgiram contra o padre, levando o Presidente da Província a "mandá-lo embora."
Os ideais de liberdade pregados pelo frei não foram bem recebidos pelos exploradores da mão de obra escrava, que aproveitaram para reunir todas queixas possíveis contra o mesmo, com a finalidade de "expulsá-lo do Espírito Santo."
Frei Gregório acabou indo para a região do Amazonas, onde de 1850 a 1854, evangelizou em vários núcleos urbanos e Vilas.
Em 1854 deixou os serviços missionários e passou a morar em Manaus, conforme o historiador Artur César Ferreira Reis em pesquisa para o escritor José Teixeira de Oliveira.
Pela Internet e através de e-mail (Correio eletrônico), o Escritor Alessandro Dell’ Aira assim relata:
“Sou italiano e Diretor de Escola e tenho 65 anos. Parabéns pelo seu livro sobre a “História da Serra”, cuja versão li na Internet. Nasci em Palermo e vivo na cidade de Trento. Não sei de onde era o padre Gregório. Do se apelido “Bene” não consigo localizar a procedência geográfica, de qualquer forma a hipótese inicial é que fosse ele também, como o Padre Ubaldo, natural de Civitella del Trento, pequena cidade do centro da Itália. (...) Fico convencido de que a vossa festa com a participação das bandas de Congo é muito mais antiga do que se pensa, pois encontrei informações destas festas feitas por africanos em Coimbra, Portugal, em 1625, na ocasião das festas públicas (duas semanas) para a canonização da rainha Santa Isabel, mulher do rei Dom Dinis.”

Na Internet, o escritor Alessandro Dell’Aira apresenta um estudo sobre “O Santo Preto e o Rosário” e outras informações sobre São Benedito, nave Palermo e Bandas de Congo: http://arsenale.freeweb.supereva.it/magaz.htm
Em livro publicado na Itália, em dezembro de 1999, com o título, “La rotta di San Benedetto il Moro, da San Fratello a Bahia”, edição Magazzini di Arsenale, o Escritor Alessandro Dell’Aira, com base no livro “História da Serra”, versão disponível na Internet, divulga a Insurreição do Queimado e Festa de São Benedito da Serra, no Espírito Santo, nas páginas 44 a 50.
RIQUEZAS CULTURAIS
O Jornal "Correio Popular" da cidade de Cariacica - ES, de 29 de março a 4 de abril de 1991, na página 7, publica a seguinte matéria da Prefeitura Municipal da Serra:
"SERRA - Raízes e Riquezas Culturais - QUEIMADOS.
A Insurreição de Queimados foi uma rebelião escrava ocorrida em São José de Queimados, em 1894.
Frei Gregório de Bene, Italiano, era encarregado da instrução da população local. Em seus sermões, condenava a escravidão e o tratamento desumano recebido pelos escravos. Entre suas missões, havia a construção de uma Igreja na região, só que lhe faltavam recursos.
Assumiu, junto aos escravos, os compromissos de libertá-los das mãos de seus senhores no dia da inauguração da Igreja, mas, para inaugurá-la, precisava da ajuda dos escravos. Os negros trabalharam em horas de folga e durante a madrugada.
Na inauguração, porém, a promessa não foi cumprida, causando a revolta dos escravos. Os rebeldes se refugiaram no mato, sendo alguns capturados e outros desaparecidos, supostamente mortos de fome. Era o fim da Insurreição de Queimados. Ajude preservar nossa história."
O texto apresenta os seguintes erros:
a) O ano está errado. Não é 1894. O ano é 1849.
b) A palavra não é QUEIMADOS e sim QUEIMADO sem a letra "S". O mesmo texto errado foi publicado em outros jornais.

ESCRAVOS DA LAMPADOSA
O Guia de Informações Turísticas publicado em 1983, cujo título é "Venha Conhecer as belezas entre as Montanhas e o mar - Serra - Espírito Santo - BR", na parte relativa aos "Atrativos Culturais", diz o seguinte:
"Igreja dos Escravos da Lampadosa - Ruínas localizadas no distrito de Queimados. Região onde viveram os escravos vindos da África. Palco de acontecimentos dramáticos em março de 1849 - A Insurreição de Queimados.
Recomenda-se a visitação, por ter sido monumento construído com o emprego de mão-de-obra escrava e por se tratar de ruínas de um templo construído após os primeiros anos da Colonização do Solo Espirito-Santense."
No texto destaca-se:
a) Escravos da Lampadosa - Esta expressão refere-se a Igreja construída com trabalho escravo.
b) A palavra Queimado está erradamente escrita com a letra "S" no final.
c) O Templo não foi construído nos primeiros anos da Colonização do Solo Espirito-Santense e sim em 1849, ou seja há 314 anos após a colonização do Solo Espírito-Santense, que foi a 23 de maio de 1535.

Fonte: “A REVOLTA, INSURREIÇÃO DO QUEIMADO” - Negros em busca de liberdade. Texto do Livro História da Serra, de Clério José Borges

O Forte de São Francisco Xavier de Piratininga
O Forte de São Francisco Xavier de Piratininga, também conhecido como Forte de São Francisco Xavier da Barra ou simplesmente como Forte de Piratininga, localiza-se na enseada de Inhoã, cidade de Vila Velha, próximo a Vitória, no estado do Espírito Santo, no Brasil.
Estrategicamente erguido na base do morro da Penha, tinha a missão de defesa da barra sul da baía de Vila Velha, no litoral da antiga Capitania do Espírito Santo
Acredita-se que foi junto ao morro da Penha que o donatário da Capitania do Espírito Santo, Vasco Fernandes Coutinho, teria construído uma pequena fortificação para a defesa de suas gentes, desde 1535.
A fortaleza da barra
Por volta de 1674 ou 1675, o baiano Francisco Gil de Araújo adquiriu a Capitania do Espírito Santo a Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, por 40 mil cruzados (OLIVEIRA, 1975:157). Durante a sua administração (1678-1682), entre as melhorias que promoveu no tocante à defesa, fez iniciar as obras desta fortificação (op. cit., p. 160), cujas obras prosseguiam em 1702 (op. cit., p. 175) e ainda se encontravam inacabadas em 1705 (op. cit, p. 176). Estava artilhado com dez peças (BARRETTO, 1958:190) de diversos calibres. A direção das obras ficou a cargo do Capitão-mor Francisco Ribeiro que, em 1703, deixou o Forte adiantado. Em 1705, entretanto, ainda em obras, teria sofrido investidas de corsários ingleses e holandeses.
SOUZA (1885) nomeia esta estrutura como Fortaleza de São Francisco Xavier de Piratininga, também conhecida como Fortaleza da Barra, dando-a como construída em 1702, por determinação do Governador Geral D. Rodrigo da Costa (1702-1705) (op. cit., p. 99).
O Vice-rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brasil, D. Vasco Fernandes César de Meneses (1720-1735), comissionou o Engenheiro Nicolau de Abreu Carvalho para proceder aos reparos necessários às fortificações da baía do Espírito Santo, entre as quais esta (OLIVEIRA, 1975:188). As obras teriam tido lugar a partir de 1726, quando teria recebido planta no formato circular, artilhada com quinze peças.
Em 1767 passou por novas reformas. A planta dessa data (IHGB, Rio de Janeiro), apresenta estrutura no formato circular, com quinze peças em canhoneiras (SOUZA, 1885:99; GARRIDO, 1940:101). Sobre o seu terrapleno erguia-se a Casa de Comando, edifício assobradado de dois pavimentos. O acesso ao forte era feito através de uma rampa no exterior.
O Mapa das Fortificações do Império de 1857, classificou-a como de 3ª Classe. Cedida ao Ministério da Marinha para servir como Armazém (SOUZA, 1885:99) em 2 de junho de 1862, posteriormente foi melhorada, tendo abrigado a primeira Escola de Aprendizes-Marinheiros do Espírito Santo, tendo como seu primeiro comandante o Capitão-tenente José Lopes de Sá. Com a extinção deste estabelecimento em 1866.
Do século XX aos nossos dias
À época da República Velha, pelo Decreto-Legislativo n° 1.654, de 13 de junho de 1907, as instalações do antigo forte foram ampliadas para a instalação da nova Escola de Aprendizes de Marinheiros do Espírito Santo, inaugurada a 1 de abril de 1909, também de efêmera duração, de vez que foi extinta em 1913.
De volta para a responsabilidade do Ministério da Guerra em 10 de novembro de 1919, este lhe anexou um moderno aquartelamento, onde sediou o 3º Batalhão de Caçadores do Exército brasileiro (GARRIDO, 1940:101; BARRETTO, 1958:191).
Atualmente o antigo forte integra as dependências do 38º Batalhão de Infantaria do Exército ("Batalhão Tibúrcio"), carinhosamente apelidado de a unidade mais naval do Exército brasileiro. As visitas devem ser marcadas com antecedência, com o setor de Comunicação Social.
Características
Forte de Piratininga, Vila Velha (ES), Brasil: vista diurna.A recordação da passagem do forte pelas mãos da Marinha do Brasil encontra-se fixada na balaustrada composta de âncoras, em uma escada na parte interna do forte e pelo mastro de marinha.
Bibliografia
BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368 p.
GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
MARQUES, César Augusto. Diccionario Historico, Geographico e Estatistico da Província do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878. 248p.
OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo (2ª ed.). Vitória: Fundação Cultural do Espírito Santo, 1975. 602 p. il.
SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.

O Fortim do Espírito Santo
À semelhança das demais vilas fundadas nos primeiros anos da colonização pelos capitães donatários (São Vicente, na Capitania de São Vicente; Vila Velha (ou do Pereira), na Capitania da Bahia; Olinda, na Capitania de Pernambuco; Nazaré, na Capitania do Maranhão), a Vila Velha da Capitania do Espírito Santo também foi fortificada:
"Espírito Santo - vulgarmente Vila Velha. Os selvagens chamavam este estabelecimento de Mboab, que significava aldeia de gente calçada, ou simplesmente calçados. Fundada em 1535 por Vasco Fernandes Coutinho em sítio raso, junto ao monte de Nossa Senhora, foi a antiga capital da Província: teve uma fortaleza edificada pelo mesmo Coutinho, para se defender dos aymorés, que continuaram a atacar aquela povoação até 1558, em que foram derrotados por Fernando de Sá." (MARQUES, 1878:__)
Esta estrutura encontra-se referida por Jean de Léry ("Histoire d'un voyage en terre de Brésil", 1578), em início de 1557, a caminho da França Antártica:
"Costeando a terra na direção que tinhamos em mira [Sul], ao fim de nove ou dez léguas apenas deparamos com um fortim português denominado Espírito Santo (para os selvagens Moab). O forte, reconhecendo-nos, bem como à caravela aprisionada que trazíamos mandou-nos três tiros de canhão aos quais respondemos com juros. Como porém estavamos uns e outros fora do alcance da artilharia não houve danos de parte a parte." (LÉRY, 1972:45-46)
Existem referências posteriores a uma Fortaleza do Espírito Santo, atribuída à traça do Engenheiro-mor e dirigente das obras de fortificação do Brasil, Francisco de Frias da Mesquita (1603-1634), a partir de 1614.

Bibliografia
BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368p.
GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
MARQUES, César Augusto. Diccionario Historico, Geographico e Estatistico da Província do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1878. 248p.
OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo (2ª ed.). Vitória: Fundação Cultural do Espírito Santo, 1975. 602p. il.
SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.

Século XX
Após a proclamação da República , em 1889 , O Espírito Santo faz sua primeira constituição estadual. O primeiro presidente de Estado eleito foi Moniz Freire. Ele investiu na rede ferroviária , na infra-estrutura do Porto de Vitória. Porém , com a desvalorização do café , o recurso se tornaram escassos e até 1908 ,o estado viveu um período de estagnação.
Jerônimo Monteiro, eleito em 1908 , iniciou um processo de modernização , levando luz elétrica a Cachoeiro de Itapemirim e a Vitória. Também foi construído o primeiro complexo industrial do estado , sediado em Cachoeiro , com indústria de cimento , oléo e açucar. Mas , tantos investimentos na modernização do Espírito Santo , gerou dívidas externas altas , que prejudicou os governos posteriores.
Florentino Avidos foi eleito em 1924 ,e seu governo foi marcado pelas construções de pontes. A ponte de Colatina acelerou a ocupação populacional do Norte do Estado. Em Vitória , foi feita a "primeira ponte" , hoje conhecida como ponte Florentino Avidos , que liga a capital a Vila Velha.
Em 1930 , Aristeu Borges , então presidente de Estado , apoiou a candidatura de Júlio Prestes e ,por isso, foi deposto com a revolução de 1930. Getúlio Vargas nomeia Punaro Bley como interventor no Estado. Bley ficou no poder entre 1930-1943. Investiu na saúde , criando hospitais e leprosários. Sanou as finanças do Estado , em situação ruim , depois dos governo republicanos. Focalizou a agricultura como a principal produção capixaba.
Nesse período ,a AIB cresceu no estado ,dado seu caráter fascista , que encontrava apoio nos imigrantes italianos e alemães. Porém , com a eclosão da Segunda Guerra Mundial , esse grupos foram perseguidos. Medidas como a proibição de se falar italiano e alemão demonstram isso.
Jones Santos Neves assumiu o governo entre 1943 e 1945. Ele foi o articulador político, no estado, do processo de transição para a democracia. Neste mandato, ele executou os planos de obras e equipamento e fomento de produção. Esses planos visava saneamento, aumento na produção, melhorias no transporte, e incentivo a industrialização. Ofereceu vantagens especiais para quem instalasse novas industrias que aproveitasse a matéria prima existente no estado.
Carlos Linderberg venceu as eleições e assumiu o 1º mandato democrático pós Estado Novo (1947-1950). O seu governo foi caracterizado pelo o apoio pela agricultura .Continuou o processo de expansão para o norte , entregando as terras devolutas (pertencente ao governo) a novos fazendeiros. Seu empenho em possibilitar o aparecimento das industrias foi tímido , apesar de seu governo ser marcado pela construções de hidrelétricas. Na educação , fundou a faculdade de medicina , federalizou a de direito e reabriu a de odontologia.
Jones Santos Neves, volta ao governo do estado, agora eleito pelo o povo. A sua meta é industrialização do estado , por meio de um planejamento prévio. O governo passou a intervir diretamente na economia, a fim de criar condições de infra-estruturas que proporcionasse o arranque industrial. O plano de valorização deu prioridade a quatro setores: Porto de Vitória, energia elétrica, malha rodoviária e fomento de produção. O porto de Vitória foi aparelhado para reparo e construção de barcos. Foi feita uma dragagem da baía, para possibilitar a entrada de embarcações com maior capacidade de carga. Ainda foram feitas construções no cais de carvão e instalação de aparelhagem moderna. Na questão de energia elétrica, a construção de inúmeras hidrelétricas (Suíça, Rio Bonito). Já na malha rodoviária, seus feitos são a ampliação e asfaltamento das rodovias Vitória – Colatina, Cachoeiro – Alegre e a pavimentação da rodovia Vitória – Cachoeiro.
Na educação , é criada a UFES e a Escola Politécnica com o objetivo de preparar e qualificar a mão-de-obra do estado. Também criou o IBES (Instituto do Bem-Estar Social), um conjunto habitacional com verbas estaduais, que visava a criação de residências populares para operários .
Francisco Larceda, Chiquinho, põe fim na hegemonia do PSD no estado. Eleito pela Coligação Democrática; Chiquinho era populista. O seu governo era voltado para a área rural. O incentivo a agricultura, o fortalecimento da agroindústria do leite e estações de tratamento de água foram seus principais feitos. Porém Chiquinho enfrenta um grave problema. O café capixaba é acusado de conter pragas que gera a segunda crise cafeeira . O café é erradicado, e como conseqüencia várias famílias se vêem obrigadas a se mudarem para a cidade, provocando ,um êxodo rural.
Carlos Linderberg assume novamente o governo do estado (1959-1962). Importantes fatos ocorrem em seu governo. A transferencia da Vale do Rio Doce, a construção do Porto de Tubarão, a federalização da UFES. Ele também levou luz elétrica para cidades do interior.
Larceda vence novamente as eleições, com a promessa de erradicar o analfabetismo, o seu segundo governo foi marcado por ser interrompido pela ditadura militar. Inaugurou o Porto de Tubarão, há uma tentativa de industrialização.
Os Grandes Projetos industriais
No final da década de 1960, começara a ser viabilizada a instalação de projetos industriais no Espírito Santo, principalmente nos setores siderúrgico e paraquímico. Esses setores receberam especial destaque nas prioridades do Plano Nacional de Desenvolvimento - I PND - que visava, dentre outras coisas, tirar proveito econômico do espaço brasileiro, associado à disponibilidade de recursos humanos, com aplicação de recursos de capital já assegurados às novas regiões. A estratégia desenvolvimentista também abrangia o Plano de Integração Nacional, com implicações demográficas e com projetos estratégicos que priorizavam regiões menos desenvolvidas e periféricas. A política do Governo Estadual de divulgação das vantagens locais do Espírito Santo juntamente com os PNs abriram possibilidades de implementar os Grandes Projetos Industriais no Estado. A cidade de Vitória não possuía infra-estrutura para receber o grande fluxo migratório que, com o advento do desemprego no campo, se deslocou em sua direção durante e após a implementação das indústrias que fazem parte dos Grandes Projetos Industriais. A instalação dessa população no pequeno espaço físico da cidade gerou a expansão de favelas e a ocupação do manguezal na área oposta ao Oceano. Por outro lado, a cidade recebeu aterramentos que redefiniram suas fronteiras, aumentando o seu tamanho, o que ocasionou uma mudança radical na fisionomia urbana da capital capixaba. Ocorreram a explosão imobiliária, a pavimentação de vias, criação de praças e logradouros, além de o comércio do centro da cidade ser deslocado para a região norte da cidade, onde novos bairros foram criados.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Capitania_do_Esp%C3%ADrito_Santo
Revisão e adaptação: Emerson Sbardelotti
prof.emerson.comuna@hotmail.com

O CAPIXABA E O CANELA VERDE
Jair Malisek Santos
Era dia de grande festa na cidade. Dia 23 de maio, data histórica da chegada do donatário Vasco Fernandes Coutinho à Capitania do Espírito Santo.
Manhã de sol cristalino e, à sombra da alameda de palmeiras imperiais na praça da Bandeira, bem adiante da Igrejinha do Rosário, os moradores de Vila Velha se comprimiam em volta do palanque embandeirado para ouvir os discursos e assistir ao desfile dos militares e colegiais que participavam do ato cívico, com a presença das mais significativas autoridades e, ao final das comemorações, no verdejante cenário do Morro do Convento, transcorria animada conversa entre próceres à sombra das frondosas árvores que formavam pequeno bosque que a imprensa de Vitória apelidou de "morrinho". Ali, em novo cenário era servida uma variedade de guloseimas da terra tais como, muchás, bolinhos de arroz, bolo de milho, tapiocas, café, caldo de cana, água de coco e refrescos de frutas da época; iguarias que estavam expostas sobre rústicas mesas montadas à sombra das árvores seculares. Pequenos grupos de moradores da cidade davam boas vindas aos visitantes com alegria e os convidavam para o repasto.
Por mera curiosidade, um dos forasteiros e seu amigo demonstraram vivo interesse em dialogar com alguém do lugar, desejo esse que os levou a se aproximar do pequeno grupo que estava adiante e...
— Com licença, rapazes, queiram desculpar-nos. Eu e meu amigo somos jornalistas acompanhantes dos membros da corte e aqui viemos para participar da solenidade que festeja o nascimento desta Província, e estávamos dizendo que ainda não tínhamos visto um lugar tão especial, de natureza francamente sedutora que está contribuindo demais para aumentar a nossa curiosidade, pois pouco sabemos a respeito desta região. Permitam-nos dizer que gostaríamos de conversar um pouco com os senhores que imaginamos serem daqui.
Do pequeno grupo, um jovem se destaca e diz:
— Com grande alegria nos colocamos às suas ordens, senhores.
— Aproxima-se dos visitantes, tira o chapéu e lhes estende a mão.
— Diga-nos, meu jovem, são os senhores naturais daqui?
— Sim, senhor, diz aquele que se destacou. Somos capixabas nascidos nesta vila onde começou o Estado do Espírito Santo.[ 1 ] Foi justamente ali, na Prainha, que ancorou a caravela Glória de senhor Vasco Fernandes Coutinho, no ano de 1535. Foi aqui, neste pedacinho do Espírito Santo, que nascemos e nos criamos sem nunca sair. Por isso somos capixabas, canelas verdes e bem brasileiros.
— Ora, pois, meus caros jovens, vocês estão dizendo que são capixabas. Mas, antes de chegarmos aqui, disseram-nos que hoje estaríamos visitando a cidade dos canelas verdes! Poderiam explicar-nos a razão desses dois adjetivos?
— Capixaba, explica o primeiro deles, é uma palavra de origem tupi cujo significado é, terra preparada para plantação, sítio, ou roça. É coisa que sempre existiu na nossa província desde a chegada dos portugueses, quando fizeram os primeiros cultivos de subsistência e é assim, até hoje, com as roças de mandioca, de milho, de cana, de bananas etc. E nós, somos descendentes dos primeiros colonizadores que aqui chegaram.
— Mas nenhum de vocês parece ser de origem latina como eram os primeiros portugueses que para cá vieram com Vasco Fernandes Coutinho!
— Pois olhem, caros amigos, podem os senhores ter certeza que nós, os capixabas somos bem brasileiros, somos latino-americanos porque nós somos descendentes deles e nascemos na América. Isso qualquer um pode ver na cor dos nossos olhos, na lisura dos nossos cabelos e na cor da nossa pele que misturou o branco de lá com o bronzeado das índias daqui.
— De fato, meu jovem, vocês compõem realmente a bonita mistura das raças dos dois continentes mas permitam-me perguntar indaga o segundo visitante, se existe alguma relação entre o que você está dizendo, com a alcunha "canela verde". Por favor, diga-nos algo a respeito.

— O canela verde é o capixaba nascido em Vila Velha particularmente. Este cognome, atribuído aos vila-velhenses, tem origem numa remota história que meu amigo André da Maré Cheia vai contar.
— Pois não, disse André que levantou-se, pousou a pequena faca com que descascava laranja sobre a tosca mesa, pediu licença aos visitantes e, ajeitando a camisa na cintura iniciou pausadamente o seguinte comentário:
— Era comum os antigos habitantes do litoral brasileiro viverem da pesca e da caça. Os canelas verdes, como todos os colonizadores que se estabeleceram no litoral, tinham no mar a principal fonte de comida ficando a caça como alternativa alimentar. A caça era exercida na busca dos animais de pequeno porte como pacas, preás, tatus, lagartos e aves em geral. Para persegui-los nas matas litorâneas tinham que enfrentar marimbondos, abelhas, cobras, aranhas, formigas, mosquitos, besouros e, acima de tudo, grande variedade de espinhos. Para varar essa restinga fechada e perigosa, o homem foi obrigado a lançar mão de alguns meios de defesa que se tornaram comuns no seu dia-a-dia, tais como, levar um facão na cintura que servia para abrir a picada, uma vara resistente para bater o chão, quando o trecho da jornada era formado por capim, vegetação rasteira ou charco. Contra os espinhos dos arbustos protegiam-se usando um amarrado de folhas espessas ou pequenos feixes de ramagens nas pernas, além de um calçado qualquer. Por causa dessa proteção nas pernas, foram alcunhados de "canelas verdes". Mas, essas folhas ou ramagens, usadas nas pernas, vêm de uma tradição indígena que os nossos avós, os primeiros mestiços, adotaram também. [ 2 ]
— Devo dizer, interrompe o amigo, que já ouvi outras histórias, tentando justificar esta alcunha, mas, sinceramente, sem o sentido lógico desta que acabamos de ouvir do André.
— Neste ponto houve uma pausa e breve troca de olhares, quando um dos visitantes sugeriu que a conversa prosseguisse com todos sentados. E tomaram por assento as raízes expostas de um majestoso ipê. Voltando-se para o primeiro canela-verde que preferiu continuar de pé, o cavalheiro da corte solicitou-lhe que contasse alguma coisa relacionada com o cotidiano de um cidadão desta linda e pequenina vila, no que foi prontamente atendido. [ 3 ]
— Permitam-me que fale de mim mesmo. Eu sou canela-verde, sou pescador desde menino, disse. O meu trabalho é o anzol, o remo e a rede. Olhem a minha mão que é um calo só, porque eu trabalho desde que o sol nasce até a hora que se esconde. Mas não é só isso não senhores. Os nossos ancestrais foram os primeiros canelas verdes que, desde 1558, ajudaram na construção do Convento de Nossa Senhora da Penha, lá no alto do outeiro, onde trabalharam muito com as pedras. Foi um serviço muito pesado, demorado e bastante difícil, porque todas as pedras foram levadas, uma por uma, para o alto da rocha íngreme. Uma fantástica realização dos dedicados seguidores de São Francisco de Assis, que nela perpetuaram suas vidas de penitência e de amor aos irmãos. Esta maravilha, que contemplamos hoje, foi começada por frei Pedro Palácios e tantos outros dedicados cenobitas que colocaram pedra sobre pedra na edificação dessa portentosa obra que se transformou em símbolo do nosso estado. Foi serviço de muitos anos que começou desde o tempo do segundo donatário, Vasco Fernandes Coutinho (filho), no século XVI. Até hoje é muito grande a devoção do povo por Nossa Senhora. Foi ela que me batizou e, por isso, eu sou forte e protegido por Ela que vive me guardando de tudo que é ruim. De nada eu tenho medo. Posso até sair por esse mar aberto sem fim e buscar o peixe onde ele estiver; e nunca volto sem ele. E mais, nós somos conhecidos também como os melhores atalaias do litoral do Brasil porque herdamos esse serviço de proteger nosso povo que vive lá dentro, na ilha de Vitória, nossa capital, a cidade mais linda que ajudamos a construir.
O amistoso bate-papo foi interrompido por grande alarido, acompanhado de palmas e vivas, que anunciavam o final do desfile dos colegiais ali na Praça da Bandeira, onde o Prefeito entregava a Chave da Cidade ao Representante do Imperador. Com esse gesto o Prefeito dava por encerrada a primeira parte da solenidade. Em seguida o Presidente da Câmara ofereceria um ágape aos distintos representantes da Corte devendo todos os presentes serem encaminhados para o Morrinho, que um dia os locais chamaram de "Bosque", onde todos se juntariam aos jornalistas e convidados para participarem do repasto à base de comidas regionais regada com refrescos de frutas da época, à sombra das frondosas árvores e sob o frescor do vento nordeste que ali sopra diariamente.
Ao final do "comes e bebes" o sol poente começava esconder-se por trás da Pedra dos Olhos, muito pra lá de Maruípe, anunciando o encerramento das comemorações da cidade, desta vez de forma toda especial porque era o ano de 1823, quando, no dia 04 de fevereiro, por Decreto Imperial, D. Pedro I, elevara Vila Velha à categoria de cidade.
Era o momento das despedidas e os apertos de mão iam sendo acompanhados de palavras de agradecimento a todos os capixabas e de decididos elogios aos encantos da terra e à simpática acolhidas dos canelas verdes. Nesse instante, uma nuvem de tristeza parecia turvar o brilho do rápido convívio. Esse sentimento ficou evidente entre os locais, quando o sorriso franco lhes caiu da face e os emudeceu após o instante em que os visitantes acenaram pela derradeira vez ao embarcarem na lancha que os esperava no cais das Timbebas, na Angra da Prainha, para a viagem de retorno à capital.
Foi assim na vila primitiva que regrediu e se transformou em aldeia de pescadores, criadores e agricultores cujos frutos do esforço são vistos através de obras como a igrejinha do Rosário e o Convento da Penha. São construções que vararam séculos porque nas suas paredes a argamassa foi molhada com o suor dos habitantes da vila insipiente e cuja população se multiplicou na endogamia para que o povoado não desaparecesse. E assim viveu até alcançar o alvorecer do século XX para que, hoje, pudéssemos testemunhar o milagre dessa multiplicação herdada desde a cultura tribal dos seus ancestrais. Isso justifica porque, em pleno século XX, ainda encontramos remanescentes desses costumes entre os moradores mais antigos da Barra do Jucu e da Ponta da Fruta.
NOTAS
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[ 1 ] Contam os mais antigos que o termo capixaba teve origem na ilha de Vitória, mais precisamente onde está hoje a avenida Jerônimo Monteiro na margem do porto que passou a ser chamada de Avenida Capixaba porque foi onde o primeiro donatário fez roçado e preparou longa faixa de terra ribeirinha para plantação de milho margeando o ótimo canal de água doce que ainda verte do morro da Fonte Grande. Portanto, na língua tupi, capixaba quer dizer roça ou terreno preparado para cultivo. Hoje é uma palavra que expressa como sendo os nascidos no estado do Espírito Santo, pois que, culturalmente, todos nós, os espírito-santenses, somos saciados pela mesma fonte que jorra abundantemente na capital.
[ 2 ] Esse apelido, só deve ser entendido por aqueles que foram buscá-lo na origem do homem genuinamente brasileiro, ou seja, no nascimento do primeiro mameluco, que foi o resultado do cruzamento do colonizador europeu com a índia nativa da América. Esses primeiros ancestrais eram de cultura metade européia, metade indígena, daí terem usado costumes aprendidos na tribo da mãe que o amamentou e o integrou à vida tribal. Fato esse que se tornou comum ao longo do litoral brasileiro; só não sabemos porque tal cognome ficou fixado no capixaba nascido em Vila Velha. Dai a razão dessa narrativa revelar com tintas nítidas os verdadeiros hábitos dos primeiros mestiços nascidos aqui Esses mamelucos eram de feições suaves, não tinham nariz chato, nem olhos puxados como dos índios eram inteligentes, ao ponto de se tornarem peça chave do Padre José de Anchieta no trabalho de aproximação e de conquistas do aborígene cada vez mais distante do litoral. Na Província do Espírito Santo, este trabalho trouxe tanto índio para desenvolvimento da região sul do estado que, em pouco tempo Anchieta fundou com eles outros núcleos como os de Nova Almeida, Guaraparí e Benevente. Até aqui falamos do homem mestiço e suas principais características físicas. Como e qual seria o perfil da moça ou da mulher canela verde? Verdadeiramente semelhante aos homens; de fisionomia suave, de cabelos lisos ou ligeiramente ondulados e de hábitos idênticos ao da própria mãe tais como amamentar e cuidar dos rebentos, ensinar-lhes as atividades comuns a todas as mulheres da tribo dentre elas colher, debulhar e ralar o milho e a mandioca, preparar a farinha, cuidar do amanho da terra e demais atividades próximas da taba enquanto aos homens competia a fabricação de armas e utensílios, além das atividades da caça, da cata, da pesca, da defesa da tribo etc.

[ 3 ] Por tradição, ou melhor, desde quando o primeiro donatário transferiu a sede da capitania para a ilha de Santo Antônio (Vitória), Vila Velha continuou sendo uma pequena cidade onde quase todos os homens eram proletários ou de profissão indefinida, uma espécie de serviçal pronto para fazer de tudo um pouco. A vida dessas pessoas era desfrutada no seio de uma sociedade onde todos se conheciam; ou melhor, onde grande parte dela tinha grau de parentesco próximo porque foram gestados na cultura indígena que admitia o casamento entre os membros do mesmo grupo ou da mesma tribo. E mais, foi um povo que herdou a fé católica de parentes remotos que se acostumaram a confiar nos poderes infinitos de Nossa Senhora como mãe de Deus e de todos os homens. Estava no centro de sua crença, assim como de todos os capixabas, a fé inabalável na Mãe de Deus-Pai que os consolava nas dificuldades e os livrava de tudo que era ruim. Nossa Senhora era o bálsamo de suas vidas e onde buscavam a solução para os seus problemas, e, para orgulho de todos, ela desceu do céu e veio morar bem perto, na igrejinha do Rosário e no Convento da Penha. Na cultura dessa sociedade de pessoas simples, a alcunha "canela verde" era recebida como um carinho ou título de destaque, pois nutriam a certeza de trazer no sangue a descendência de gente diferente que tanto fez pelo engrandecimento de tudo e de todos. Qual Francisco de Assis, eram todos filhos da pobreza e da simplicidade, mas plenos da graça do Pai que os fez alegres e fecundos nas realizações do dia a dia. Tanto o rapaz como a moça pareciam envaidecer-se qual atleta, que trás pendurado no pescoço a medalha de vencedor ou vencedora, ou como o estudioso que se destaca ao receber o laurel que o eleva entre os demais. Assim foram os primeiros capixabas, descendentes de uma raça que tudo suportou e tudo fez na obscuridade do início do nosso período colonial.

SOBRE IDENTIDADE E INDIVIDUALIDADE CAPIXABA

Getulio Marcos Pereira Neves
Lembro-me de ter lido certa vez numa revista masculina (salvo engano a Ele Ela, da Bloch Editores), divertido artigo sobre comportamento versando acerca da possibilidade de se identificar a origem de uma pessoa pelo modo de a mesma se comportar na praia. Assim, os paulistas eram reconhecidos de longe pelo fato de suas mulheres na altura freqüentarem a praia maquiadas e cheias de jóias; o carioca, por chegar lá de chinelos e levando apenas uma toalha e o capixaba, por levar à praia aquelas indefectíveis esteiras de palha para se sentar em cima. Acho que comecei então a prestar atenção a isto porque a certa altura me convenci que, de fato, esta constatação era verdade, pelo menos no que dizia respeito às esteiras.

Acho que foi a partir daí que, como carioca radicado no Espírito Santo, salvo alguns períodos de vivência fora daqui para estudos, esta questão da identificação do caráter capixaba começou a me ocupar, mesmo que inconscientemente. O que torna o capixaba único, isto é, o que o diferencia dos demais brasileiros? É assunto para muitas laudas, e sem dúvida muitas foram já produzidas com muito mais propriedade e autoridade que as que seguem. Quem for pela internet ao site Estação Capixaba pode conferir textos insuspeitos a respeito do assunto, e ao menos a um deles quero fazer menção direta, ao abrir esta tentativa de contribuição pessoal à discussão que tem ocupado alguns dos melhores pensadores da terra.
I. Que significa "capixaba"?
O professor Guilherme Santos Neves, que dispensa apresentações, faz no texto "Por que somos Capixabas?", um levantamento de quanto fora investigado na altura (creio que pouco mais se produziu a partir daí), acerca da etimologia e também da mitologia do vocábulo "capixaba", introduzindo as interpretações do significado em tupi-guarani (ou nheengatu, a língua-geral, só proibida por estas bandas em meados do século XVIII), como designando roça ou plantação. Este termo veio posteriormente a designar o próprio possuidor da roça, isto é, os habitantes da Ilha de Vitória, num processo especial de derivação lingüística que, para Elpídio Pimentel, a que Santos Neves faz referência, se trata da metalepse.
Além dessa explicação de cunho científico, apresenta ainda referido autor a versão folclórica pela qual o nome teria sido estendido aos habitantes da Ilha em virtude da antiga Fonte da Capixaba, onde desembocava a boa água que brotava da Pedra da Vigia e que vinha sendo utilizada, ao longo do tempo, por toda a população. Com o passar dos anos, o povo passou a dizer que o primeiro banho da criança recém-nascida deveria ser tomado naquelas águas, para que tivesse fortuna e felicidade na vida, e assim a fama das águas da fonte da Capixaba se espalharam.
O fato é que o designativo "capixaba" veio a certa altura diferenciar, efetivamente, o nascido no Espírito Santo do carioca, natural do Rio de Janeiro, e do caipira, que, inicialmente designando o natural do interior de São Paulo, acabou se espalhando por todo o país com o significado de indivíduo interiorano, não versado no trato social.[ 1 ]
Se é impossível precisar a partir de que época o vocábulo em questão encampou este significado de designação gentílica, é fato que já em 1790 o relatório enviado pelo Capitão-mor Inácio João Monjardino ao Governador da Bahia fazia menção à existência de fontes, indistintamente, na Vila da Vitória,[ 2 ] enquanto que o Governador Brás Rubim em sua Memória Estatística da Província do Espírito Santo, de 1817, cita expressamente a da Capixaba como uma das duas fontes que havia "nas extremidades da Villa".[ 3 ]
Investigações históricas e etimológicas à parte, o que subsiste, nestes casos, é a interpretação dos fatos dada pelo povo. Neste sentido, as propriedades mágicas das águas da fonte da Capixaba (levantadas por Guilherme Santos Neves naquele texto) constituem, sem dúvida, mais uma vertente da milenar tradição que atribui poderes mágicos aos nascedouros e cursos d'água, habitados, quase sempre, por entidades benéficas (por exemplo, as náiades gregas, as ondinas e a própria Iara dos tupis).
II. Identidade — ou individualidade — cultural
Mas que é que pode fazer com que um indivíduo, ou um grupo de indivíduos, se sinta ligado de tal maneira a uma determinada região, se veja tão confortável ao adotar determinados usos e costumes de curso comum naquele sítio, a ponto de se fazer designar por um gentílico que o — ou os — identifique? Sem embargo trata-se de matéria afeta à Antropologia e até à Ciência Política, que se debruça sobre o tema ao tentar definir as "aspirações comuns" a uma determinada população (que pode ou não vir a habitar um território determinado), como condição indispensável a que aquela população se venha a individualizar como nação (e não se precisa ir longe para entender isto, quando se lembra que até mesmo os locutores esportivos — que geralmente não têm muita formação em Ciência Política — costumam designar as torcidas de clubes de futebol como "nação").[ 4 ]
Estas "aspirações", em se tratando do âmbito do estudo da Ciência Política, podem ser uma mesma língua, uma religião comum, ou a adoção de mesmos costumes pelo grupo populacional em questão. Em se tratando de grupo populacional inserido num grupo maior, como é o caso dos capixabas em relação ao grupo populacional brasileiro, havemos de nos ocupar deste último aspecto, ou seja, da especialização dos costumes, uma vez que a língua e a religião são comuns a todos os brasileiros em geral. Costumes de origem ancestral enraizados na população fazem parte da bagagem cultural daquele grupo. Se apresentam algum traço de originalidade quando cotejados com costumes de outros grupos, pode-se falar neste particular de "individualidade cultural" do grupo em relação àqueles, mas também de "identidade cultural" do indivíduo que os cultiva em relação a esse grupo determinado.
Abstrações teóricas à parte, na prática ao se pensar o assunto não se pode partir de outra premissa que não o da constatação da "marginalidade periférica" do Espírito Santo no contexto da nação brasileira,[ 5 ] o que se deve à sua pouca influência política, sua reduzida expressão econômica (em termos absolutos, visto ser um dos estados do Brasil cuja economia cresce a taxas mais aceleradas) à nenhuma penetração da sua produção cultural (que existe, inobstante a descrença dos próprios capixabas).

Este estado de coisas indubitavelmente influi sobre o ânimo da população, sobre a auto-estima dos capixabas, que, acometidos por um "complexo de coitado", tendem a não valorizar as coisas da terra, tão pobre. Infelizmente, pode-se dizer ser este o principal traço que tem caracterizado o capixaba, ao menos desde o último período de migrações — interiores e exteriores ao estado — por ocasião da implantação por aqui dos grandes projetos industriais, na década de 70 do século XX.
III. Individualidade cultural capixaba
Ora, sabe-se que o Espírito Santo era, nos primeiros tempos da colonização, a melhor terra do Brasil, no dizer de observadores insuspeitos (porque não radicados em nenhum sítio) — os padres da Companhia de Jesus, sem favor os iniciadores da nacionalidade. De fato, assim se manifestaram sobre a terra os padres Afonso Braz, em carta de 1551, e Antônio Pires, no mesmo ano,[ 6 ] entre outros, bem como Frei Vicente do Salvador, franciscano, autor da primeira História do Brasil, já em 1627.[ 7 ]
A capitania foi entregue a fidalgo de renome, destacado na campanha de expansão portuguesa no oriente, Vasco Fernandes Coutinho. Suas terras constituem, hoje, o único estado brasileiro que não chegou a ser invadido por forças estrangeiras: a população, unida, organizou-se mais de uma vez para repelir ataques e invasões durante os séculos XVI e XVII. No norte da capitania se manteve pela primeira vez na colônia uma campanha sistemática contra exércitos indígenas organizados, na região do rio Cricaré.
"Tropas" de índios saíram do Espírito Santo para se incorporar às forças que combateram os franceses durante a campanha que culminou na fundação do Rio de Janeiro, tendo estado presentes, durante aquela movimentação, em episódio adotado pela história militar como o nascimento da Marinha de Guerra do Brasil. Em fins do século XVI, e ao contrário do que se convencionou pensar, a produção de açúcar da capitania era parte expressiva da exportação da colônia para a metrópole. Por aqui, pelo caminho natural do Rio Doce, se fizeram entradas para o sertão à busca de pedras e metais preciosos, e daqui foi dada a notícia da descoberta de ouro nas Minas Gerais, em 1692 ou 1693, por Antônio Rodrigues Arzão, sendo que aquela capitania foi desmembrada das terras da do Espírito Santo.
Aqui se registrou a presença do primeiro músico de que se tem notícia no Brasil, Francisco de Vacas, nomeado pelo Governador Geral Tomé de Souza para os cargos de Provedor da Fazenda e Juiz da Alfândega, em 1550, e que posteriormente viria a ser chantre da catedral de Salvador, a capital da colônia. Aqui o Padre José de Anchieta escreveu e fez encenar alguns de seus principais autos, ele que é considerado o fundador do teatro brasileiro, escolhendo esta terra para viver seus últimos dias. Governantes e autoridades da terra foram várias vezes importunados pela população, que em ocasiões históricas diversas exigiu providências da Coroa contra presumíveis desmandos, sendo mesmo atendida em algumas ocasiões...[ 8 ]
É curioso notar o processo de achacamento que foi sofrendo o Espírito Santo a partir de certa altura, e que chegou a culminar no famoso "nossos braços são fracos, que importa" estampado no hino do estado, reconhecimento impotente dessa debilidade que passou a ser debitada à terra. Vasco Fernandes Coutinho, por exemplo, capitão destacado nas campanhas do oriente, passou à história como fracassado, talvez por informação inicial do mesmo Frei Vicente do Salvador — que aliás lhe faz justiça ao reconhecer a grandeza de propósitos[ 9 ] — de que teria morrido tão pobre "que chegou a lhe darem de comer por amor de Deus e não sei se teve um lençol seu em que o amortalhassem." Se morreu tão miserável, em "vilão tão farto", este fato atesta sua pouca operosidade. Esta informação, repetida inúmeras vezes por outros que simplesmente repetiram Salvador, é hoje contestada: sabe-se que o donatário morreu como proprietário de terras e engenhos.
Mas esta característica tacitamente atribuída ao donatário foi, sem embargo, estendida, num processo de derivação, a toda a população, que aos olhos do restante da nação passou a ser vista mesmo como pouco capaz.
Sem dúvida a primeira tentativa de se consolidar a identidade de um povo se faz por meio da identificação de heróis nacionais. Cá não foi diferente. Ao verdadeiro ressurgimento cultural da província na segunda metade do século XIX (lastreado no capital advindo da cultura cafeeira), ressurgimento este que se verificou pela criação da Imprensa, fundação de clubes de caráter político e de lojas maçônicas, seguiu-se a fundação, em 1916, do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, tendo como patrono Domingos José Martins, "Herói da Revolução Pernambucana de 1817" e cuja origem capixaba fora até pouco antes posta em dúvida.[ 10 ] Na esteira deste propósito, cuidou o IHGES, nos anos iniciais de sua história já de oitenta e cinco anos, de, por exemplo, reabilitar a memória de Vasco Fernandes Coutinho, de colocar em relevo o trabalho do Padre José de Anchieta em sua atuação no Espírito Santo, de resgatar a proeza do Caboclo Bernardo em sua operação de salvamento de náufragos na foz do Rio Doce, tudo como forma de identificação e divulgação dessas personalidades passíveis de se constituir em exemplo.
O certo é que a capitania era desde sempre pouco povoada. Com a fundação de Salvador ao norte e do Rio de Janeiro ao sul, o Espírito Santo foi paulatinamente sendo esvaziado, até que a descoberta das riquezas minerais na região das Minas Gerais culminou no travamento pela Coroa portuguesa de qualquer projeto de desenvolvimento da terra, condenada a não mais que baluarte natural de defesa das minas recém-descobertas, durante todo o século XVIII — fato, de resto, amplamente sabido. Golpe de não menores proporções para a capitania, historicamente, seria o da expulsão da Companhia de Jesus das terras de Portugal, incluindo obviamente o Espírito Santo, o que se deu em 1759: toda a atividade educacional e grande parte da atividade econômica se encontravam nas mãos dos inacianos — recorde-se, as fazendas de Araçatiba, destacada na produção de açúcar; Muribeca, destacada na criação de gado e Itapoca, na fabricação de farinha.
A política da Coroa portuguesa foi, assim, funesta para o Espírito Santo durante todo o século XVIII. Somente no início do século XIX recomendou-se especialmente ao Governador Silva Pontes que incentivasse a navegação pelo rio Doce, proporcionando por essa via a comunicação entre o Espírito Santo e Minas Gerais. Tentava-se romper o isolamento de um século do lado de cá...
Em resumo: o Espírito Santo, capitania muito próspera a princípio, teve reais motivos de implantação e desenvolvimento, em sua população, de um verdadeiro sentimento nativista como conseqüência das querelas decorrentes da ocupação (hoje, por conta de certo revisionismo, usurpação...) das terras indígenas, da resistência a tentativas de saque por parte de corsários, notadamente ingleses, e de invasões armadas, notadamente em razão das guerras holandesas (recorde-se a já referida resistência da população da Vila de Vitória, organizada militarmente nos moldes da época, a mais de um ataque estrangeiro no decorrer dos séculos XVI e XVII). Este sentimento nativista teria tudo para se tornar mais forte em razão da mencionada política da Coroa para com a capitania, até desembocar, no século XIX, como legitimador do processo de arrebanhamento popular (visando à manutenção da estrutura social vigente) por parte da classe dominante local, como em toda a América Latina da época da independência. Só que no Espírito Santo não foi bem assim que aconteceu.
Até como decorrência do sentimento nativista, o principal caráter de lusitanidade do povo brasileiro é a negação de sua origem, pela rejeição dessa sua própria lusitanidade, assim como há quem aponte como principal caráter do povo português a negação de sua hispanidade pela pretensa origem francesa de sua nacionalidade (Dom Henrique, pai de Afonso Henriques, o fundador da nacionalidade portuguesa, era da linhagem dos condes de Borgonha).[ 11 ] Essa negação por parte dos brasileiros da origem lusitana, que sem embargo vem fazer de nós outros filhos de pai desconhecido — com todas as conseqüências psicológicas que este fato acarreta — acabou por se firmar induvidosamente em conseqüência da independência, quando os "portugueses do Brasil" passaram a se distinguir dos portugueses europeus. E se consolidou por força do preconceito em geral dos brasileiros contra trabalhadores estrangeiros, portugueses em particular (por serem em maior número, mesmo já em meados do século XX), ocupantes de postos de trabalho que deveriam estar naturalmente destinados — pelo senso comum — a cidadãos brasileiros.

O certo, repita-se, é que a capitania era desde sempre pouco povoada. A propósito, no princípio do século XIX a (já) província contava por volta de 35.000 almas,[ 12 ] incluído neste número a população de índios aldeados. Em vista desta pouca população é que a posterior imigração estrangeira teve no Espírito Santo como móvel principal o povoamento e a ocupação da terra, e só depois (e posteriormente, cronologicamente falando), o de substituição da mão-de-obra escrava. Assim, esse caráter de brasilidade consistente na tal negação da lusitanidade se deve, no capixaba, muito mais ao efeito da imigração, já que Italianos e alemães que vieram povoar as terras do Espírito Santo nem de longe se sentem ligados de alguma maneira a qualquer coisa que lembre Portugal.
Essa singularidade de formação do seu caráter é inconscientemente detectada pelo capixaba, que se reconhece de alguma maneira como diferente dos habitantes dos estados do nordeste, dos habitantes dos estados do sul e até dos de São Paulo, os que, neste particular, mais se assemelham a nós, mas onde a imigração italiana e alemã não teve, quantitativamente, o peso que teve no Espírito Santo. E detectada esta diferença, que associa ao papel de marginalidade do estado no contexto nacional, o capixaba tende naturalmente a desvalorizar o que é para, pela neutralização dessa diferença, integrar-se, já agora como brasileiro, nesse contexto. Exemplo, é chique torcer para clubes de futebol de São Paulo (embora seja popular torcer para clubes de futebol do Rio de Janeiro).
IV. A valorização da identidade
Foi neste ponto que começou a acontecer o incremento desproporcional das relações internacionais, conseqüência do fim da guerra-fria, com suas conseqüentes vertentes de homogeneização das relações comerciais e da produção cultural. E paradoxalmente, foi só então que a tal "identidade capixaba" voltou a ser pensada, ou passou a ser repensada, já agora como expressão da valorização do local como forma de demarcação com relação àquilo que vem de fora — o que, de resto, se constitui numa tendência mundial. E a maneira que têm os grupos humanos de externar esta uma "individualidade cultural" que lhes seja própria, dando-lhe visibilidade, opondo-a a outros grupos, é o externá-la por meio de sua produção artístico-cultural.
Francisco Aurelio Ribeiro expunha, no início da década de 90, a detecção do caráter de marginalidade (pela marginalidade geográfica e cultural do estado) de que se reveste a literatura produzida no Espírito Santo;[ 13 ] na mesma altura, Alexandre Lima e o Maestro Jaceguay Lins se apropriavam da linguagem das bandas de congo em espetáculo no Teatro Carlos Gomes, inaugurando uma tendência de resgate e utilização de expressão musical local na linguagem de música popular a ser consumida pelas massas;[ 14 ] mais ou menos pela mesma época Amylton de Almeida quase finalizava seu longa-metragem O Amor está no Ar, uma história que se passa por aqui e retrata costumes locais, como a festa de São Benedito.[ 15 ]
Se na literatura produzida no estado esta característica de valorização do regional, principalmente de seus aspectos históricos e etnográficos, já se fazia notar anteriormente em certas obras (listem-se de forma ligeira os exemplos de A Oferta e o Altar, de Renato Pacheco, Karina, de Virgínia Tamanini, A Nau Decapitada, de Luís Guilherme Santos Neves, Rua da Conceição, Micarense, Pontal..., de Sérgio Pessoa, Cotaxé, de Adilson Vilaça) — até porque houve anteriormente em termos de literatura brasileira um regionalismo como vertente estilística — na música popular a valorização da expressão local passou-se a fazer efetivamente a partir daí, e na busca de alguma coisa que se possa assemelhar a música genuinamente capixaba destacam-se hoje as bandas Manimal (de Vitória) e Casaca (da Barra do Jucu, Vila Velha), ambas, não por coincidência, adotando a linguagem das bandas de congo como base de sua expressão.[ 16 ]
V. Marginalidade periférica
A obra de Francisco Aurelio Ribeiro é importante aqui na medida que tornou expressa a constatação desse traço do caráter capixaba, dessa "marginalidade periférica". Creio ser por aí que o Espírito Santo pode marcar sua diferenciação no contexto nacional, pela afirmação inequívoca dessa diferença. Nem se diga que isto representaria o aceitar do fato de "nossos braços" serem "fracos, que importa"; seria, antes, uma auto-afirmação, advinda da constatação de que, se somos marginalizados, é porque somos diferentes.
Há vantagem nisso, nessa aceitação da marginalidade? Procurando uma resposta, vou mais uma vez fazer menção a Portugal (afinal, o caráter português é a gênese do caráter nacional). O país apresenta, inegavelmente, esta mesma característica de "marginalidade periférica" nos aspectos não só geográfico mas também cultural, em relação à Europa. Autor português chamado Agostinho da Silva — pensador que inclusive lecionou bastos anos na Universidade de Brasília — em texto datado de 1957, Reflexão à margem da Literatura Portuguesa,[ 17 ] parte da constatação de que o maior feito histórico de Portugal não foram os descobrimentos, ou a fundação das nações ultramarinas, mas a manutenção da independência dos territórios periféricos, por sua tenaz resistência à onda centralizadora irradiada na Península Ibérica desde Castela.
Ora, Portugal parece ter encarnado definitivamente esta "missão", bastando lembrar que sua diplomacia obteve retumbante triunfo ao conseguir, praticamente sozinha, manter a questão de Timor Leste sempre em pauta no âmbito da Organização das Nações Unidas ao longo de mais de vinte anos. Acabou sendo a responsável maior por forçar um desfecho, que no caso foi a libertação de Timor Leste da ocupação indonésia — feito pelo qual se pagou, infelizmente, um alto preço em vidas humanas — e dando à própria ONU a oportunidade de monitorar pela primeira vez o nascimento de um Estado nacional. Trata-se, sem dúvida, de não pequeno feito.
Agora, se na correlação com o Espírito Santo, trocarmos a "manutenção da independência" invocada por Agostinho da Silva por manutenção (ou defesa) da individualidade cultural das culturas periféricas? Ao Brasil deve ser demonstrado que a característica maior da cultura capixaba, considerada como objeto de reflexão, é sua desconcertante diversidade, patente até mesmo do fato da pouca miscigenação de grupos étnicos diferenciados, caso dos pomeranos das regiões centrais e dos grupos indígenas da região de Aracruz, que só muito lentamente se vão integrando culturalmente ao restante do estado.
Neste aspecto o Espírito Santo pode vir a ser para o Brasil um laboratório privilegiado de observação da formação da própria individualidade brasileira (até mesmo porque este processo da formação da individualidade capixaba está a ocorrer no dia-a-dia). A demonstração deste fato ao restante do país só pode ser feita pelos próprios capixabas, através de suas realizações materiais e culturais, num processo que, a ser de fato realizado, sem dúvida haverá de ajudar a promover o resgate de sua auto-estima.
Creio que a correlação entre os dois casos — o de Portugal e o do Espírito Santo — é bastante evidente, pelas características apontadas, e por isto se justifica a utilização que ora se faz do caso português para pensar o caso capixaba. E não se devem escandalizar por isto os nossos bons descendentes de alemães e italianos. Afinal, não se propõe aqui uma "re-lusitanisação" de nada, antes, apenas o reconhecimento íntimo, e posterior afirmação nacional, dessa "marginalidade periférica" de que, um pouco como os portugueses, sofremos os capixabas, fazendo dela não uma marca de inferioridade, mas de individualidade, não de pobreza, mas de diferença cultural, não de fraqueza, mas, a final, de operosidade dos "nossos braços", que sairão fortalecidos deste processo.
VI. Finalmente...
Afinal, que é que torna o capixaba único, isto é, o que o diferencia dos demais brasileiros? Atualmente, os capixabas já não mais se sentam na praia sobre esteiras de palha, o que sem dúvida dificulta muito a sua identificação (e ao se constatar que afinal o capixaba terá trocado a esteira de palha pela toalha de praia do carioca se poderiam gastar por isto muito mais páginas comentando os efeitos da globalização etc., os efeitos das novelas da Rede Globo sobre os hábitos da população do resto do país etc.).

Já disse que o pensar esta questão é-me bastante grato; por outro lado, pode me vir a ser bastante útil, porque tenho um filho "alfacinha" (natural de Lisboa, intra-muros, como oposto a "saloio", o suburbano), e as crianças fazem perguntas. E se ele, distante da nossa realidade, me perguntar alguma vez o que vem a ser capixaba, quem sabe possa lhe responder algo mais do que "é o brasileiro que ao conduzir veículo usa a pista da esquerda como se fosse a de baixa velocidade" — este sim, Guilhermes, Ribeiros, Pachecos, outros pensadores capixabas — o traço ainda mais visível, mais indiscutível e sem dúvida mais irritante, de nossa identidade cultural...
Praia da Costa, agosto de 2001
NOTAS
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[ 1 ] Câmara Cascudo, Dicionário do Folclore Brasileiro, 6ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988, p. 176/177.
[ 2 ] Apud José Teixeira de Oliveira, História do Estado do Espírito Santo, Vitória: 1975.
[ 3 ] A outra era a da Lapa, enquanto que a Fonte Grande ficava "quasi no centro" (da vila). Apud Aristides Freire, "A Capichaba e os Capichabas", Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, vol. IX, 1935.
[ 4 ] Os torcedores mais velhos devem se recordar que o então radialista, hoje ilustre Promotor de Justiça aposentado e Presidente, por várias vezes, do Tribunal de Justiça Desportiva da Federação de Futebol do Espírito Santo, Dr. João Cézar Sandoval, referia-se à torcida do Rio Branco Atlético Clube como "a nação de Jucutuquara"...
[ 5 ] Essa expressão, utilizada por Francisco Aurélio Ribeiro no título de uma de suas obras, será bastante explorada mais abaixo.
[ 6 ] Ambas em Cartas Jesuíticas, vol. II, Belo Horizonte. Ed. Itatiaia, 1988.
[ 7 ] História do Brasil: 1500-1627, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1982, pág. 108/109.
[ 8 ] Em 1724 os moradores da Vila de Vitória fizeram encaminhar, por quem fazia as vezes de Capitão-Mor da Capitania, representação ao Conselho Ultramarino contra o Vigário da Freguesia de Nossa Senhora da Vitória, João Trancoso de Lira; em 1726 o Bispo da Capitania do Rio de Janeiro (a que estava submetida eclesiasticamente o Espírito Santo) informava o Conselho Ultramarino da suspensão do clérigo, em atendimento às reclamações da população. Em 1733 o povo da Vila pedia a expulsão do clérigo Bento Lobo Gavião ao Capitão-Mor, em representação assinada por autoridades (Catálogo de Documentos Manuscritos Avulsos da Capitania do Espírito Santo: 1585/1822. Vitória: Arquivo Público Estadual, 1998). Nos idos de 1800 o povo da capitania representava contra atos do Governador Silva Pontes (apud José Teixeira de Oliveira, História do estado do Espírito Santo. Vitória: FCES, 1975).
[ 9 ] "E como o espírito de Vasco Fernandes era grande, deixando ordenados quatro engenhos de açúcar, se tornou pera o reino a aviar-se pera ir pelo serão a conquistar minas de ouro e prata de que tinha novas...", op. cit., pág. 108.
[ 10 ] Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, vol. I. Vitória, 1917.
[ 11 ] Esta idéia é expressa por Antônio José Saraiva em A Cultura em Portugal, Livro I: Teoria e História, 2ª edição. Lisboa: Gradiva, 1996.
[ 12 ] Números do censo de 1827; apud José Teixeira de Oliveira, op. cit., pág. 294.
[ 13 ] Veja-se A Literatura do Espírito Santo: Uma marginalidade periférica. Vitória: Nemar, 1996.
[ 14 ] Explorei o tema em texto publicado no volume 19 dos Escritos de Vitória, o "Vitória de todos os Ritmos"; nesse texto, intitulado "Tentativa de Identificação de Tendências Contemporâneas na Música Popular do Espírito Santo", procurei provar que, longe do que se convencionou pensar, a produção musical no Espírito Santo esteve ao longo do tempo sempre afinada com o contexto nacional — e até o internacional que, ao fim e ao cabo, influencia aquele.
[ 15 ] Sobre o filme e outros aspectos da obra do jornalista Amylton de Almeida veja-se A Múltipla Presença: vida e obra de Amylton de Almeida. Vitória: Sec. Municipal de Cultura e Turismo, 1996, org. de Deny Gomes.
[ 16 ] Também sobre essa apropriação da linguagem das bandas de congo e sua utilização por grupos de música popular veja-se o meu texto "Tentativa de Identificação de Tendências Contemporâneas na Música Popular do Espírito Santo", loc. cit.
[ 17 ] Lisboa: Guimarães Editores, 1996.
[Publicado nos Escritos de Vitória: Vitória de Todos os Ritmos - Música e Músicos. Vitória, n° 19, 2000, pp. 94/102 e reproduzido em nosso site com a permissão do autor.]

Getulio Marcos Pereira Neves é sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e juiz de Direito em Vila Velha.

MOQUECA CAPIXABA - E NÃO ME VENHA COM PEIXADA!
Como bom capixaba que sou, não poderia deixar de registrar um certo "destempero" que sinto quando leio a definição de moqueca no famoso Dicionário Aurélio:
"Moqueca1: (Do quimbundo mu'keka) Substantivo feminino: 1. Bras. Prato Típico Brasileiro, em geral de peixe ou de mariscos, podendo também ser feito de galinha, ovos, etc, e que consta de um guisado temperado com coentro, cebola, podendo incluir salsa, leite de coco, pimenta-de-cheiro, azeite-de-dendê. Sinônimo no Pará: poqueca. São Paulo: Espécie de sinapismo/cataplasma/emplasto, de folhas de mangueira e de fumo, que se põe sobre a cabeça para cura de cafalalgia. Confrontar com moquenca. (grifo nosso)
Moqueca 2: De moquear, por influência de de moqueca. Substantivo feminino, Amazonas: O peixe moqueado envolto em folha de bananeira. Confrontar com moquenca.
Moquenca: Substantivo feminino: Guisado de carne de vaca com vinagre, alho, pimenta, etc. Confrontar com moqueca.
Quimbundo: (Kimbundu). Substantivo masculino. 1. Indivíduo dos quimbundos, indígenas bantos de Angola,. 2. A língua desses indígenas."
Venhamos e convenhamos, Aurélio jamais deve ter passado pelo Espírito Santo, a verdadeira "casa" da moqueca. Moqueca, amigo visitante, só existe a Capixaba. Essas que você encontra por aí é só peixada ou sopa de peixe. Sei que vou arrumar a maior briga com tudo o que é baiano deste país, mas a verdade tem que ser dita, doa a quem doer! E se é por uma causa nobre, defender a única e maravilhosa Moqueca Capixaba, vale a pena! Segundo a Professora Leonor de Araujo Santanna (Chefe do Departamento de História da UFES e membro da Diretoria do Clube da Moqueca Amiga), é a seguinte a verdadeira história deste maravilhoso manjar dos deuses:
"O tradicional prato da culinária capixaba reúne, numa tradição de mais de 400 anos, a nossa cultura índia, negra e portuguesa.
Na panela de barro, confeccionada pelos índios, e hoje feita pelos descendentes de índios e negros, juntou-se as comunidades costeiras capixabas, conhecidas como caiçaras, que deu ao prato o seu componente principal: o peixe, como o robalo, o papa-terra, o realito, o xaréu e o badejo, de excelente qualidade, pois a costa capixaba pela sua localização e condições marítimas, é uma das mais fartas do litoral brasileiro.
Aos índios, que também contribuíram com o urucum, que fornece a belíssima coloração avermelhada do prato e um gosto especial, vierem somar os negros e portugueses.
Os africanos deram aquela pitada a mais no cozido, acrescentando a pimenta malagueta e o coentro, que fazem com que a muqueca tenha gosto de “quero mais”.
Os portugueses, com a tradição milenar do pescado, contribuíram para que o peixe tivesse um tratamento anterior ao cozimento, temperando-o com o limão, o alho, e a cebola vindos da Europa, que os trouxe do Mediterrâneo e do Oriente como especiarias.
Todos esses ingredientes reunidos resultam em um prato onde o sabor do peixe é evidenciado, e pessoas das mais variadas partes podem saboreá-lo, sem susto, pois ele é leve, com substância, e de fácil digestão.
Isso mostra que, em terras capixabas, o criador conspirou para que as culturas que formaram nossa gente, se juntassem inspiradas e produzissem essa maravilha de prato que é a muqueca capixaba." (Leonor de Araujo Santanna, além de Chefe do Departamento de História da UFES, é também: Professora de História do Espírito Santo e de África, Presidente do Sindicato dos Guias de Turismo do ES, e Membro do Conselho Municipal de Turismo de Vitória).
Como você vai poder observar, a nossa caríssima professora faz uso da palavra "muqueca", ao invés de "moqueca". Há, na realidade, uma grande discussão em torno disso. Um nobre capixaba, seu Délio Grijó, famoso por suas defesas acaloradas de nossa terra, disse-me que os antigos ilhéus (moradores da ilha de Vitória) escreviam com "U". Bem, história para cá, história para lá...
O importante mesmo é não deixar de comer a Moqueca Capixaba, com "O" ou com "U", mas sem abrir mão de ser a verdadeira e única, longe das "maquiagens" impostas pelos falsos "moquequeiros", que ousam usar molho de tomate, pimentão, azeite-de-dendê, salsa, leite de coco... Ah! Se seu Délio pega o maquiador!

Lusmar Machado Moraes Pizetta
Membro Fundador do Clube da Moqueca Amiga
Proprietário/Webmaster da Gastronomia Brasil

Apostila: História do Espírito Santo I

comunaprevestibularpopular @ 02:19

INTRODUÇÃO

A região da baia de Vitória começou a ser habitada por populações pré-históricas a partir de 5.200 a.C, aproximadamente. É quando os contornos atuais do litoral iniciaram sua definição com o surgimento de mangues, restinga e ampliação dos recursos alimentares, que tornaram a região um local privilegiado para a vivência dos grupos indígenas.
A ocupação do território se dá, sem sombra de duvidas, pelas nações indígenas locais, sendo que no caso específico da ilha aventa-se, principalmente que sejam as nações tupiniquins e/ou guaranis. Essa dúvida até hoje paira sobre nossas investigações, e somente estudos arqueológicos mais profundos e sistemáticos, na área antiga de ocupação e atual região da Capixaba e arredores, poderiam nos fornecer a certeza dessa ocupação primitiva.
A designação mais antiga da Ilha principal e maior do arquipélago, composto por 34 ilhas, é Guananira. Na tradução portuguesa do tupi-guarani goá significando baia, nã, semelhante e Ira, no nheengatu, significa mel; por isso a conotação popular corrente, na atualidade, é Ilha do Mel.
A ilha recebeu diferentes nomes na sua trajetória até os nossos dias. Quando reconhecida, em 1535, em mapeamento da baia, então considerada um rio, o Rio do Espírito Santo, por Vasco Fernandes Coutinho, recebeu o nome de Santo Antonio.

[...] o alvará da dita doação da dita ilha ou leziria de Santo Antônio e, feito o dito alvará por sua própria pessoa, lhe fora a pegar a dita ilha e lhe dera corporalmente posse atual, civil e natural, e como senhor e governador da terra o incorporou na posse da dita ilha e, em pessoa dele, Vasco Fernandes Coutinho, ele, Duarte de Lemos, dera logo às pessoas e moradores da terra grandes partes de sesmarias das terras da dita ilha para aproveitarem e a povoarem, fazendo fazenda para si como em cousa própria, forra e isenta do dízimo a Deus [...]

A presença regular da Companhia de Jesus, à partir do ano de 1551, foi crucial no desenvolvimento da Capitania, até sua expulsão, em 1760. Os portugueses capitaneados por Vasco e seus sucessores tinham como principal objetivo a busca de ouro e pedras preciosas, deixando muitas atividades administrativas e econômicas nas mãos dos jesuítas e contavam com eles para a sua principal função: a catequese do indígena, que forneceria mão de obra e, principalmente, pacificaria os nativos.
Não é de se estranhar, que somente aqui portugueses e jesuítas não entraram em confronto, nem pessoal e muito menos armado. As fazendas dos inacianos eram as principais fornecedoras de produtos agrícolas da capitania.
A ocupação populacional regular da ilha, isso significando a constituição do centro urbano da cidade alta, se deu em torno do Colégio de São Thiago, sede administrativa e geográfica dos jesuítas na capitania do Espírito Santo. O inicio da construção do Colégio, no ano de 1551, com a chegada do Padre Afonso Brás e o irmão leigo Simão Gonçalves, coloca-o como um dos mais antigos do Brasil. Em 1589, Padre José de Anchieta é registrado como superior do Colégio do Espírito Santo, indicando a importância do Espírito Santo na obra desenvolvida pelos jesuítas no Brasil.
A ocupação realizada por Duarte de Lemos, registra-se, foi feita pelo lado oeste da ilha onde hoje está situado o bairro de Santo Antonio. Não há registros de onde tenha se iniciado tal ocupação, mas acreditamos que seria provavelmente a região entre o Cais do hidroavião e a Ilha das Caeiras, por ser terreno mais espraiado. Consta que ergueu casa na parte mais alta da Ilha e ao seu lado uma igreja, que viria a ser o patrimônio mais antigo existente em Vitória, a Igreja de Santa Luzia. Uma ocupação rarefeita, já que o nobre tinha posses em outros locais do Brasil, e que foi sobrepujada, quando nosso Donatário para cá transferiu a sede da capitania.
A data oficial de fundação da Vila foi estabelecida no dia 8 de setembro de 1551, mas documentos provam que a Vila já estava fundada desde 1550, provavelmente entre fevereiro e março desse ano, ou fins de 1549.
De 1550 é o predicamento de vila dado à povoação, que tomou o nome de Vila da Vitória. Tal fato teria ocorrido antes de três de março daquele milésimo, pois dessa data existe uma provisão passada por Antonio Cardoso de Barros, “Provedor-mor da Fazenda de El Rei Nosso Senhor nestas partes do Brasil”, onde se lê: “ Faço saber aos que esta virem, que por nesta Villa da Victória Província do Espírito Santo Capitania de Vasco Fernandes Coutinho ...”
A tradição reza, que foi o triunfo alcançado pelos ilhéus a 8 de setembro de 1551, na maior batalha contra os índios e sua conseqüente expulsão da ilha , que teria dado o nome a Vila Nova, como passa a ser popularmente conhecida até o século XIX.
Consta por tradição que Vasco Fernandes Coutinho, vendo-se de continuo inquietado pelo gentio, juntara suas forças, expulsára o Gentio da maior ilha que estava na baia, uma legoa acima da villa, n’ella se estabelecêra, e fundara a villa denominada da Victória, tendo neste logar alcançado a maior vitória, por isso como tropheo, assim a denominou: não consta o anno d’este acontecimentos; porém sim que no anno de 1551 o padre Affonso Braz, da companhia de Jesus, [...], dêo principio a fundar o Collegio na Villa da Victória, n’ella foi sepultado o venerável padre José de Anchieta em 9 de julho de 1597, hoje serve de casa de residência do Governo, o que prova já neste anno estar fundada a villa.
Em 1572, quando da divisão da colônia em dois governos, o Espírito Santo foi localizado, junto com Porto Seguro, na Repartição do Sul. Vitória contava, nesse período, com 1.390 “fogos”, como se chamavam as casas residenciais que comportavam fogões à lenha.
O Colégio dos Jesuítas, também conhecido como Colégio de São Thiago, aparecia como a principal edificação da ilha durantes os séculos de história de Vitória. Ele abrigou Tomé de Souza, então Governador Geral do Brasil, em 1552, que lá se hospedou, assim como todas as autoridades que visitaram o Espírito Santo, inclusive o Imperador Pedro II em 1860. Daí partia também a maior parte das mobilizações para a defesa da Capitania contra os invasores estrangeiros, sendo o índio o principal combatente dos batalhões formados.
Em 1581, quando três naus francesas investiram contra a vila, foram os catecúmenos aldeiados pelos inacianos que saíram a campo em defesa da terra, matando e ferindo a muito dos assaltantes. “Os moradores, atemorizados, não acharam quem os defendesse senão quase só, diz Anchieta, os índios das aldeias jesuíticas”.
A Vila de Vitória como Praça Fortificada
O acirramento das relações portuguesas com outras nações européias, principalmente durante a União Ibérica na sua apropriação pela Espanha, fez com que as principais construções da Vila, no século XVII e XVIII, estivessem ligadas a sua defesa. Os fortes acabariam por delimitar os contornos da vila, pois ficavam nos pontos estratégicos e extremos, voltados para o mar.
Assim, em 1648, foi construído o que se presume ser o primeiro forte da Ilha, o forte de São João, por Dão João de Castello Branco. Esse forte fica localizado em frente ao Pão de Açúcar, hoje Penedo, e no governo de Francisco Gil de Araujo foi reerguido.
O “fechamento” do forte junto à barreira natural do morro (hoje Forte de são João), literalmente feito durante muitos séculos com larga e grossa corrente atravessada até o Penedo, funcionou como o delimitador leste da Villa da Victória. A partir dessa região, as áreas da ilha eram consideradas rurais.
A Villa tinha precárias ligações com a fazenda de Jucutuquara, passando pelo Forte de São João, como vemos na foto seguinte. A estrada ligando a Maruípe só começou a ser construída em 1792.
Em 1667, já existia a Fortaleza de Nossa Senhora do Carmo, construída nas vizinhanças do porto dos padres, trecho hoje compreendido entre o prédio dos Correios e o Teatro Glória.
Em 1693, registra-se na villa de Victória, o que seria o primeiro ouro encontrado no Brasil, no Rio da Casca, afluente do rio Doce, e em território da capitania do Espírito Santo. A historia regional marca esse período, da exploração aurífera, como fator de atraso de cem anos para a capitania, pois o nosso espaço geográfico teria sido usado como barreira contra os desvios do ouro.
Devemos considerar também, e não apenas isso, que a política da Coroa Portuguesa para a área aurífera do sudeste, proibiu a abertura de estradas do Espírito Santo em direção às minas de ouro e vice-versa, além de criar sua Capitania Real das Minas Gerais, em 1720, com a maior parte das terras capixabas.

Desde o ano de 1704, através da Bahia, vinham ordens rigorosas de Portugal para que não houvesse migração de capixabas em direção às minas, e que os que lá estivessem, fossem recambiados à capitania.

A explicação tradicional da “barreira verde”, onde se atribuiu à dificuldade de transposição da Serra do Mar e a resistência dos índios bravios toda responsabilidade por termos ficado alijados da comercialização aurífera, não leva em consideração as atitudes políticas da Coroa e, muito menos, os interesses das outras capitanias envolvidas no comércio.

O “temor” da Coroa de que “quantos mais caminhos houver mais descaminhos haverá” , não se pautou, em nosso entender, por uma opção relacionada ao caminho mais curto, que seria a Capitania do Espírito Santo e o porto natural de Vitória. Para isso, basta levarmos em consideração as condições geográficas de São Paulo e Rio de Janeiro, onde a Serra do Mar também presente e em extensão maior aumentava a distância no embarque portuário do ouro, o que realmente ampliaria as oportunidades de contrabando.

Racionalmente, o primeiro ouro descoberto na região, nos fins do século XVII, pelo paulista Domingos José Arzão, na área conhecida como “Casa do Casca”, foi trazido para registro pelo caminho mais fácil, na vila de Vitória.

A rigorosa proibição de comércio com as minas evidentemente prejudicou o Espírito Santo, que não teve força política suficiente para bancar a participação e/ou a manutenção do seu território, reflexo das ausências e/ou deficientes administrações dos Capitães-Mores ou de seus Governadores , e transformou a sede da capitania em uma praça de guerra, com investimentos apenas na área militar. O desenvolvimento da Vila de Vitória foi comprometido, pois a sujeição do Espírito Santo ao governo da Bahia, como capitania subordinada, inibiu as funções político-administrativas e culturais da sede.
De qualquer maneira, podemos perceber a importância da área de Vitória, pois foi ela a receber a maior parte dos investimentos na área militar, que vieram para a capitania no século XVIII. No ano de 1726, por exemplo,o vice-rei, conde de Sabugosa, contratou o engenheiro Nicolau de Abreu Carvalho para remodelar e construir mais fortificações. Remodelou entre outras as de São João, ampliando e melhorando a reforma que se tinha feito em 1702, por ordem de D. Rodrigo da Costa ; o de Nossa Senhora do Monte do Carmo, que recebeu casa de pólvora ; construiu a de São Mauricio, ou São Inácio, dentro da vila na marinha da cidade , em frente ao porto dos Padres; São Thiago, que passou a se chamar São Diogo, localizada hoje onde se encontra a escadaria de mesmo nome, que liga os fundos da Catedral Metropolitana a Praça Costa Pereira.
Em 1728, Vitória contava com aproximadamente 5.000 moradores, tidos como pobres e sem atividades comerciais de destaque , mas a cidade continuava a modelar seu espaço urbano.
Quando os jesuítas foram expulsos do Brasil, pela política pombalina, em 1760, suas propriedades ficaram em posse do governo e muitas foram a leilão público.
O Colégio foi ocupado pelo governo local, e assim esta até nossos dias. O palácio Anchieta, nome que o colégio recebeu no século XIX em homenagem ao padre jesuíta, é considerado o prédio mais antigo de ocupação governamental do país.
O Convento de São Francisco, mais antiga sede dos franciscanos no sul e sudeste do Brasil, e primeiro noviciado dessa área, conclui as obras iniciadas nos anos seiscentos.
O Bispado da Bahia, ao qual éramos submetidos, cuidava das questões religiosas, depois que os jesuítas foram expulsos em 1760. No século XVIII, ficamos sob os cuidados do Bispado do Rio de Janeiro.
No ano de 1765, com beneficio de provisão do Bispado da Bahia, datada de 14 de setembro, foi levantada na vila da Vitória a Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, a requerimento de uma Irmandade instituída por pretos, devotos da Santa, no morro do Pernambuco. Atualmente a Igreja situa-se na Rua do Rosário, com acesso pela grande escadaria do mesmo nome, atrás do Teatro Carlos Gomes.
Em 1768, novas providências são tomadas no aumento do efetivo militar e construção da Fortificação da Ilha do Boi e reforma das da Barra de Vitória. Para esse trabalho foi contratado o engenheiro José Antonio Caldas que deixa rico relato sobre a capitania, de como a viu em 1767, além um precioso mapa da Ilha de Vitória.
Ao mesmo tempo, contradizendo o aspecto de decadência e atraso, Saint-Hilaire citando a obra do poeta inglês Robert Southey, intitulada “History of Brazil”, relatava que “ por volta da metade do século 18, [Vitória] era considerada uma das principais cidades da América portuguesa pela importância do trabalho dos inacianos aqui”, e considerou que a expulsão dos jesuítas, em 1760, foi o principal fator da decadência que se estabeleceria na província, já que a maior parte da população era formada por índios e esses, após a expulsão daqueles que os protegiam, se evadiram e abandonaram o trabalho regrado.
O crescimento da cidade de Vitória, no final do século XVIII, acompanha os de outras cidades no Brasil, principalmente aquelas que não foram beneficiadas pela exploração aurífera. Sobrados e casas térreas feitas de taipa portuguesa, ou pilão, adornavam as ruelas estreitas e tortuosas, herança européia e que dificultava as invasões estrangeiras e dos nacionais indígenas, facilitando a defesa da Vila.
Em 1790, a população da vila é de 7.225 habitantes sendo 4.898 escravos, o que equivalia a 67,5% da população da capital. Esse número expressivo de escravos, que valiam até 800$000 ( oitocentos mil reis), demonstra que existem fortunas significativas na cidade de Vitória, pois possuí-los demanda capital.
[...] Posse de escravo era sempre indicio de prosperidade. Assim, no fim do século dezoito, a cidade é pobre mas a população remediada. Importam-se mercadorias no valor de 21:267$840 [contos de reis], e exportam-se 45:668$480, saldo belíssimo , senão em valor, em percentagem altamente abonadora. A maior parcela de importados é de tecidos:[...] panos de linho, cambraias e sedas. Segue-se o sal, monopólio da Coroa, [...]; e o vinho a 76$800 a pipa, num total de [...] 16 pipas, [..].

Panorama Geral da Província do Espírito Santo no século XIX.
As administrações que geriram o Espírito Santo no século XVIII, e durante o Império, podem ser classificadas de desastrosas, mas não se diferenciam das outras partes do país, onde o poder centralizado nas mãos dos capitães/governadores era total, embora o desconhecimento sobre o espaço administrado fosse um fato.
Apesar de alguns presidentes da província do Espírito Santo escolhidos pelo governo imperial, serem nomes importantes da história política brasileira,nenhum deles foi capixaba, eles não se destacaram pelas atuações em terras capixabas.
[...] Antonio Pires da Silva Pontes Leme fora nomeado [...] por proteção de D. Rodrigo, Conde de Linhares. [...] Tinha a mania de retirar os agricultores de suas terras para retê-los por meses inteiros na Vila de Vitória, a fim de exercitá-los em serviço militar [...]. Francisco Alberto Rubim [...] mas, se tal administração foi brilhante, deixou de ser de acordo com as Leis do Estado e os princípios de uma economia sábia. [...] Em seu governo, proibiu vender algodão com semente e arroz com casca. Por fim, o que parece quase incrível, a farinha de mandioca, colhida em arrabalde da Vila da Vitória, foi taxada em 2 cruzados por alqueire, enquanto a de outros distritos da capitania ou de províncias vizinhas podia ser vendida a preços especulativos.
A essa afirmativa somava-se a alta rotatividade dos presidentes nomeados para o Espírito Santo, fato que ocorreu também em outras províncias, com a exceção do Rio de Janeiro. Nos 65 anos de administração imperial, acumulamos 100 governantes, entre Presidentes e Vice-presidente, a frente da Província, o que representa tempo médio de pouco mais de um ano para as gestões. A inferência lógica é que nesse escasso tempo frente ao poder provincial, era praticamente impossível administrar ou gerir projetos, no sentido de fazer progredir a Província capixaba.
Isto posto, quero insistir na questão política para refletir, sob seu foco, a trajetória da província no período imperial, reconhecendo o peso de tal questão na nossa trajetória. O que falar, por exemplo, dos eleitos pela província para a representação na Corte? Resguardadas as peculiaridades das eleições no período imperial, onde as províncias elegem candidatos nacionais para a Câmara dos Deputados e o Senado é vitalício, a maior parte da leitura da historiografia local comungou que os deputados eleitos pela província e os seus senadores, praticamente nada fizeram por ela.
A pequena densidade demográfica e o mutismo da bancada, nas duas câmaras do Império, não intimidavam os ministérios. José Bernardino Batista Pereira, deputado pela Província, em 1828 foi feito ministro da Fazenda; nem, ao menos, melhorou a dotação orçamentária para as necessidades primárias da unidade que o elegera.
Essas observações têm sido entendidas como uma vulnerabilidade política local, até os dias de hoje. Acredito, no entanto, muito mais na dialética da ambigüidade da elite política capixaba que sempre soube muito bem conciliar com o poder central. Observemos ainda o que reflete Evaldo Cabral de Mello sobre a política imperial:
[...] Dada a natureza inautêntica do nosso sistema representativo, as reivindicações regionais visavam, sobretudo o rateio dos cargos ministeriais. [...]. Reivindicar publicamente interesses regionais ou provinciais era um comportamento que raiava à obscenidade e que podia comprometer as ambições de carreira. O político da monarquia timbrava, por conseguinte, em projetar a imagem de estadista nacional, pairando acima do que pejorativamente era designado por “bairrismo”, para em teoria só enxergar os interesses superiores do país. [...]
Desse modo, a política imperial refletida no projeto político centralizador do Império, marcou a predominância do nacional sobre o regional, nacional esse representado pelo centro geográfico do poder, a cidade do Rio de Janeiro.
No século XVIII, a Coroa reforça o poder político do Rio de Janeiro com medidas legislativas que beneficiam a cidade e seu desenvolvimento, exatamente ao contrário da política adotada para o Espírito Santo.
Se a ocupação da Capitania do Rio de Janeiro nos dois primeiros séculos se restringira praticamente à baixada, o descobrimento das minas no centro do território possibilitou o inicio do povoamento do seu interior, no decorrer do século XVIII.
De um lado, ocorreu o crescimento da cidade [...], tornada centro polarizador também da região mineradora por determinação régia. A abertura do “Caminho Novo” por Garcia Rodrigues Pais, no inicio do século, permitia a cidade exercer sua função de escoadouro da produção dos centros mineradores, ao mesmo tempo que a de porta de ingresso dos artigos vindos do exterior.
Do outro lado, a abertura do novo roteiro até as minas e o surgimento de suas variantes permitiram o rompimento da barreira da serra, que parecia aprisionar os grupos humanos no litoral, e a intensificação do povoamento da parte central do interior da capitania.
A Vila da Vitória, que se tornaria cidade em 18 de março de 1823, foi mostrada como uma vila inexpressiva, principalmente nos relatos dos Presidentes de Província, que tinham interesse em conseguir cada vez maior numerário, para implementar as políticas pessoais de administração do espaço capixaba, ou simplesmente alavancar suas carreiras políticas.
Cabe ressaltar, como argutamente o fez José Teixeira de Oliveira, que dois anos depois, em oficio datado de 12 de abril de 1826, enviado ao Ministro José Feliciano Fernandes Pinheiro, o mesmo presidente relatou a grande produção de mandioca na província, principalmente em São Mateus e a ajuda prestada no fornecimento de farinha as províncias do Norte, que passavam por período de seca.
Cabe-nos refletir, que os padrões de cidade utilizados para essas comparações seguem o tipo europeu, ou a cidade do Rio de Janeiro, o que nos colocava sempre, ou a outra qualquer vila brasileira, em desvantagem.
Embora essa visão depreciativa sobre Vitória seja regra, existem exceções. Mesmo aos europeus, na primeira década do século XIX, as considerações sobre a cidade demonstravam ambigüidades, relatando regularidade no bem estar da população apesar do signo de decadência.
Aqui, entretanto, não se vêem casas abandonadas ou semi-abandonadas, como na maioria das cidades de Minas Gerais. Dedicados à agricultura, ou a um comércio regularmente estabelecido, os habitantes da Vila de Vitória não estão sujeitos aos mesmos reveses dos cavadores de ouro e não tem motivo para abandonar sua terra natal. Cuidam bem de preparar e embelezar suas casas. Considerável número delas tem um ou dois andares. Algumas têm janelas com vidraças e lindas varandas trabalhadas na Europa. [...] Há, na Vila da Vitória, algumas fontes públicas, que também não concorrem para embelezar a cidade, mas, pelo menos, fornecem aos habitantes água de excelente qualidade (grifos meus).
Podemos afirmar que, no inicio do período imperial, a vida em Vitória seguiu a dos núcleos urbanos do interior brasileiro, como pude constatar na descrição dos viajantes estrangeiros, da primeira metade do século XIX,
[...] caracterizava-se por um aspecto descuidado, sendo imprecisos os limites entre a zona rural e urbana. Boa parte da população vivia em chácaras cujos limites chegavam à cidade. A maioria das casas era construída de taipa, segundo a tradição colonial [...] Nas cidades do interior os únicos edifícios dignos de registro eram as igrejas e conventos (grifo meu), e mais raramente os edifícios da Câmara e cadeia [...] Dada a falta de esgotos, os dejetos eram despejados nos ribeirões ou no mar [...] Apenas nas cidades mais importantes havia assistência hospitalar e essa era, em geral, fornecida pelas Santas Casas, instituições religiosas filantrópicas, de caráter paternalista, inspiradas na tradição de caridade cristã, típica do catolicismo. Entre seus patrocinadores figuravam representantes dos setores mais ilustres da sociedade local que a amparavam através de doações pessoais ou subvenções estatais, obtidas graças ao seu prestígio junto ao governo (grifo meu) [...].
Impressionante, no entanto, foi o relato que reproduzimos a seguir, de obra que se propôs realizar a história da Ilha, em referência a primeira metade do século XIX, e que representava bem, a falta de um olhar mais amplo e cientifico sobre as condições urbanísticas das cidades brasileiras de então.
Vitória foi tipicamente cidade colonial portuguêsa. [...] Como moravam mal os capixabas, como se submetiam pacificamente aos azitumes descritos pelas mulas em suas caminhadas obrigatórias! A geometria só apareceu com a República. [...] Raríssimas casas tinham janelas em todas as peças. [...] Uma ou outra tinham sacadas guarnecidas de gradis de ferro batido, apainelados, cujos parapeitos se rematavam com pinhas de vidros coloridos. [...] Cidade suja, sem esgotos, as fezes eram guardadas em tonéis de madeira à espera do despejo, à noite. [...] A fama da cidade suja deslustrou, por muitos anos, o nome da capital e do estado. A pobreza havia crescido assustadoramente (grifo meu).
A elite capixaba e seus filhos, na maior parte formados nas escolas e faculdades da cidade do Rio de Janeiro, partem dessa cidade, capital do Reino Unido e depois do Império, para estabelecer comparações com Vitória, muitas vezes “cegos” a real situação da cidade carioca, deslumbrados com o aparato das celebrações teatrais da Corte e do Império.
Para estabelecermos comparações mais pertinentes apreciemos então uma descrição, do inicio do século XIX, da sede do governo do Estado do Brasil.
Do Rio de Janeiro, [...], pode-se dizer que preservava as características de uma quase aldeia ao encerrar-se o período colonial. Ruas estreitas, escuras, e sujas; não havia remoção de lixo, sistemas de esgoto, qualquer noção de higiene pública. As casas eram térreas em sua maioria, [...] Obras públicas, somente o passeio público e o Aqueduto da Carioca.
As diferenças com a paisagem do Rio de Janeiro se aprofundaram a partir de 1840, devido a fatores que se somaram em prol do desenvolvimento da capital do Império. Iniciou-se com a comercialização do ouro e concretizou-se com a vinda da família real, a proclamação da Independência pelo Príncipe Regente, que deslocou todo eixo político para o centro-sul, a produção cafeeira e sua transformação em principal porto do Brasil. São 266 mil habitantes, no final da década de 1840, que desfrutavam de faculdades, teatros com apresentações de companhias internacionais, uma vida cultural diversificada e europeizada, mercado interno consumidor representativo e o maior centro de exportações e importações do país.
Reforçando essa representação, referencio-me a Luiz Felipe de Alencastro , que mostra o Rio de Janeiro como padrão comportamental para todo o Brasil, na transição dos séculos XIX e XX, destacando a organização espacial e política da capital, o crescimento da burocracia imperial, o estabelecimento das câmaras, juizados municipais e a própria indicação dos presidentes de províncias, auxiliando na centralização do poder na região fluminense.

Entre a diversidade regional esboçada nas diferentes partes da Colônia desde o Seiscentos e a influência estrangeira continuamente manifestada após a abertura dos portos em 1808, o Rio de Janeiro funciona como uma grande eclusa, recanalizando os fluxos externos e acomodando os regionalismos num quadro mais amplo, pela primeira vez verdadeiramente nacional. Para se ter uma idéia da densidade de atividades concentradas na cidade do Rio de Janeiro, considere-se que sua renda tributária municipal – referente aos impostos e taxas recolhidos pela Câmara – superava, em 1858, a renda municipal do conjunto de cidades de qualquer uma das vinte províncias do Império.
A questão da preponderância comercial também contribuiu para que aprofundássemos nossas diferenças com a capital da Província. Apesar de reconhecidamente termos um porto natural na cidade, havia necessidade de obras para a ampliação do calado do mesmo, obras essas que só ocorreram na República.
Entre 1830 e 1840 as condições das estradas da Província eram péssimas, e em 1836 a estrada Geral, litorânea que ligava Vitória ao Rio de Janeiro e Bahia, parecia um grande atoleiro quase intransitável “entorpecendo a marcha dos viajantes e estafetas”.
Esses fatores contribuíram para que todo o comércio exterior da província tivesse a intermediação da capital do Reino e a produção cafeeira, principal produto capixaba a partir de 1850, fosse comercializado pagando impostos na praça do Rio de Janeiro, resultando daí evasão de nossas divisas.
O comércio se fazia quase que exclusivamente com o Rio de janeiro. Por intermédio dessa praça, a Província importava os artigos estrangeiros de que necessitava. Escoavam-se por ela, também, para além-mar, os produtos de sua lavoura.
A Província estava unida aos distritos de Campos formando uma Comarca corrigida pelo Ouvidor desta, desde 1741, o que reforçava nossa dependência, colocando-nos sob a jurisdição judicial campista.
A exportação tinha na farinha de mandioca, gênero de consumo exclusivamente interno, seu principal produto, representando 61,4% do total; além dela, o açúcar, 16%, fio de algodão, 7,3%, e outros produtos como arroz, cachaça, feijão, milho, cal, colchas e redes, com cifras pouco significativas no total geral das exportações.
A província importava desde o sal, farinha de trigo, telhas e tijolos, até carne seca, marmelada, velas de sebo e drogas para as boticas. Essa relação estabelecida entre as exportações e importações colocava o Espírito Santo fora das condições mercantilistas de desenvolvimento, já que nossa balança comercial era desfavorável, o que acabava caracterizando a nossa vida colonial e provincial como fracassada e atrasada.
A evolução educacional era lenta, o que restringia a vida cultural capixaba, e afastava a elite em formação que enviava seus filhos para estudar em Coimbra, Salvador ou Rio de Janeiro, propiciando a essa um maior envolvimento com problemas gerais e nacionais, do que com as questões locais.
Em 1856, a realidade da província já demonstrava as mudanças produzidas pela expansão da cultura do café. A população escrava que se mostrou decadente nos primeiros anos do século XIX, sofreu aumento considerável na região de Cachoeiro de Itapemirim, - 23,7% do total da província em 1824 - passou para 35,7% em 1856, tornando-se o maior núcleo escravo do Espírito Santo, enquanto a capital perdeu sua hegemonia populacional e econômica.
Enquanto, no Rio de Janeiro, o café reforçou e ampliou a infra-estrutura da cidade e de seus arredores, melhorando o sistema de meios de comunicação para escoamento das produções da baixada fluminense e outras áreas interioranas; no Espírito Santo, o crescimento da rubiácea na região sul, fragilizou a posição da capital.
Em muitos momentos, diversos grupos políticos defenderam a transferência da capital para Cachoeiro do Itapemirim, que possuía laços estreitos com a capital do Império, o que lhe valeu a primeira estrada de ferro da província, sendo também a primeira cidade a ter luz elétrica.

As condições urbanísticas da Vila de Vitória no século XIX.
A capitania do Espírito Santo, ainda sob a jurisdição da Bahia, da qual nos separaríamos em 1810, retomando nossa “independência”, recebeu em 29 de março de 1800, o seu novo governador, Antonio Pires da Silva Pontes Paes Leme e Camargo, nomeado desde 1797.Silva Pontes era mineiro e inaugurou uma série de administrações regidas por oficiais superiores do exército.
Seu governo foi marcado pela assinatura do auto de demarcação entre o Espírito Santo e Minas Gerais, em 8 de outubro de 1800, o que ressalta a sua presteza administrativa, em colocar em ação a política da Coroa, comandada por D. Rodrigo de Souza Coutinho, de navegação do Rio de Doce.
Por essa extrema dedicação ao projeto da Coroa, Silva Pontes não se preocupou com a capital e sim com sua ligação com a área norte, sua área de atuação, construindo a primeira ligação da ilha com o continente, a ponte da passagem. Na época um pontilhão construído com mão de obra indígena, a base de pegões de alvenaria.
A partir do governo Silva Pontes, até o advento da República, a historiografia capixaba ressalta a ação do Governador Francisco Alberto Rubim, que governou de 1812 a 1819.
Rubim, nas suas “Memórias”, deixou-nos excelente descrição da província. a descrição inicial é só elogio a situação da ilha.
Sua principal villa é a da Victória, cabeça da comarca, tem seu assento em uma ilha montuosa quase duas legoas da barra, dentro forma uma bahia estreita, mas capaz de navios grandes, na entrada 5, 6, 7 braças, mais dentro 5, e acima da villa junto à ilha do Príncipe [ designação dada em 1860 em homenagem a Pedro II] onde está a casa de pólvora 30, e 40 braças. Seus ares são benignos, o terreno, fértil, produz todos os gêneros propícios do reino, e da Europa [...]; dez rios principais banhão seu terreno; os campos são alegres; as matas ricas de toda qualidade de madeiras de lei,[...].
Dentre suas principais obras constam a estrado do Rubim, que ligava Vitória a Vila Rica e só foi inaugurada em 1820, depois de sua saída do governo; a desobstrução do canal de Camboapina, construído pelos jesuítas para ligar a baia de Vitória com o Rio Jucu; restauração da Santa Casa de Misericórdia de Vitória ; locação de um boticário licenciado em Vitória e melhoramento dos cais da capital como o Cais Novo das Colunas, abaixo do palácio do governo, o do Azambuja, o cais Grande, para atracação das sumacas, o do Santíssimo, o do Batalha e o porto dos Padres, atrás do palácio do governo na atual General Osório.

Com a proclamação da Independência em 1822, novas instâncias passam a cuidar dos destinos das vilas e cidades. Em Vitória, a Câmara Municipal assume o poder de reguladora e inspetora das obras existentes e por fazer. Surge a necessidade de estabelecer novos limites entre os municípios para a cobrança regular de impostos e também para estabelecimento das políticas públicas. As rendas e despesas das Câmaras municipais eram controladas e aprovadas pelas Assembléias Legislativas Provinciais, criadas pelo Ato adicional, em 1834. No Espírito Santo, a Assembléia teve sua primeira sessão em 1835, presidida pelo padre João Clímaco.

A REVOLTA DE QUEIMADO

Em 19 de março de 1849, ocorre no Distrito de Queimado (atual município da Serra), o maior movimento de revolta escrava negra do Espírito Santo.

O Distrito de Queimado era ocupado por fazendas tradicionais na produção de cana de açúcar, depois de café, com mão de obra exclusivamente escrava. A região era expressiva economicamente também por possuir um dos portos fluviais mais importantes da região central de Vitória, localizado no Rio Santa Maria da Vitória, e que fazia o transporte de mercadorias da região interiorana do atual município da Serra e arredores para a cidade de Vitória.

Registra-se que durante a construção da igreja houve um recrutamento de escravos para o trabalho de construção, correndo entre os negros “a boca miúda” que no dia da inauguração da igreja seria concedida a tão sonhada liberdade. Na ocasião de sua inauguração, entretanto, verificou-se um movimento dos escravos sob alegação do descumprimento da promessa da alforria, negada com determinação pelo pároco, como podemos comprovar na carta publicada, do próprio a imprensa da época.

A historiografia tradicional capixaba, seguindo os passos da brasileira, trabalhou, na generalidade, com a idéia de que o movimento escravo de Queimado teria sido protagonizado pelo Frei Gregório de Bene, então pároco do distrito, que teria prometido aos escravos a liberdade em troca da construção da Igreja. A nova História, em releitura a documentação de época e a obra de Afonso Cláudio, “Insurreição de Queimado”, considera que o movimento foi protagonizado pelos negros capixabas, na liderança de Elisiário, João da Viúva e Chico Prego.
a Revolta de Queimado tornou-se um marco de memória no Espírito Santo por meio da obra de Afonso Cláudio e recebe atualmente grande atenção por parte, principalmente, do movimento negro enquanto referência da resistência política negra no séc. XIX.
IMIGRAÇÃO ESTRANGEIRA NO ESPÍRITO SANTO

A experiência inicial de imigração estrangeira para o ES foi feita com açorianos, em Viana, com a instalação da colônia em 15 de fevereiro de 1813. Esse primeiro processo imigratório foi incentivado por D. João,e trouxe para o ES 30 casais que se instalaram na região conhecida como sertão de Santo Agostinho.

O processo imigratório no estado foi caracterizado pela presença dos Núcleos Coloniais, localizados, principalmente, na região central de Vitória, em terrenos de serra, que não interessavam aos grandes proprietários.

Um dos fatos mais importantes para a província, à visita de Pedro II a Vitória, em 1860, provocou modificações na cidade. O porto dos padres e o cais das Colunas foram remodelados e ampliados, as ruas e becos foram limpos, os moradores caiaram suas casas, adquiriram mobílias novas, enfeitaram suas fachadas, o palácio do governo foi restaurado para receber sua majestade imperial.

No dia 16 de Novembro de 1878, é inaugurado o Gasômetro e estabelecida a iluminação particular, a gás, da capital. Em 1° de Março de 1879 festeja-se a iluminação pública e a gás em toda a cidade de Vitória.

A cidade de Vitória na Primeira República: a modernidade bate a nossa porta.
Antes de caracterizar a cidade de Vitória em fins do século XIX, talvez seja mais importante definir o significado das cidades em tal época, conceituar o papel exercido por elas na dinâmica da vida política, econômica e social do período.
O entendimento da vida urbana compreendida entre o período colonial e a industrialização brasileira deve ser feito considerando que essas cidades não podem ser observadas isoladamente e sim vistas em íntimo contato com a sua hinterland e com o mercado externo consumidor.
A República como nova forma de organização política esteve em uma perspectiva modernizadora, entretanto também foi em si a base da estruturação do regionalismo nacional, ou seja, uma República Federalista que possibilitou a ascensão das oligarquias ao poder; Positivista porque negava a ampla cidadania política aos brasileiros em face de restrições de sua Constituição, assegurando via mecanismos de dependência política – o coronelismo – o funcionamento e a manutenção da aristocracia rural nas cúpulas das decisões políticas nacionais, acentuando a hegemonia de regiões de maior poder econômico, cujo desenvolvimento das lavouras de café asseguravam o acúmulo de capital necessário à manutenção do poder e da convergência política na direção de regiões e interesses específicos.
A busca pela modernização em prol da inserção na economia mundial resultou em adoção de novas concepções não somente econômicas, mas também socioculturais, tendo a urbanização como comprovação prática da adoção da nova mentalidade capitalista, o que resultou em uma nova configuração do espaço físico das vilas e cidades.
As cidades possuíam uma função específica dentro da dinâmica colocada pelo sistema capitalista, apesar de não podermos assim definir o Brasil nos fins do século XIX, embora este esteja integrado ao mercado mundial
Está-se em presença de uma divisão internacional do trabalho, que produziu nas cidades [...] um setor de mercado externo, que se relaciona com a região que lhe é imediatamente subordinada, transferindo seus produtos primários à metrópole, ficando, assim, o desenvolvimento das cidades dependente da importância econômica de suas regiões.
Essas cidades, na sua generalidade, se caracterizavam como elos entre as suas regiões produtivas – a sua hinterland – e o mercado internacional. Eram cidades portos que realizavam o fluxo de exportação/importação em suas áreas de influência. Por seus portos eram exportados os produtos agrícolas das fazendas da região e importadas as mercadorias européias para atender a demanda local. “As cidades nesse período são, portanto, o resultado das relações que se dão através da sua mediação entre, de um lado, o campo economicamente produtivo e, de outro, a metrópole estrangeira” .
Os ícones e representações da modernidade estiveram filiados à construção de uma ordem triunfante de progresso no país, onde o conceito de progresso traduz padrões e modelos civilizatórios europeus e norte-americanos, países já industrializados e em franco desenvolvimento tecnológico, o que nos acarretava, sempre, comparações desmerecedoras e colocadas no âmbito da dependência.
O que se notava na atuação dos primeiros presidentes civis [...], bem como de seu circulo político-administrativo, era o evidente esforço para forjar um Estado-Nação moderno no Brasil, eficaz diante das novas vicissitudes históricas como seus modelos europeus.
A República também representou uma nova configuração na organização administrativa no Brasil. Com a criação do sistema federalista, as antigas províncias tornam-se estados. As municipalidades passam a contar, em algumas cidades, com uma prefeitura.
Em Vitória cria-se o Conselho Municipal em 1893, a partir da Constituição Estadual de 1892, sendo formado por nove membros que recebem o titulo de governadores.O Conselho seguia um regimento interno de 24/01/1893 e pelo Decreto nº. 05 de 23/01/1893 destinou 48% de seu orçamento, extraído da regulamentação da cobrança de imposto predial, para as obras públicas. O presidente do Conselho funcionava como poder também executor, acumulando o cargo de prefeito ainda inexistente.
O Conselho Municipal também organiza serviço de limpeza pública e coleta domiciliar de lixo, além do saneamento de valas e banhados, ordenação do abastecimento de carnes, melhorias da Vila Rubim e, ainda, abre novos bairros como o loteamento do Campinho ( atual Parque Moscoso).
O processo urbano-modernizador de Vitória, considerando suas especificidades em relação ao Brasil e ao mundo, já que esse processo aqui inicialmente não esta associado a industrialização, apesar dos esforços de diversificação de Jerônimo Monteiro, esteve diretamente ligado a formação de uma praça comercial que convergisse para si a função de escoar a produção do café, não somente do estado mas também da área centro-oeste e de Minas.
E para que essa praça comercial fosse criada, o estado precisava sistematizar as políticas urbanizadoras e a gestão das demandas municipais com maior agilidade e via centralização político administrativa. Tal demanda consubstanciou-se na criação do órgão gestor da modernização paisagística da capital do estado, a prefeitura de Vitória, em 1908. Em resumo, a política urbanizadora capixaba centralizou suas ações na capital, tendo nos governos Moniz Freire, Jerônimo Monteiro e Florentino Avidos, seus principais executores.
O conceito de modernização das cidades dos políticos capixabas no início do século XX esteve voltado para o paisagismo e a salubridade, condições básicas para o novo status citadino, influenciado pelo crescimento da área da saúde e higiene pública. A cidade, no nosso caso Vitória, para as elites dirigentes do país e do estado era, parafraseando Jerônimo Monteiro, “a sala de visitas” do Espírito Santo.
Outra constatação importante para se entender a constituição urbana de Vitória é a sua função burocrático-administrativa. Antes da efetiva consolidação de sua região produtiva na área serrana do interior, a cidade se notabilizava por sua função política de sede administrativa da Província do Espírito Santo. “Fica implícita, nesta colocação, a outra facies da cidade, [...] vista como locus da autoridade político-administrativa ou [...] sede da burocracia do Governo” .
A dinâmica política, econômica e social de Vitória girou em torno dessa face burocrática por um longo período de sua história. Mesmo que tentativas de fazendas e aldeamentos jesuíticos tivessem tido relativo sucesso na Capitania, após a expulsão dos padres da Companhia de Jesus (no século XVIII) até os primeiros anos da República (no final do século XIX) a vida urbana da capital esteve ligada, essencialmente, a esse aparato governamental .
Este quadro, contudo, toma outro rumo quando se ampliam as atividades do comércio, em razão da expansão da lavoura cafeeira na região produtiva de Vitória . Esta região – ocupada em grande parte por imigrantes europeus e baseada na pequena propriedade de mão-de-obra familiar – torna-se uma importante produtora de café, chegando a se responsabilizar por até 40 por cento da safra provincial.
É o primeiro boom do café, período no qual a cidade de Vitória experimenta um relativo desenvolvimento: prosperam as casas comerciais estrangeiras e nacionais, incrementa-se a vida urbana da cidade. “Assim, instalou-se na capital um variado número de lojas comerciais, abriu-se espaço para o consumo de mercadorias importadas e incrementou-se o sistema de navegação” .
Entretanto, mesmo com esse relativo desenvolvimento comercial, Vitória não abrigava uma população superior a 10 mil habitantes no início do período republicano. Era uma cidade pequena e circunscrita à região central da ilha.
Entre os morros e o mar, essa pequena população urbana se exprimia no bairro que hoje é conhecido como Centro. Em seu redor, situavam-se várias fazendas; as de Santo Antônio, Maruípe e Jucutuquara . Por fim, ao norte da ilha localizava-se a região das praias: local ermo, desabitado e de difícil acesso .
O primeiro presidente eleito da província, Muniz Freire ( 1892 a 1894), tinha como prioridade no seu governo “... transformar Vitória numa grande praça comercial.” . Os planos munistas pretendiam transformar o Espírito Santo, reelaborar a organização espacial da província e centralizar os empreendimentos na capital , sendo que para tanto também previa a reestruturação da rede ferroviária para ligar as regiões produtoras à capital e a (re)construção do porto na cidade de Vitória, com capacidade de competir com os outros centros exportadores e visando melhor assimilação da demanda prevista. Estas ações apresentariam Vitória como um moderno centro econômico. Em suma, intentava-se transformar Vitória num grande centro populoso e centralizador de todo o comércio de exportação/importação do Estado – especialmente do café, nosso principal produto na época .
O intuito de conferir à Vitória um caráter moderno, em negação inclusive à sua origem colonial, revelou-se ainda no século XIX, com o projeto de um Novo Arrabalde, desenvolvido pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, correspondendo a uma expansão que, quintuplicava a área urbana da época.

Todavia crises financeiras relacionadas à comercialização do café inviabilizaram a urbanização imediata da área e contribuíram para a retomada de investimentos públicos de menor porte sobre o próprio núcleo urbano existente ou sobre sua extensão em área contígua.

Nesses termos, a modernização da capital capixaba iniciou-se propriamente durante o governo de Jerônimo Monteiro, entre 1908 e 1912. Nesse período têm-se um programa de urbanização voltado para mudanças estruturais como drenagem, aterros, cemitério público, matadouro municipal, lavanderias, ampliação de ruas, demolição de casario antigo e construção de novos prédios . Além da construção do primeiro parque público, “[...]Vitória recebia as mais importantes obras de infra-estrutura urbana até então vistas na cidade: rede de água, esgotos, energia elétrica e a introdução do bonde elétrico”.

A criação da Prefeitura Municipal foi ação de compasso perfeito com as ações urbanísticas de Jerônimo.Criada em 14 de dezembro de 1908 pela Lei estadual nº. 582, teve como seu primeiro administrador o então Diretor de Viação e Obras Públicas, Ceciliano Abel de Almeida, pelo Decreto nº. 243 de 9 de fevereiro de 1909. Assim a cidade deixa de ser gerida pelo Intendente Municipal e passa a ser governada pelo prefeito.

Nesse período a criação da prefeitura, pelo governo estadual, representou uma ampliação dos espaços de poder e das formas de acumulo de receita através dos impostos recém criados. Presidente do Estado e Prefeito da Capital falavam a mesma língua e tinham os mesmos projetos de modernização para a cidade.

A prefeitura tinha um quadro organizacional estabelecido em três seções: Procuradoria Geral, Hygiene Pública e Obras e Viação. Contava com o apoio do Conselho Municipal que foi mantido mesmo depois da criação da prefeitura.

A prefeitura municipal foi criada para sistematizar políticas e gerir demandas emergenciais de legislação, orçamento, higiene pública e construções como arruamentos, demolições, aterros e drenagens, por isso seu organograma geral na fase inicial, de 1908 a 1912, não se fez complexo. Teve como objetivo dinamizar a gestão municipal, voltada especificamente para administrar aquilo que pretendia o governo estadual.

Nas décadas seguintes, em continuidade a esse processo, foi desenvolvida uma série de projetos urbanísticos, planos e obras públicas com a intenção de retificar, ampliar e alongar percursos, além de criar novos espaços públicos sobre o traçado colonial da cidade ou em seu prolongamento. As transformações urbanas em Vitória, que ocorreram nas primeiras décadas do século XX foram motivadas

[...]muito mais pelo pensamento de progresso da elite dominante que assumiu o poder na República e pelo desejo de romper com um passado considerado vergonhoso, do que propriamente pela procura de soluções para dotar a cidade de melhorias para a vida de sua população. [...] Assim, no governo de Jerônimo Monteiro, as necessidades de mudanças na cidade encontraram eco no pensamento da elite dirigente do Estado.
O Espírito Santo passou a discutir sérios projetos de desenvolvimento com a nomeação e eleição de Presidentes de Estado nascidos capixabas, ou como no caso de Florentino Avidos, envolvidos seriamente com os destinos regionais. Discutiam-se os rumos futuros a seguir e os projetos de desenvolvimento regional. O quadriênio que vai de 1924 a 1928 é especialmente profícuo neste sentido. Refere-se aos anos do governo de Florentino Avidos.
Vários foram os projetos políticos que envolveram o desenvolvimento do porto de Vitória, crucial na independência comercial do estado do Rio de Janeiro, que realiza pelo seu porto a exportação de grande parte do café produzido na região sul capixaba, que tinha a cidade de Cachoeiro do Itapemirim como seu centro econômico.

Os estudos de engenharia para a ampliação, melhoramento e eficácia do Porto na área da capital remontam a 1881, quando a utilização do porto natural estrangulava o crescimento pretendido pelas elites políticas para o Espírito Santo, pois os navios estacionavam ao largo sem piers de atracação o que atrasava e limitava a quantidade de produtos comercializados pelo porto de Vitória.

Os diversos estudos que se sucederam, sempre com envolvimento do Governo Federal, mostravam duas possibilidades de instalação: o lado continental, mais profundo e de mais fácil acessibilidade para os meios de transporte e o lado insular, que apesar de ser menos profundo tinha o fundo de rocha, que tornava a obra mais econômica.

Apesar da construção das estações das estradas de ferro Sul do Espírito Santo, em 1895, e da Vitória Minas, em 1902, o que reforçava a corrente dos favoráveis a construção do porto no continente, os políticos capixabas optaram pela construção na parte insular.

Essa opção política se esboçava desde o império com o fortalecimento da elite local que se esforçava em conseguir sua independência comercial do Rio de Janeiro e que sabia que isso só aconteceria com a construção de um porto que colocasse nossa produção agrícola no mercado internacional.
A ilha era o ponto estratégico para a construção do porto, porque os governos capixabas pensavam em desenvolver a capital e ampliar o sítio urbano da cidade, e Vitória como capital já tinha estrutura comercial local. [...] Um porto traz conceitos e tradições de negociações; esta tradição divulga o porto e consequentemente a cidade de origem. [...] Na época, a localização do porto em Vitória representava um impulso sócio-econômico para a capital.

A Companhia Porto de Vitória, em 1906, recebeu a concessão do Governo Federal para efetuar novos estudos e organizar um novo projeto com o porto sendo construído em Vitória. Esse novo projeto, de responsabilidade do engenheiro Emílio Schnoor, previa o aprofundamento da parte do ancoradouro, pensando no futuro do aumento do calado das embarcações, e na construção da ligação entre Vitória e o continente, uma ponte que permitiria o fluxo desejado para alimentar de produtos o novo porto.

Nesse novo plano de obras, aprovado pelo decreto nº. 7.994 de 12 de maio de 1910, a ponte teria seu inicio na linha ligando o extremo do cais do porto na Avenida Schmidt à ilha do Príncipe, contornando esta pelo seu lado extremo leste e deste ponto, ao continente, próximo a estação de ferro Vitória a Minas.
As obras iniciadas no governo Jerônimo Monteiro (1908 a 1912) em 1911, foram paralisadas em 1914, devido a Primeira Guerra Mundial, sem qualquer tentativa de construção da ponte de ligação entre Vitória e o continente.

Finalmente, no governo Nestor Gomes (1920 a 1924), foram retomadas as negociações autorizando o Governo da União a encampar a antiga concessão da Companhia Porto de Victória, e a contratar com o governo do estado do Espírito Santo a execução e exploração do porto.

Cabe-nos aqui fazer algumas considerações sobre a importância política da eleição de Florentino Avidos, pois foi através do peso político de seu governo, que tantas e tamanhas obras puderam granjear o apoio do governo federal e serem efetivamente construídas.

A escolha do nome de Nestor Gomes para candidato ao governo do Estado no período de 1920 a 1924, colocou em choque direto as duas grandes lideranças políticas da Primeira República em terras capixabas.

Jerônimo Monteiro, que tinha sido Presidente do Estado entre 1908 a 1912, disputava com seu irmão Bernardino Monteiro, também presidente entre 1916 a 1920, a direção política capixaba. A eleição de Nestor Gomes representou a vitória da corrente de Bernardino, colocando Jerônimo na oposição, o que dificultou a execução de muitos projetos nesse período, pela grande projeção política que tinha Jerônimo Monteiro.

Com a aproximação das eleições de 1924 a cisão entre os irmãos Monteiro se ampliava colocando em risco os projetos de desenvolvimento da capital e do próprio estado do Espírito Santo. O nome de Florentino Avidos, cunhado dos irmãos Monteiro, representou a PAZ entre as correntes divergentes.
O engenheiro Florentino Avidos ascendeu ao governo do Espírito santo debaixo da maior expectativa popular. Seu nome polarizou as três correntes da política estadual: Jeronimistas, Bernardinistas e Pinheiristas. [...] Nestor Gomes, pomo da discórdia, teve a inteligência e o bom senso de devolver a política do Estado à família Monteiro, sem que houvesse perturbação da paz. Florentino Avidos, estranho as lutas políticas da família, exercia suas atividades no Ministério da Agricultura, fora do estado quando foi requisitado para dirigir os “Serviços de melhoramento de Vitória” (no governo Nestor Gomes). Era alheio aos negócios do Espírito Santo e, praticamente, afastado da influência política de seus cunhados. Teve, portanto, independência absoluta para governar acima dos partidos. E governou.

O depoimento de Derenzi marca a tranqüilidade que o governador Florentino Avidos teve entre as oposições para governar. Ele conseguiu com seus projetos agradar a elite política do estado, nas suas funções agrícola e exportadora.

O novo contrato então tratado entre o Governo do Estado e o Governo Federal na gestão Nestor Gomes, só veio a ser entregue ao estado na gestão do governador Florentino Avidos, em 7 de setembro de 1925.

O novo projeto da ponte, parte integrante do novo projeto portuário, alterava-a significativamente, projetando-a para um uso mais duradouro e futuro.A ligação se daria, a partir do continente, pelos terrenos da firma A. Prado & Cia. ao extremo oeste da Ilha do Príncipe, contornando-a pelo seu lado oeste, atravessando o canal entre ela e Vitória na Vila Rubim, seguindo pela Avenida Cleto Nunes, contornando o morro da Santa Casa de Misericórdia saindo pelos fundos dos armazéns de café existentes no cais Schmidt e saindo no cais do porto.

A ponte Florentino Avidos permaneceu durante 50 anos como a única ligação entre Vitória e o continente pelo seu lado sul. Mesmo a ponte da Passagem, que liga Vitória ao continente pelo lado norte, nunca teve a magnitude da ponte metálica.

O volume de obras realizadas durante o quadriênio de Florentino, foi maior que o período de Jerônimo Monteiro. Para que o leitor tenha uma idéia do vulto de suas realizações colocamos no Anexo desse trabalho um Relatório da Comissão de Obras e serviços realizados, sendo que o seu Relatório Final de Governo é leitura obrigatória para quem quer aprofundar conhecimentos da cidade nessa época.

Vitória e as mudanças espaciais em busca da nova ordem da industrialização

Os anos 30 até 1943, período da Interventoria Punaro Bley, destacam-se os nomes de Mário Aristides Freire, Dr. Christiano Ferreira Fraga, Professor Fernando Duarte Rabelo, Secretários de Estado que contribuíram no campo das finanças, saúde e ensino, com construção de hospitais, escolas e outras obras de interesse estadual. Cabe-nos lembrar que Punaro Bley foi um excelente executor do planejamento nacional realizado por Getulio Vargas, que não olhava para Vitória em especial, mas sim para a função do estado do Espírito Santo na montagem da nova ordem política.

O número de edifícios aumenta e, também a atividade portuária, com a conclusão das obras do porto. A vida cultural se estabelece com o funcionamento do Teatro Carlos Gomes, dos cinemas e das praças.Os aterros se sucedem na ampliação da área habitável, e no saneamento de regiões interiores da ilha, sendo objeto de realização do Governo Estadual.

Ao primeiro importante aterro da ilha na área denominada “Campinho”, atual Parque Moscoso, durante o governo Jerônimo Monteiro, se sucederam muitos outros. No governo Florentino Avidos duas regiões foram aterradas no centro: próximo a Rua do Comércio, atual Florentino Avidos, entre a rua General Osório e a Vila Rubim, o que resultou numa área de quatro quarteirões apropriados ao mar. O outro aterro foi feito próximo ao Forte de São João, em direção ao atual Colégio salesiano e Av. Vitória, “abrindo caminho para a futura Av. Beira Mar.” No período da interventoria (1930 a 1943) aterrou-se parte da frente do Palácio para construção de armazém e abertura de ruas.

Nos anos 40, os aterros e a valorização das áreas urbanas da capital devido ao crescimento da população e do comércio incitam “diferenciações espaciais nas áreas centrais de Vitória com reflexo nos preços dos terrenos.” A região do atual Parque Moscoso é exemplo disso.

Foi onde primeiro começou a se evidenciar a diferenciação espacial, pois ali veio a predominar a localização de pessoas de maior renda daquele momento. A consolidação de sua ocupação ocorre nos anos 40 e se estende pelas ruas Dom Fernando, Padre Nóbrega e Uruguai.

Nesse período, a região do comércio ocupa espaço específico na cidade. Estendendo-se em linha reta nas proximidades do mar e do porto, o que facilitava o transporte de mercadorias, iniciava-se na antiga Rua da Alfândega, nas imediações do Prédio Nicolleti ( atual Glória), indo em direção ao Cais do Imperador, Rua 1º de Março, Rua do Comércio ( atual Florentino Avidos) e o Cais Schmith ( próximo hoje da Loja Dadalto da Florentino Avidos).

Jones dos Santos Neves ( 1950 a 1954), de forma mais objetiva que os anteriores, executou aterro destinado exclusivamente à implantação de edifícios.

ESPLANADA DA CAPIXABA - As obras da futura Esplanada da Capixaba constam o enrocamento para a contenção do aterro, assentamento de blocos de concreto ciclópitico e muro de acabamento numa extensão de cerca de 1.000 metros, com a dupla finalidade de corrigir o sistema de águas da bacia de evolução do Porto e conquistar para a cidade uma área edificável na continuidade da zona comercial de Vitória.
Será assim conquistada uma área de cerca de 96.000m², dos quais 48.000m² destinados à abertura de amplas vias públicas e os outros 48.000m² para edificação.
As atuais Avenidas Princesa Isabel e Getúlio Vargas se prolongarão, aquela [av. Princesa Isabel] galgando [sic] o Forte de São João, próximo ao Club [sic] Saldanha da Gama, esta [av. Princesa Isabel] ladeando-o e seguindo pela avenida que será lançada, pela Orla do Mar.

Os terrenos surgidos desse importante e grande aterro eram de propriedade do governo e foram doados para construção de prédios públicos, principalmente.

No entanto, somente na década de 1950 que se iniciou o processo de consolidação da ocupação da área, fortemente influenciada pelas melhorias nas condições de transporte coletivo, com a implantação de linha de ônibus, e com a ampliação de equipamentos complementares ao uso residencial, como a construção de escolas. Foi justamente nesse momento, que surgiram os primeiros edifícios de baixa altura nessa região da cidade, reservada pela elite local como “... alternativa ao Centro como moradia”.
Medidas básicas de saneamento, construção de parque público, praças, e de uma avenida principal, promovidas desde o início do século, culminaram, na década de 1940, com o fim das obras do porto e na década de 1950, com a realização do extenso aterro da Esplanada da Capixaba, em área contígua e inserida no ambiente geográfico do Centro.
Essas circunstâncias contribuem para o entendimento do surgimento da verticalização e sua concentração em determinado sítio. De fato, a Praça Costa Pereira, as proximidades do Parque Moscoso e a Avenida Florentino Avidos e adjacências são justamente os endereços dos primeiros edifícios com sete ou mais pavimentos em Vitória.
Ao tomar como base a maioria dos vinte e dois edifícios registrados no período, percebe-se que a origem da verticalização de Vitória relaciona-se ao uso residencial, mesmo considerando a característica comercial do Ed. Glória (Teatro Glória), de 1926, o primeiro
A despeito da insignificante participação do uso comercial dos edifícios construídos em Vitória até a década de 40, um amplo aterro feito entre 1951 e 1955, contíguo à Praça Costa Pereira, produziu a criação de um novo espaço caracterizado como comercial, projetado para receber somente edifícios e denominado Esplanada da Capixaba.
Com a produção desse novo espaço, o poder público mantém seu importante papel na atividade imobiliária, mas nesse caso, ao contrário do ocorrido em momento anterior, favorece a formação do mercado privado. A Esplanada da Capixaba torna-se então, não só um estímulo decisivo à verticalização, como também, à sua concentração na área central, durante seu desenvolvimento e expansão, nas décadas a seguir.
A Reorganização do Espaço Urbano nas novas demandas econômicas da capital.

Durante as décadas de 1960 e 1970, a Capital do Estado recebe novo impulso no desenvolvimento urbano, em conseqüência das novas demandas econômicas do estado e da infra-estrutura e logística de transporte que facilita o acesso a capital.

O papel histórico da cidade comercial e prestadora de serviços ganha uma outra dimensão. Deixa de absorver os efeitos da produção agrícola por intermédio apenas das cidades-pólos ( Colatina e Nova Venécia ao norte e Cachoeiro do Itapemirim ao sul) e passa, depois de 60, a receber diretamente de qualquer cidade do interior os seus impactos. Em outras palavras, as mudanças ocorridas no campo rompem o sistema de cidades então existente, dando maior convergência para Vitória. Convergência não só para atração de migrantes saídos do campo, como também para tornar Vitória um centro de informações e de decisões para todo o estado.

A década de 1960 marcou a consolidação da verticalização no centro bem como o crescimento do comércio nessa área. A principal conseqüência desse crescimento e a posterior exclusão dos pobres do centro da cidade foi o início das invasões das áreas de propriedade pública e privada normalmente próxima ao centro. Essas invasões provocaram uma ocupação desordenada que acabou contribuindo para a deterioração da vida urbana da cidade.
O centro, assim, com a desvalorização dos imóveis, decorrente desse processo, passa a ser local de moradia das classes média e baixa. A ocupação dos morros se acelera, bem como a transformação de muitos prédios em cortiços.
Paralelamente a essa ocupação desordenada ocorre a ocupação dos espaços livres do centro, pelo setor informal do comércio, formado pelos trabalhadores desempregados e subempregados que ficaram à margem do desenvolvimento do setor terciário no centro.

[...] Isso tudo repercute na saída do centro, da elite que ali residia e que se transfere para a ‘nova cidade’, construída pelo setor imobiliário na zona norte, junto às praias, que se torna a área nobre da cidade.
Ainda na segunda metade do século XX, a economia do Espírito Santo era totalmente centrada no café. Vale ressaltar que:
[...]por volta de 1950 a população urbana representava apenas 20% da população total do Estado e que só a partir dos anos 70 vai-se sobrepor à rural, vindo a representar 67% da população total em 1980.
No Espírito Santo não existia segundo produto que pudesse competir com o café, cultivado em grandes e pequenas propriedades, essas últimas com o trabalho familiar, e a produção destinada ao mercado externo.
Paralelamente à atividade agrícola, as indústrias do centro hegemônico do país buscavam novos mercados, produzindo implementos para modernização do campo. O consenso vigente acreditava que a agricultura "atrasada" constituía fator de entrave para o desenvolvimento. Era preciso, segundo esse pensamento corrente na época, modernizar o campo, seja com o uso de novas técnicas, isto é, desenvolvimentos de máquinas e insumos, seja promovendo mudanças nas relações de trabalho, para que se pudesse aspirar a qualquer alternativa de progresso.
No Espírito Santo as mudanças no campo não foram imediatas, nem ocorreram pelo intenso emprego das máquinas. O café aqui era plantado sem técnica (morro abaixo), era velho e de baixa produtividade. Com a crise nos preços internacionais do produto a partir de 1956, a política federal de erradicação dos cafezais, a primeira iniciada em 1962 e a segunda em 1966, teve grande aceitação no Estado, visto que ao produtor não restava alternativa.
A forma como era cultivado o café e os preços internacionais desfavoráveis acarretaram mudanças na agricultura capixaba. Foi no bojo dessa crise que se processaram mudanças no campo. O café deu lugar à pecuária, ao reflorestamento e mais tarde à cana-de-açúcar, que trouxeram concentração fundiária e mudanças nas relações de trabalho, com a criação de um acentuado êxodo rural.
Na cidade a alternativa perseguida para a recuperação econômica do Estado foi a via da industrialização.
Se, a partir da década de 60, se inicia a modernização do campo, a capital capixaba passa a ter acesso fácil e rápido com as demais cidades do país. Rompem-se os limites das fronteiras regionais. Vive-se o momento da instalação de empreendimentos de fora no Estado, seja do setor industrial, seja do comercial ou de prestação de serviços.
Nesse período, o Espírito Santo beneficia-se das propostas do II Plano Nacional de Desenvolvimento, de descentralização industrial, criado pelo governo federal, que tem como estratégia conter os fluxos migratórios para os grandes centros, industrializando as cidades de porte médio. As lideranças estaduais se articulam e conseguem atrair a implantação dos Grandes Projetos Industriais para a Grande Vitória.
As mudanças no campo, desencadeadas com a erradicação do café na década de 60, e o processo de industrialização iniciado a seguir, vão dar os traços do novo contexto que o Espírito Santo passa a viver.
A Grande Vitória se apresentou como alternativa mais viável, dentre as cidades do Estado, como opção de vida e oportunidade de trabalho para os que deixaram o campo e viram em busca dos empregos que seriam gerados pela produção industrial concentrada na Região Metropolitana de Vitória.
A ocupação paulatina dos morros centrais iniciada na década de 50, que são mais de 70% do território da ilha de Vitória, sofre um aumento vertiginoso nos anos 60, 70 e 80, com desmatamento progressivo da mata original que levava, não só a descaracterização da região, mas também o risco de desabamentos de rochas que não tinham mais onde se fixarem.
Nos anos 60 e 70, os fluxos migratórios de população de baixa renda se intensificaram e a fronteira da ocupação urbana sem planejamento foi estendida dos morros para os manguezais que circundam a ilha.
[...] O contingente populacional dessa aglomeração urbana que era de 111 mil indivíduos em 1959 e passara a 194 mil em 1960, cresceu para 386 mil em 1970, 706 mil em 1980 e 1.063 mil em 1991.
A nova dinâmica de articulação em que o Espírito Santo se insere, não se dá apenas pelas mudanças ocorridas no campo, mas também pelo novo papel que assume as cidades, no caso Vitória, de concentrar o núcleo do processo produtivo, que vai deixar de estar nas atividades rurais, para se estabelecer na indústria.
A implantação dos grandes projetos industriais nos anos 60 e 70, desencadeou a concentração urbana na Grande Vitória. Na década de 60 houve aumento de área construída em Vitória, com discretas manifestações depois da criação do BNH, em 1964, mas nunca foi tão grande o crescimento de construções como entre 75 e 82.
Vitória concentra, pelo menos durante a década de 70 e boa parte da década seguinte, a verticalização que se processa na Grande Vitória, precedendo a que depois alcançaria Vila Velha.
A partir da década de 80, a verticalização se intensificou na Grande Vitória. Na capital esse aspecto volta-se para a região norte, onde se localiza a Praia do Canto, região com condições propícias para implementação de projetos modernos de verticalização, tendo em vista que esta região é considerada “nobre” com áreas de grandes residências, ruas arborizadas, que possuíam infra-estrutura.
A cidade de Vitória é considerada um setor de extrema importância para a região metropolitana, pois esta área é provida de equipamentos comunitários e infra-estrutura urbana próprias para abrigar órgãos do governo de todos os níveis. Também é onde se encontram as principais instalações de comércio e serviços, além de constituir o principal núcleo de atração e aglomeração, concentrando os equipamentos culturais, de saúde, educacionais e recreativos.
A partir da prefeitura de Dr. Vitor Buaiz, as políticas públicas municipais despertaram para a revitalização do centro de Vitória. Inicialmente com ações voltadas para áreas de cultura e patrimônio que depois se estenderam para a melhoria de vida dos que habitam e utilizam o centro para as mais diversas tarefas, algumas demandas eram prementes como a ocupação desordenada das regiões de encosta.

O que temos certeza é que o imaginário criado sobre o centro, que historicamente se coloca na modernização do século XX como o embate entre o velho e o novo, deve ser resgatado através do conhecimento sobre a região. A população do município deve ser levada a conhecer e valorizar o centro de Vitória para que possamos, consequentemente, valorizar a História do Espírito Santo e da capital, escrita nesse belo pedaço de ilha do século XVI até os nossos dias.

DEUSES DA TERRA

comunaprevestibularpopular @ 01:24

DEUSES DA TERRA
Acima dos Faraós, só existiam as divindades para os egípcios

Os faraós representam um dos mais magníficos verbetes da História. As representações de suas figuras imponentes, preservadas por mais de 5 mil anos em enormes monumentos de pedra, esculturas e pinturas diversas, já seriam suficientes para conferir aos antigos soberanos do Egito sua singularidade. Não bastasse isso, a literatura e o cinema, de tempos em tempos, ressuscitam os grandes faraós, seja publicações, como a recente série de livros “Ramsés” e “A pedra da luz”, de Christian Jacq; ou no clássico filme “Os dez mandamentos”, de Cecil B. De Mille. A idéia de eternidade, tão típica da arte e da arquitetura do Antigo Egito, não poderia ser melhor representada. Dois mil anos após a queda do Egito dos Faraós, aqueles grandes líderes ainda fascinam o mundo todo.

Quem eram?
O faraó era o rei do Egito. Tudo, absolutamente tudo, pertencia nominalmente a ele. Este poder vinha da idéia de que o faraó era verdadeiramente um deus na Terra. Como descendente das divindades adoradas pelos egípcios, cabia a ele o poder sobre todas as coisas, como também era de sua responsabilidade a proteção do povo egípcio. O termo “faraó”, em egípcio, significa “casa grande”. Em princípio, era uma palavra que se referia à moradia do rei. Não se sabe ao certo quando foi que o termo passou a ser usado para designar a figura do próprio soberano do Egito. Alguns estudiosos acreditam que foi a partir de 1.400 a.E.C. (antes da Era Comum); outros, defendem que foi depois de 950 a.E.C.
Portanto, o Egito era uma teocracia, ou seja: a autoridade de governar vinha de Deus – ou dos deuses, como era mais freqüente – para ser exercida por seu representante na Terra, o faraó. Diferente das demais nações da época, cujas cidades eram bastante independentes, o Egito era um Estado forte, centralizado. Os governantes das cidades e vilas, tinham poder limitado.

Organização social e econômica
A grosso modo, o Egito era dividido em quatro classes, que podem ser representadas por uma pirâmide. No topo, ficava o faraó, abaixo dele, vinham os nobres e os funcionários palacianos (sacerdotes, escribas, oficiais militares). Uma terceira classe era formada por mercadores, artesãos, operários e camponeses, que também eram convocados para trabalhar na construção de obras públicas. Lá embaixo ficavam os escravos, conquistados em guerras ou escravizados por deixarem de pagar os impostos.
Embora fossem autônomos, os monarcas tinham poder limitado. Quem realmente ditava os rumos eram aqueles que representavam o poder central, ou seja, os escribas, que estavam subordinados ao faraó. Como podiam ler e escrever, eram eles os responsáveis pela contabilidade do reino, registrando as negociações e arrecadação de impostos. Estes impostos eram pagos, de forma geral, em mercadoria ou trabalho. Todo camponês, por exemplo, era obrigado a produzir um excedente que era repassado ao faraó. Parte desta riqueza financiava a vida do governante, de sua família e dos funcionários do palácio. Parte era empregada na construção das grandes obras públicas. E outra parte da produção não era negociada, ficando armazenada para os períodos de baixa colheita.

Trajetória
Os rumos da história do Egito foram definidos pelos faraós em pouco mais de 3 mil anos de reinado. Cada dinastia – série de soberanos pertencentes a uma mesma família – representou maior ou menor avanço para a civilização egípcia, dependendo da índole, das crenças, da competência e até do humor e das paixões de seus faraós. Pela vontade de seus reis, o Egito viu templos que veneravam suas próprias divindades serem destruídos, guerras serem travadas e milhões de vidas serem perdidas. Também pela vontade dos faraós, alguns dos maiores monumentos da humanidade foram construídos, ciências como a matemática, a astronomia e a medicina avançaram, uma escrita extremamente elaborada foi criada, regiões desérticas passaram a ser férteis e o resto do mundo recebeu, preservada dentro de suntuosos túmulos, uma contribuição histórica inestimável.

A história de um povo
O historiador grego Heródoto disse que “o Egito é uma dádiva do Nilo”. Com razão, foi graças ao Nilo que a civilização egípcia floresceu, mas é impossível precisar exatamente quando. Acredita-se que por volta de 5.500 a.E.C., algumas comunidades agrárias já se formavam na região sul do rio (conhecida como Alto Egito, em contraposição ao Baixo Egito, que ficava ao norte, na região do delta do rio, já próximo ao mar Mediterrâneo). Estes egípcios antigos, provavelmente nômades e caçadores até então, trocaram o hábito da caça pelo da agricultura, percebendo a riqueza do solo das margens do rio.
Quando chegava o período das cheias, as águas do Nilo avançavam sobre grandes áreas marginais, fertilizando o solo. Quando ele se retirava de volta ao leito, a terra estava pronta para ser semeada. Não à toa, os egípcios consideravam o Nilo um Deus, então chamado de Hapi. A faixa do terreno fertilizada pelo rio era chamada de Terra Preta, onde a vida florescia; o deserto era a Terra Vermelha, o reino dos mortos e lá foram construídas as pirâmides e templos mortuários dos nobres e dos faraós.
Já no período pré-dinástico (anterior às dinastias dos faraós), os egípcios iniciaram um primoroso trabalho de irrigação, levando as águas do Nilo para regiões mais distantes do curso do rio. Também construíram diques para controlar as cheias, e este constante esforço para tirar o melhor proveito da natureza fez com que houvesse um tremendo avanço na geometria e na matemática. Com o tempo, já estavam criando carneiros, cabras, vacas e burros, tecendo linho de altíssima qualidade, trabalhando artefatos de pedra e cobre, modelando e pintando vasos, usando óleos como perfume, maquiando os olhos com malaquita para se protegerem do sol, fabricando cerveja e construindo casas de adobe – espécie de tijolo cru, feito com argila e palha.
Surgiu também o sistema de escrita hieroglífica, que usava símbolos pictóricos para representar idéias e sons. Os primeiros registros encontrados datam da Primeira Dinastia, mas, por ser bastante elaborada, acredita-se que a escrita já vinha sendo desenvolvida no Egito muito tempo antes do período dinástico. Esta escrita só foi decifrada no século 19. O francês Jean Fraçois Champollion começou a entender os hieróglifos em 1821, a partir das inscrições na Pedra de Rosetta. Este monolito de basalto negro foi gravado em 196 a.E.C. e contém um texto de exaltação a Ptolomeu V, rei fanfarrão da Dinastia Ptolomaica, no período da decadência do Egito faraônico. Esta descoberta foi a chave para a compreensão do Antigo Egito e é a base da egiptologia. O nosso calendário de 365 dias também é herança dos egípcios, que dividiram o ano em 12 meses de 30 dias, com mais cinco dias de festa ao final de cada ano.
Uma vez estabelecidas, aquelas aldeias agrárias se transformavam em nomos, comunidades autônomas que contavam com chefes políticos, os nomarcas. Os nomos mais organizados começaram a se destacar dos demais, como Tinis, Naqada, Buto e Apolinópolis. As ligações entre os nomos acabaram por dar origem a dois reinos distintos: o Baixo Egito, na região do delta do Nilo; e o Alto Egito, mais ao sul. Por volta de 3.200 a.E.C., o primeiro faraó, Menés, unificou os dois reinos, dando início ao período dinástico. Este período de grandes avanços na história do Egito é dividido em quatro épocas: do Antigo Império, que vaide 3.200 – 2.235 a.E.C.; o Médio Império, que vai de 2.060 – 1.650 a.E.C., quando a Época de Ouro chegou ao fim; e o Império Tardio, entre 1.085 – 323 a.E.C.
Estas datas são aproximadas, pois os historiadores jamais chegaram a um consenso par uma divisão sistemática comum. A partir de 323 a.E.C., após a morte de Alexandre, o Grande, o Egito viveu o período da Dinastia Ptolomaica. Até 30 a.E.C., foi governado por macedônios e gregos, às vezes com intervenção de Roma, o que leva muitos pesquisadores a renegar tal período como parte da história do Egito faraônico. Mas quando chegou ao poder, Ptolomeu assumiu para si o título de faraó, bem como os seus descendentes, que chegaram a colocar o Egito de volta no caminho do desenvolvimento, mesmo que por um curto período. A partir de 30 a.E.C., ano da morte da lendária rainha Cleópatra VII, o que restava do moribundo Egito faraônico deixou finalmente de existir. Sob o domínio do imperador Augusto, o país foi transformado numa mera província romana.

Período Arcaico
A maior parte dos historiadores aceita a tradição egípcia que define o rei Menés (ou Narmer) como o primeiro faraó, o chefe que unificou o Alto e o Baixo Egito por volta de 3.200 a.E.C.. Ele é o fundador da Primeira Dinastia, um humano que, para seus súditos, era descendente direto dos deuses. O aglomerado de nomos foi unido sob o comando de Menés e assim nasceu uma nação, que tinha a capital na cidade de Tinis. Por causa disso, este primeiro momento do Egito dinástico é conhecido também como período tinita. O processo de unificação iniciado por Menés foi levado adiante por seus sucessores, 18 reis de duas dinastias diferentes, que governaram durante cerca de 400 anos. Os historiadores não chegam a um consenso sobre o período através do qual a capital do Egito esteve estabelecida em Tinis. Alguns afirmam que Menés foi o responsável da transferência da capital para Menfis, atual Cairo, ao passo que outros defendem a tese de que a mudança só ocorreu um século depois.
Seja de onde for que os faraós governavam o Egito, nestes primeiros séculos a nação só fez se desenvolver. Novas terras foram anexadas ao território egípcio, expedições comerciais foram enviadas a Núbia (Sudão), Líbano e Sinai, surgiu o papiro, e a escrita se desenvolveu enormemente. Todas as transações eram registradas, e isso colaborou para que o governo se mantivesse forte e centralizado. Foram escritos papiros médicos, as construções de pedra começaram a surgir e os faraós passaram a ser enterrados nas enormes mastabas, iniciando a tradição que viria a deixar para o mundo alguns de seus maiores monumentos: as pirâmides.
No final da Segunda Dinastia, no entanto, quase que todo este desenvolvimento fo por água abaixo. Dois reis, Persiben e Khasekhem, reivindicaram o trono. No início do confronto Khasekhen se viu obrigado a recuar para o Alto Egito, estabelecendo-se por lá, enquanto Persiben governava a partir do delta do Nilo, provavelmente de Menfis. O Egito estava novamente dividido. Mas Khasekhen conseguiu derrotar Persiben e reunificou o estado egípcio sob seu comando. Da beira de uma derrocada, o Egito se colocou em um trampolim que o levaria àquele que viria a ser seu mais glorioso período: o Antigo Império.

Antigo Império
O Antigo Império começou com a Terceira Dinastia, aproximadamente entre os anos de 2.700 e 2.650 a. E.C.. O governo, neste período, tinha evoluído de vez para uma teocracia, e o faraó, praticamente um deus na Terra, reinava absoluto. O Egito era uma nação extremamente rica e desenvolvida, como fica patente pelas fabulosas construções erguidas no período. Acredita-se que nunca os faraós tiveram tanto poder quanto nesta época. O país foi dividido ofcialmente em nomos, e cada chefe de nomo era, invariavelmente, ligado ao faraó por laços de sangue. Isso permitiu que o governo ficasse ainda mais centralizado nas mãos do rei. Expedições buscavam outo, cobre e turquesa em várias regiões, anexando mais territórios e aumentando a riqueza do reino.
A construção das pirâmides começou na Terceira Dinastia, com o faraó Zhoser (ou Dsojer), que ordenou a Imhotep que erguesse a Pirâmide de Degraus. Durante a Quarta Dinastia, foram construídos os mais famosos monumentos do Egito: as Pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos. O culto ao deus-sol, Rá, também foi introduzido durante a Quarta Dinastia, considerada por boa parte dos historiadores como o período áureo do Egito dinástico. A partir da Quinta Dinastia, as pirâmides passaram a ser erguidas em escalas menores, já que os recursos eram empregados na construção de templos do sol. Até a Sexta Dinastia, o Egito conheceu um grande avanço na arquitetura, escultura, pintura, navegação, medicina e astronomia – o calendário de 365 dias foi introduzido neste período pelos astrônomos de Menfis. O nosso calendário de 365 dias é uma herança dos egípcios, que dividiram o ano em 12 meses de 30 dias, com mais 5 dias de festa ao final de cada ano.

Primeiro Período Intermediário
A Sétima Dinastia marca o início do Primeiro Período Intermediário e o enfraquecimento do poder dos faraós. Embora os reis da Quarta Dinastia tenham colocado seus parentes para governar os nomos, os faraós seguintes não fizeram o mesmo. Os postos de comando estavam nas mãos de outras famílias que ficavam mais poderosas a cada dia. O último grande faraó da Sexta Dinastia, Pepi II, governou por 94 anos, e sua idade avançada também enfraqueceu seu comando, abrindo a guarda do trono para receber golpes cada vez mais duros. Para piorar, o Egito passou por uma tremenda seca e a fome assolou o reino. E o faraó, um deus na Terra, não podia fazer nada.
Durante o Primeiro Período Intermediário, que durou até a Décima Dinastia, o poder central praticamente desapareceu. Os líderes dos nomos se viravam como podiam para tentar aplacar a fome do povo. Guerreavam uns com os outros, disputavam o poder em diversas regiões. Os reis que governavam Menfis se diziam faraós, mas não eram reconhecidos fora da cidade e se sucediam com grande velocidade no poder. O estado estava totalmente fragmentado, até que surgiu uma nova divisão entre Alto e Baixo Egito. Uma família unificou o Baixo Egito a partir de Heracleópolis e seus chefes reivindicaram o título de faraós, ao passo que outra governou o Alto Egito baseada em Tebas, sem requerer no entanto, o título faraônico.

Médio Império
O grande responsável pela reunificação do Egito foi o faraó Menthuhotep, descendente da família que governava a partir de Tebas e que teve Antef (ou Inyotefs) como fundador da Décima Primeira Dinastia. Sob o comando de Menthuhotep, o Alto Egito venceu os adversários de Heracleópolis e devolveu a unidade ao Estado. A nova capital do Egito passou a ser Tebas. O período entre a Décima Primeira e a Décima Quarta Dinastia é conhecido como Médio Império. Esta nova era representava também o culto a uma nova divindade. Como Amon era o deus principal de Tebas, o deus original e criador, sua imagem acabou fundindo-se com a de Rá, pois o culto solar ainda era muito forte no Egito. Desta associação surgiu o deus Amon-Rá.
Durante esta época, foi novamente reconhecido como o governante supremo do Egito. Mas ele já não tinha mais aquele poder absoluto que possuiu durante o Antigo Império. A força dos governadores dos nomos foi mantida. Alguns deles tinham até mesmo seus próprios exércitos, mas o faraó os mantinha sob seu comando político. Durante a Décima Primeira Dinastia, o Egito reatou suas relações comerciais exteriores, voltou a explorar riquezas em regiões como as do Sinai e da Núbia e restabeleceu seu poder bélico. Com os cofres do Estado cheios e a volta do acesso à matéria-prima de qualidade, a arte e a arquitetura, que sofreram um grave declínio durante o turbulento Primeiro Período Intermediário – que, de forma contrastante, registrou uma grande evolução na literatura – voltaram a florescer. Este período de glória para o Egito perdurou também durante a Décima Segunda Dinastia, fundada por Amenemhat I (ou Amenemés).

Segundo Período Intermediário
Alguns estudiosos gostam de citar a Décima Quinta Dinastia como o marco do início do Segundo Período Intermediário, pois foi quando os hicsos se estabeleceram como governantes do Baixo Egito, estendendo seu poder ao Alto Egito. Durante a Décima Terceira e a Décima Quarta Dinastia, o Egito foi governado por faraós que comandavam simultaneamente a partir de Menfis e Avaris. Os governos eram curtos e tumultuados e, novamente, o Egito se viu fragilizado e dividido em dois reinos.
Houve um aumento muito grande na imigração durante o Médio Império. Inicialmente, estes imigrantes, na maioria vindos da Ásia, provavelmente da Palestina e da Síria, chegaram para trabalhar como servos contratados. Estes hicsos (“governantes estrangeiros”, em egípcio) logo ascenderam na estrutura social da época e, em pouco tempo, tomaram o poder, ajudados pelo cenário caótico que imperava ao final do Médio Império. Os faraós hicsos estabeleceram sua capital em Avaris e assumiram os costumes locais, inclusive usando nomes egípcios. Os estrangeiros introduziram os carros de guerra puxado por bois ou cavalos e a utilização do bronze – em vez do cobre – na confecção de armas. Apresentaram ainda o tear vertical, instrumentos musicais, como o tamborim, e novos alimentos, como a azeitona e a romã.
O governo direto se dava apenas no Baixo Egito, mas o Alto Egito também pagava tributos aos chefes hicsos. As relações entre Avaris e Tebas, principal cidade do Alto Egito, permaneceram amistosas por um bom período. Até que o líder tebano Sekenenre Tao foi insultado pelo governo de Avaris e, em retaliação, invadiu o território dos hicsos, dando início a uma nova guerra contra o Baixo Egito. Sekenenre morreu em combate, mas seu filho Kamósis continuou a luta. Ele também foi morto, mas Amósis conseguiu expulsar os hicsos de volta para a Ásia. O Egito estava novamente unificado e entrava em um novo período: o Novo Império.

Novo Império
Amósis é considerado o fundador da Décima Oitava Dinastia e, também, do Novo Império, que se estendeu até a Vigésima Dinastia e representou uma nova era de grandes construções de templos religiosos. Nascido e criado na guerra, Amósis estabeleceu Tebas como nova capital do Egito reunificado e levou seu exército rumo ao sul, a fim de conquistar partes da Núbia. Com os militares a seu lado, tirou o poder dos monarcas locais, deixando-lhes apenas alguns poucos direitos de líderes de aldeias e pequenas cidades. A guerra foi a linguagem de grande parte do Novo Império. O Egito era agora uma potência imperialista. Alguns dos faraós mais famosos da história reinaram neste período, como Ramsés II, Akhenaton, a rainha Hatchepsut e Tutankhamon.
Depois de Amósis, Amenhotep I (ou Amenófis I) deu seqüência a expansão do reino egípcio, estendendo os limites do império até a Núbia e a Palestina. Seu sucessor Tutmés I, deu seqüência à expansão do Novo Império, ao mesmo tempo que reforçava a crença no deus Amon. Neste período, as pirâmides dos faraós vinham sendo seguidamente violadas por ladrões que levavam não só os tesouros guardados lá dentro como as próprias múmias dos reis. Tutmés I foi o primeiro faraó a construir sua tumba no Vale dos Reis, onde os túmulos eram escavados na rocha e, assim, ficavam protegidos dos saqueadores.
E graças ao Vale dos Reis – que fica próximo ao Vale das Rainhas, onde eram enterradas as esposas e os filhos dos faraós – que muito da história do Egito Antigo chegou intacto a nossos dias. Foi ali, por exemplo, que foi encontrada praticamente intocada a tumba do faraó Tutankhamon, em 1922. Ele também foi rei durante a Décima Oitava Dinastia. Antes dele, governantes mais importantes de fato para a história do Egito reinaram, como a grande rainha Hatchepsut e o faraó Amenófis IV, que tentou estabelecer o monoteísmo por meio da crença em Aton, o deus do Disco Solar. Amenófis IV que era casado com Nefertiti, mudou seu nome para Akhenaton. Durante o seu reinado, o Egito sofreu bastante, uma vez que a preocupação com a reforma religiosa era maior que com outros assuntos do estado.
Durante a Décima Nona e a Vigésima Dinastias, os faraós seguiram empreendendo expedições militares, anexando novos territórios e fazendo mais escravos. Entre eles estavam os Hebreus, que escaparam do Egito sob o comando de Moisés, durante o episódio narrado na Bíblia como o “Êxodo”. Dentro do país, a cultura seguia se desenvolvendo a todo vapor, novos materiais eram usados pelos artesãos, enormes estátuas eram construidas em homenagem aos faraós e, com a retomada do politeísmo, magníficos templos foram erguidos para honrar os deuses.

Último Reinado
Com a morte de Ramsés XI, o último faraó da Vigésima Dinastia, o Egito voltou a ser dividido em dois reinos e, daí em diante, foi reunificado, esfacelou-se novamente e teve poucos períodos de florescimento entre a Vigésima e a Trigésima Dinastias. Este período decadente, que se estende até a completa extinção dos faraós com a morte de Cleópatra VII, em 30 a.E.C., é marcado pela queda do Antigo Egito e é conhecido também como Reinado Recente. O país perdeu territórios, foi invadido, viver terríveis guerras civis, foi governado por cushitas, líbios, assírios, etíopes, babilônios, persas… Estas mudanças de comando duraram até 332 a.E.C., quando Alexandre Magno (ou O Grande) resolveu incluir o Egito em sua série de conquistas e tomou o país. A partir dele se estabeleceu o que ficou conhecido como Dinastia Ptolomaica, que foi a última dinastia faraônica;
Durante sua breve estada em terras egípcias, Alexandre deu início à construção de Alexandria, que viria a ser o centro mundial da arte e da cultura, com uma grande universidade clássica, uma biblioteca que reunia a maior coleção de manuscritos do mundo, um farol que está entre as Sete Maravilhas do Mundo Antigo e o mais e rico e movimentado porto do planeta. Quando Alexandre morreu, seus generais dividiram os reinos conquistados entre eles. Ptolomeu ficou com o Egito, nomeou-se faraó e declarou a independência do país. Um novo período de prosperidade estava começando com a Dinastia Ptolomaica;
Os primeiros Ptolomeus foram bons governantes, mas o progresso não durou muito. Reis megalômanos e egocêntricos como Ptolomeu V – se bem que, graças ao grande amor deste monarca por si próprio é que Champollion pôde decifrar os hieróglifos… - e festeiros e bárbaros como Ptolomeu VIII – que, entre uma farra e outra cortou o corpo do próprio filho em pedaços e mandou à mãe como presente de aniversário – levaram o Egito novamente à ruina. Cleópatra VII, filha de Ptolomeu Aulete – que, reza a lenda, gostava de levar a vida na flauta, dedicando mais tempo ao instrumento de sopro que ao governo – ela foi a última rainha do Egito faraônico.
Sua história, contada em prosa e verso revela que era uma mulher de pulso forte, despótica e que sua ambição era restaurar o poder faraônico e transformar o Egito novamente em uma potência do Mediterrâneo. Para isso, não mediu esforços. Ela abriu guerra contra um irmão, Ptolomeu XII, e talvez tenha mandado matar outro, Ptolomeu XIII. Seduziu dois generais romanos de grande prestígio – Júlio César e Marco Antônio -, e com estas relações, aproximou Alexandria de Roma, levando assim o Egito a um lugar de destaque no cenário mundial, pelo menos por um curto período de tempo. Quando Otávio tomou o Egito e derrotou Marco Antônio, Cleópatra aparentemente se suicidou junto ao corpo do consorte. Ambos foram sepultados no mesmo túmulo. Com Cleópatra VII, morria também o Egito faraônico.

Fonte: Revista Grandes Líderes da História – OS GRANDES FARAÓS
Adaptação: Emerson Sbardelotti
prof.emerson.comuna@hotmail.com
orkut: Comuna Pré-Vestibular Popular
comunidade no orkut: Professor Emerson

23/03/2008 GMT 1

PÉROLAS

comunaprevestibularpopular @ 23:39

PÉROLAS

o tonhão me mandou essa:

o primeiro sucesso musical de Tonhão:

PÉROLAS
(Tonhão / Hernandes / Cabral / Sandro / Emerson e toda a galera que escreve um monte de besteira na prova do Enem e no Vestibular)

1.Eu conheço quem tem lumbriga pelos óios (bis).

refrão:FALAR, ATÉ PAPAGAI FALA (4X)

2. As minhoca são uns bicho muito nojento (bis).
3. As ave tem um dente chamado bico (bis).
4. O ateísmo é uma igreja que não tem nome (bis).
5. Os crustáceos fora dágua respira como podi (bis).
6. A capital de Portugal é Luiz Boa (bis).
7. A Terra é o país mais conhecido (bis).
8. As estrela serve para esclarecer a noite (bis).
9. Os AEDIS EGIPTO transmite AIDS (bis).

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